A saúde mental já é, finalmente, vista pelas pessoas com a atenção dedicada a outras áreas do seu corpo e sem preconceito?

Gostaria de poder dizer que sim, mas não. A Covid-19 colocou definitivamente o tema da saúde mental em cima da mesa por várias razões, mas não é suficiente. Atualmente ouvimos falar muito mais frequentemente da importância da saúde mental do que antes da pandemia. Estes últimos dois anos trouxeram vários desafios para a população, como o isolamento social, a incerteza quanto ao futuro, o medo do contágio, o impacto económico e até as alterações na maneira como desempenhamos a nossa atividade laboral, como por exemplo a adoção em grande escala do teletrabalho. A pandemia mostrou que, de uma forma geral, todos nós somos vulneráveis ao sofrimento psicológico e ninguém está imune. Isto foi revolucionário, porque os problemas de saúde mental são tradicionalmente encarados como problemas dos “outros” e que “nunca nos toca a nós”. Além disso, e de certa forma consequentemente, também se tornou mais comum falarmos da necessidade de cuidarmos da nossa saúde mental, da importância da resiliência e dos autocuidados. A frase “não há saúde sem saúde mental”, um lema antigo da OMS, ilustrou na perfeição este período histórico e foi captado (finalmente!) facilmente pelas comunidades.

Contudo, apesar de atualmente parecer existir muita mais atenção à saúde mental, o caminho ainda é longo (e incerto) para esta dimensão da saúde ser encarada como outra qualquer. A saúde mental faz parte da saúde em geral, apesar de muitas vezes continuar a ser vista como um “parente pobre”. Os problemas de saúde mental são frequentemente associados a “fraqueza” ou “preguiça”, dependentes da força de vontade da pessoa. Este estigma impede muita gente de procurar ajuda atempadamente, pois na tentativa de evitar ser rotulado como “maluco” ou “doente mental”, a pessoa não procura ajuda, mantendo-se em sofrimento, muitas vezes com agravamento da sua situação clínica.

As doenças psiquiátricas são muito comuns. Um grande estudo epidemiológico realizado em 2014 mostrou que Portugal tinha a segunda prevalência mais elevada de doenças psiquiátricas da Europa, só ultrapassado pela Irlanda do Norte. Um em cada cinco portugueses sofre de uma doença psiquiátrica. Este estudo mostrou ainda outros dados preocupantes, nomeadamente um grande atraso na procura atempada de ajuda. Este cenário não se altera em dois anos de pandemia.

Ainda há um longo caminho a percorrer, não só no âmbito do combate ao estigma e na literacia em saúde mental, mas também na organização dos serviços, que garantam o acesso das pessoas aos cuidados que precisam em tempo útil.

Apesar de atualmente parecer existir muita mais atenção à saúde mental, o caminho ainda é longo (e incerto) para esta dimensão da saúde ser encarada como outra qualquer. A saúde mental faz parte da saúde em geral, apesar de muitas vezes continuar a ser vista como um “parente pobre”

O teletrabalho tem sido um coadjuvante ou um elemento perturbador do equilíbrio entre a vida pessoal e a vida profissional de quem está neste regime?

O teletrabalho foi a solução escolhida por vários trabalhadores e empresas durante a pandemia. Sabemos que o teletrabalho é uma solução que permite a manutenção da atividade laboral com o mínimo de contactos sociais, mas não está, de todo, isenta de desafios para a saúde mental dos trabalhadores. O teletrabalho pode condicionar e aumentar o isolamento social e ainda, interferir com as rotinas familiares. A dificuldade em manter horários definidos (do trabalho e não trabalho) ao longo do dia e a necessidade de recorrer ao multitasking - trabalhando e cuidando dos filhos ao mesmo tempo, por exemplo - podem aumentar os níveis de cansaço, irritabilidade e ansiedade.

