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“A literacia financeira é uma ferramenta de inclusão social”

Com quatro programas por si desenvolvidos em plena atividade - que abrangem todas as faixas etárias e também pessoas com défice cognitivo - a Fundação Dr. António Cupertino de Miranda é o principal promotor da literacia financeira em Portugal. A sua presidente, Maria Amélia Cupertino de Miranda, traça o perfil e o modus operandi desses programas, bem como o princípio maior que os guia.

Como nasceu a ideia da FACM criar o seu 1.º programa de literacia financeira?

A Fundação Dr. António Cupertino de Miranda (FACM) começou a conceber o seu primeiro programa de educação financeira em 2009.  Regista-se em 2010 o 1.º ano de implementação do programa “No Poupar Está o Ganho”, que hoje está na 14.ª edição e já impactou mais de 70 mil alunos do pré-escolar ao ensino secundário, em cerca de 80 municípios, a nível nacional. Para além disso, a experiência adquirida neste projeto conduziu-nos à expansão e reforço da abrangência da capacitação financeira a novos públicos, criando outros três programas: “Eu e a Minha Reforma”, “Por Tua Conta” e “Educação Financeira: Uma Necessidade Especial”.

A Fundação decidiu apostar na dinamização destes programas por vários motivos. Desde logo, porque se enquadram de forma perfeita naquela que, há quase 60 anos, é a sua missão: a realização de atividades educativas, sociais e culturais que promovam a sociedade do conhecimento e contribuam para a coesão social.

Para além disso, a Fundação tutela o Museu do Papel Moeda, que é detentor de uma extraordinária coleção, sendo a maior exposição privada de dinheiro de papel em Portugal. Além da preocupação que sempre existiu com a preservação do património, foi a preocupação de colocar a coleção ao serviço das pessoas que levou a Fundação a querer promover a consciencialização da importância do conhecimento do dinheiro e da educação financeira, a partir deste espaço museológico.

Há 14 anos, o tema da literacia financeira não estava sequer presente na opinião pública. A Fundação foi pioneira no seu desenvolvimento

A FACM assume a visão, a prática e os valores da filantropia estratégica e está muito comprometida com a inovação social, tendo a capacidade de identificar e responder a défices sociais. Investe em causas complexas, negligenciadas e que dizem respeito a um elevado número de pessoas. Causas essas que o Governo não pode ou não quer abraçar e, como tal, carecem de ser trazidas para a opinião pública, provocando reflexões, as quais invariavelmente reclamam urgentemente programas que ajudem à sua mitigação e tenham capacidade de influenciar políticas públicas.

Este é o ponto de partida para a abordagem do tema da literacia financeira, tema este que, há 14 anos, não estava sequer presente na opinião pública e no qual a Fundação se tornou pioneira no seu desenvolvimento.

O impacto social gerado tem sido medido regularmente e é visível. No caso do “No Poupar Está o Ganho”, o projeto tornou-se o ponto de partida para o desenho da Estratégia Nacional de Literacia Financeira e do Referencial de Educação Financeira, tendo ainda contribuído para que, em 2018, a educação financeira passasse a ser obrigatória em dois dos três ciclos do ensino básico.

Quem são os intérpretes, ou seja, quem transmite a informação e conduz as iniciativas que concretizam este programa?

Atualmente, o projeto é implementado por uma vasta equipa da Fundação, que integra técnicos de diferentes áreas: educação, psicologia, comunicação, design, multimédia, programação e gestão, que em estreita articulação com o Conselho de Administração, asseguram a concretização dos objetivos estabelecidos para cada projeto “no terreno”.

Um projeto desta dimensão e complexidade, implementado em continuidade, conta com fatores de sucesso, para os quais muito contribuem as fortes parcerias institucionais: Banco de Portugal, Associação Portuguesa de Seguradores, Faculdade de Economia da Universidade do Porto e ainda DGEstE.

Os programas de literacia financeira da FACM têm diferentes público-alvo. São originados de alguma experiência específica em que a Fundação tivesse diagnosticado lacunas?

O ponto de partida para o desenho de cada programa é um projeto de investigação levado a cabo com a Academia, que identifica e fundamenta o défice social que necessita de ser mitigado.

O projeto “No Poupar Está o Ganho” concretiza-se nas escolas. Como é feita esta articulação e de que forma se materializa?

A FACM distingue-se e é reconhecida pelo pioneirismo dos projetos de educação financeira e pela proximidade que mantém com os públicos.

A motivação dos professores, a qualidade e multiplicidade dos recursos que são disponibilizados (desde incontáveis conteúdos, a vídeos, jogos, desafios, atividades, etc.) são fatores de sucesso que fazem com que quem entra no projeto não só não o queira abandonar como também passe palavra para que a disseminação aconteça.

A partir daí, estamos em estreito contacto com os professores através da equipa do serviço de educação. E são centenas, a cada ano letivo! Todos têm a possibilidade de participar numa ação de formação acreditada, realizada em parceria com a Faculdade de Economia da Universidade do Porto, na qual além de serem abordados os conteúdos programáticos de acordo com o Referencial de Educação Financeira, é explicada a metodologia de implementação e os recursos pedagógicos disponibilizados, para que os professores se sintam confiantes a abordar os temas e a aplicar as atividades propostas em contexto de sala de aula, ao longo do ano letivo. Sem dúvida que temos encontrado professores muito empenhados em fazer a diferença junto das suas turmas, proporcionando atividades que dão às crianças e jovens competências para a vida!

