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O teletrabalho apareceu como uma solução de recurso durante os confinamentos e ameaça agora tornar-se o pivot de uma nova organização social do trabalho. Considera globalmente positiva ou nefasta esta tendência?

Grande parte das organizações que necessitaram, conseguiram adaptar-se ao trabalho a distância, mas isso é diferente de terem construído um modelo de teletrabalho. As condições para a realização do teletrabalho variam com as condições de contexto organizacional e pessoal, pelo que a adopção deste formato deve respeitar as diferenças e ser o mais personalizado possível e ajustado a esta dupla realidade: da entidade empregadora e do trabalhador. Para muitas situações o modelo híbrido será tendencialmente adoptado, mas mesmo neste modelo deve estar-se atento a aplicações formatadas e rígidas que não atendam à especificidade da organização, caso a caso e sempre escutando os trabalhadores. Esta tendência pode ter impactos positivos no bem-estar e na produtividade se forem implementados verdadeiros modelos de teletrabalho.

Para que o resultado seja verdadeiramente positivo, é preciso que as empresas/organizações, e sobretudo as suas lideranças, tenham em conta vários factores. Devem ser evitados horários de trabalho excessivos, respeitando-se o direito a desligar. Deve facilitar-se a criação de espaços de trabalho adequados em casa, dando acesso a todo o material necessário. E deve ser promovida a autonomia e o envolvimento dos trabalhadores na adopção deste modelo de trabalho.

Para o indivíduo – em todas as suas dimensões -, que consequências poderá ter esta fusão dos espaços privado/familiar e profissional/laboral ?

Depende de indivíduo para indivíduo. Das condições que cada um tem no espaço que habita. É diferente estarem duas pessoas em teletrabalho no mesmo espaço de um T1 ou estar uma pessoa num escritório numa casa com espaço exterior. Dados da OCDE de 2020 indicam que a fusão entre a vida pessoal e profissional sobrecarregou principalmente as mulheres e as mães e pais solteiros. Isto porque muitas vezes os horários de trabalho foram mais prolongados e houve dificuldade de conciliação com as tarefas domésticas e de cuidado.

Certo é que no final de 2021 muitos ainda estão em teletrabalho ou a trabalhar em modelos híbridos e tudo indica que estes vieram para ficar. E podem ser positivos para os indivíduos se estes forem ouvidos e envolvidos na decisão. Se nos novos modelos que forem adaptados os colaboradores forem ouvidos e se forem tidos em conta o bem-estar e a prevenção dos riscos psicossociais. Estes existem, quer no trabalho presencial, quer no teletrabalho ou nos modelos híbridos. E preveni-los devia ser fundamental na estratégia de qualquer empresa ou organização.

As condições para a realização do teletrabalho variam com as condições de contexto organizacional e pessoal, pelo que a adopção deste formato deve respeitar as diferenças e ser o mais personalizado possível e ajustado a esta dupla realidade: da entidade empregadora e do trabalhador.

Pelo reporte dos profissionais inscritos na Ordem, já é possível fazer um balanço das consequências do teletrabalho na vida pessoal e laboral de quem o protagonizou?

Não. Precisamos de mais tempo e investigação para conclusões mais definitivas. Na generalidade os psicólogos adaptaram-se  bem à necessidade do teletrabalho. Quer no contexto clínico, como noutros como a educação ou nas organizações.

Qual das duas soluções (ou outra) lhe parece mais desejável: regime misto (casa/local de trabalho) ou a personalização do local de trabalho?

O regime misto, que conjugue o trabalho presencial com o teletrabalho. O modelo híbrido permite usufruir dos benefícios de cada um dos regimes de forma a aumentar a produtividade das organizações e a satisfação e o bem-estar dos trabalhadores. Por um lado, perdem menos tempo em trânsito por semana. Por outro, conseguem manter o contacto presencial e a interação com os colegas.

Mas, para que o resultado seja verdadeiramente positivo, é preciso que as empresas/organizações, e sobretudo as suas lideranças, tenham em conta vários factores. Devem ser evitados horários de trabalho excessivos, respeitando-se o direito a desligar. Deve facilitar-se a criação de espaços de trabalho adequados em casa, dando acesso a todo o material necessário. E deve ser promovida a autonomia e o envolvimento dos trabalhadores na adopção deste modelo de trabalho.

O que sugeriria de concreto para esta vertente do local onde é exercida a profissão e do modo como são organizados, respetivamente, os seus espaço e tempo?

Seja em que modelo for, o importante é que se construam locais de trabalho saudáveis. E isso faz-se quando a carga do trabalho corresponde às competências dos trabalhadores e quando estes estão envolvidos no planeamento da sua carga de trabalho. Faz-se quando são avaliados os riscos psicossociais. Quando se promove a saúde psicológica na empresa ou organização. Quando os trabalhadores participam nos processos de tomada de decisão da organização. E quando os trabalhadores são reconhecidos. E tudo isto pode acontecer nas instalações da organização ou com os trabalhadores em casa alguns dias por semana. O recente Guia Técnico n.º 3 da DGS é um referencial importante a ser seguido com este propósito.

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