Por outro lado, sabemos que em determinadas situações, o teletrabalho pode até ser uma mudança bem aceite, pois pode facilitar a organização das rotinas do dia a dia dos horários, permitir uma maior liberdade do trabalhador e de um modo geral promover um maior equilíbrio entre a vida profissional e pessoa.

Assim, podemos dizer que o impacto do teletrabalho na saúde mental do trabalhador está dependente de vários fatores: fatores relacionados com as características do próprio trabalho, características da pessoa como a sua personalidade e preferências e ainda a configuração do seu ambiente familiar. Assistimos a uma grande variabilidade de opiniões e reações ao teletrabalho e cada caso acaba por ser um caso, com características muito próprias.

Nestes mais de dois anos de pandemia, enquanto profissional da área da saúde mental, tem tido um reporte maioritariamente negativo ou positivo dos seus pacientes sobre o teletrabalho?

Curiosamente, diria que a maioria dos relatos de doentes na minha prática clínica é positivo. O teletrabalho facilita a gestão de horários, permite uma maior liberdade na organização do trabalho e de um modo geral promove a conciliação da vida pessoal com a laboral. Quando o trabalhador e o empregador estão satisfeitos com a solução, o teletrabalho pode assumir-se como uma estratégia válida e até valiosa, para assegurar a continuidade laboral.

Vale a pena referir que em determinadas situações clínicas, mesmo estando o trabalhador aparentemente satisfeito com a modalidade de teletrabalho, esta pode não ser vantajosa do ponto de vista clínico. A título de exemplo, em certas situações, especialmente quando existe um forte medo do contágio ou um desejo marcado de isolamento social, como no contexto de uma perturbação depressiva ou de ansiedade, o teletrabalho surge como uma solução bastante apelativa para a pessoa em causa, pois permite manter-se na sua zona de conforto, minimizando as interações sociais, grandes causadoras de stress. Na verdade, nestes casos, reforçar o isolamento social e a lassidão das rotinas pode não ser benéfico do ponto de vista clínico, pois não promove a sua recuperação, autonomia e sociabilização. É necessário avaliar caso a caso e compreender os vários fatores envolvidos.

Da minha experiência, o teletrabalho tem surgido como um fator desestabilizador da saúde mental, quando existem vários elementos da família em teletrabalho em casa, quando estão presentes crianças em casa (por exemplo aquando do encerramento das escolas durante os confinamentos em 2020 ) e ainda quando a atividade laboral tem determinadas características que não permite uma clara separação dos horários de trabalho e de lazer.

A verdade é que a nossa atividade laboral, para além da garantia financeira que permite, é também um fator extremamente importante para a valorização pessoal, autoestima e sentimento de pertença. As vantagens e desafios da modalidade presencial ou à distância acrescentam mais uma camada de complexidade a esta relação já dependente de uma multiplicidade de fatores.

Da minha experiência, o teletrabalho tem surgido como um fator desestabilizador da saúde mental, quando existem vários elementos da família em teletrabalho em casa, quando estão presentes crianças em casa (por exemplo aquando do encerramento das escolas durante os confinamentos em 2020 ) e ainda quando a atividade laboral tem determinadas características que não permite uma clara separação dos horários de trabalho e de lazer.

Quais são os pontos críticos na organização do mundo laboral para que a vida profissional de cada indivíduo possa ser um fator de realização pessoal em vez de um sacrifício diário que ocupa a maior fatia do tempo em que está acordado?

O trabalho preenche grande parte da nossa vida e tem o potencial de contribuir para a valorização pessoal, aumento da autoestima e do sentimento de pertença. Contudo, em determinadas situações tem também o potencial de arruinar a nossa saúde mental.

Cada vez mais se fala da importância da saúde mental no trabalho, não apenas do ponto de vista do trabalhador, mas também do empregador e das organizações, como forma de estabilizar equipas e aumentar a produtividade. A promoção da saúde mental e a prevenção de problemas de saúde mental em contexto laboral, como o burnout, são importantes por si só na construção de uma sociedade mais saudável. Além disso, resultam em avultados ganhos económicos no sentido de evitar o absentismo e aumentar a produtividade – vários estudos indicam que por cada euro investido na saúde mental do trabalho, existe um retorno de nove euros.

A humanização do local de trabalho, a possibilidade de conciliar a vida laboral com a vida familiar, o sentimento de pertença e a valorização profissional são alguns dos ingredientes fundamentais que as empresas e organizações devem promover de modo a que os seus trabalhadores se sintam realizados e motivados. As empresas e organizações devem procurar respeitar as necessidades individuais de cada trabalhador e investir na promoção de um ambiente saudável de trabalho.

A promoção da saúde mental e a prevenção de problemas de saúde mental em contexto laboral, como o burnout, são importantes por si só na construção de uma sociedade mais saudável.

Qual o campo de intervenção da ManifestaMente? O balanço da atividade nestes cinco anos é encorajador?

A ManifestaMente é uma associação sem fins lucrativos, que se define como uma iniciativa cidadã pela saúde mental. Começou a ser sonhada em 2017 - a partir de uma conjugação de vontades - e estamos no terreno desde 2018. Definimo-nos assim” porque acreditamos que a saúde mental diz respeito a todos e é fundamental envolver a sociedade civil nesta problemática. A nossa equipa acredita na importância de FALAR, inspirando as pessoas a falar sobre saúde mental; JUNTAR, convocando não apenas técnicos de saúde mas toda a sociedade civil para a mesa de discussão sobre saúde mental e FAZER, encontrando soluções criativas para melhorar a saúde mental de todos nós e encorajar outros a fazer o mesmo.

Estes cinco anos foram pautados por um crescimento, de certa forma inesperado para nós. O nosso primeiro projeto foi o Kit Básico de Saúde Mental. Queríamos criar uma ferramenta de literacia em saúde mental dirigida a população em geral, que reunisse toda a informação que todos devem saber sobre este tema. Assim nasceu este Kit, um minicurso online, que conjuga o rigor científico com a linguagem descontraída, onde constam conteúdo como: o que é a saúde mental, como podemos cuidar dela, quais são os sinais de alarme, e como podemos procurar ajuda. Encontra-se disponível, de forma gratuita, no nosso site e já mais de 17.000 começaram a ver o Kit!

O Programa de Capacitação de Dinamizadores Locais foi outro projeto que implementámos em plena pandemia. Trata-se de um programa de capacitação de pessoas chave na comunidade, de modo que estas consigam promover a saúde mental nas suas comunidades em segurança. A primeira edição deste programa foi implementada no contexto autárquico e chegou a 166 trabalhadores, pertencentes a 45 autarquias distintas das regiões das Administrações Regionais de Saúde Lisboa e Vale do Tejo, Alentejo e Algarve. A complexidade do espectro saúde-doença mental é tão grande que as soluções não podem ficar restritas aos serviços clínicos. A promoção da saúde mental é uma área que deve envolver ativamente as populações e ainda há muito a fazer neste campo.

A equipa tem crescido a olhos vistos, e todos partilhamos a mesma visão e vontade de por mãos à obra para melhorar a saúde mental de todos nós. Mantemo-nos fiéis à nossa visão e com o mesmo entusiasmo que nos caracteriza desde o início. Vale a pena referir que a pandemia obrigou-nos a uma reformulação profunda dos nossos planos de atividades dos anos 2020 e 2021. Foi necessário mobilizarmos toda a nossa resiliência (e criatividade) para conseguirmos manter os objetivos a que nos tínhamos proposto tendo em conta as contingências sociais impostas pela pandemia.

Recentemente, começámos o ano 2022 com um presente inesperado. A Fundação Calouste Gulbenkian aprovou um apoio monetário excecional a doze organizações cuja ação se destacou durante a pandemia, e a Manifestamente foi uma delas. Não podíamos estar mais entusiasmadas a pensar nos projetos que temos na manga, que em breve iremos partilhar.

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