Implementado desde 2018, o “Eu e a Minha Reforma” surgiu com o objetivo de capacitar financeira e digitalmente as pessoas com mais de 55 anos, mas o interesse que despertou junto de pessoas mais novas fez com que visse o seu âmbito de implementação alargado aos adultos em idade ativa

Com o apoio da equipa do serviço de educação, professores e alunos têm acesso a todos os recursos necessários ao ensino e à aprendizagem da educação financeira, para que possam, o mais cedo possível, desenvolver as competências necessárias em termos de planeamento, poupança e consumo responsável com vista à criação de uma relação saudável com o dinheiro.

O programa inclui ainda a realização de iniciativas como as Olimpíadas de Educação Financeira e um Concurso Final, que visam promover, através de uma competição saudável entre as turmas participantes, o envolvimento no projeto e o interesse pela aprendizagem da literacia financeira.

E o “Por Tua Conta” dirige-se exclusivamente a quem começa a trabalhar? Como chegam a essas pessoas?

O programa “Por Tua Conta” foi desenhado a pensar nos alunos que frequentam o ensino profissional com o objetivo de promover o desenvolvimento de competências que reforcem o seu perfil profissional de saída e a sua preparação para uma cidadania consciente/ comportamentos financeiros mais adequados. Subjacente à conceção deste projeto, houve uma preocupação de contribuir para a tão importante valorização do ensino profissional.

Se o domínio das competências financeiras assume importância central na fase de transição para a vida adulta e para a entrada no mundo de trabalho perante os desafios que se colocam, para os alunos do ensino profissional, esta questão é ainda mais premente, dado que o percurso da maioria dos jovens diplomados é a entrada direta no mercado de trabalho.

A metodologia de implementação deste projeto é muito semelhante à do “No Poupar Está o Ganho”, na medida em que é implementado nas escolas em continuidade, ao longo do ano letivo, disponibiliza formação aos docentes e uma grande diversidade de recursos pedagógicos, além da promoção de atividades e de um acompanhamento de proximidade.

No entanto, neste projeto privilegia-se uma aprendizagem mais prático-teórica, baseada na resolução de casos práticos e de questões-problema. Através da educação financeira, procura-se desenvolver mecanismos necessários à tomada de decisão e à capacidade de avaliação do impacto das decisões financeiras no imediato, assim como no médio e longo prazo. Ao realizar, de modo sistemático e intencional, atividades que permitam aos alunos fazer escolhas, confrontar pontos de vista, resolver problemas e tomar decisões financeiras em “contexto protegido”, procura-se que os alunos sejam capazes de transpor estas competências para outros contextos, promovendo a sua autonomia pessoal e capacitando-os para uma melhor adaptação futura ao contexto profissional.

E o que é ensinado no “Educação Financeira: Uma Necessidade Especial”? Como se estrutura o programa?

“Educação Financeira: Uma Necessidade Especial” é o nosso projeto mais recente e orgulhamo-nos de dizer que é um programa pioneiro de literacia financeira  para pessoas com défice cognitivo e incapacidade que apresentem necessidades adicionais de apoio nos domínios do conhecimento e da aprendizagem, envolvendo ainda os cuidadores formais e informais, professores e instituições sociais e estabelecimentos de ensino.

As pessoas com deficiência e incapacidade apresentam um conjunto de necessidades de apoio adicionais que carecem de respostas educativas diferenciadas que, em contextos de aprendizagem inclusivos, sejam capazes de promover a equidade no acesso à informação e às competências para a gestão do dinheiro, exigindo desde logo maior diversidade e qualidade dos recursos e das estratégias usadas nos programas de educação financeira.

A partir de um referencial diferenciado de conteúdos, elaborado com a colaboração de professores da Escola Superior de Educação e da Escola Superior de Saúde do Instituto Politécnico do Porto, foram concebidos materiais pedagógicos e desenvolvida uma metodologia de implementação desses recursos baseada numa abordagem pedagógica inclusiva, com o objetivo de promover não só as competências de literacia financeira, mas também a inclusão social do público-alvo.

O nosso programa consubstancia uma proposta de aprendizagem estruturada de acordo com três níveis de competências: básica, intermédia e avançada. Alguns dos temas abordados são: o sistema financeiro e produtos financeiros básicos (conhecer o dinheiro, realizar compras), gestão orçamental (o necessário e o supérfluo, rendimento e despesa), a poupança e a autonomia e controlo sobre o dinheiro.

No que respeita ao modelo de implementação, o programa é passível de ser implementado nos contextos escolar; de formação profissional e dos Centros de Atividades e de Capacitação para a Inclusão (CACI).

A literacia financeira é hoje reconhecida como uma ferramenta de empoderamento e inclusão social, promotora da autonomia quotidiana e da cidadania ativa. Ora, quando falamos de um público cujas capacidades estão à partida mais limitadas, esta necessidade de autonomia e integração não se extingue. Aprofunda-se!

O “Eu e a Minha Reforma” abrange exclusivamente população que já não esteja na vida profissional ativa? Em que espaços chegam às pessoas e quais as principais questões que vos são colocadas?

O “Eu e a Minha Reforma” é altamente inclusivo e abrangente, já que, é um programa de educação financeira, que tem por objetivo a formação financeira e a capacitação de pessoas adultas, com especial foco nos maiores de 55 anos, independentemente da sua situação laboral (pessoas em idade ativa, desempregadas, empregadas, a preparar a reforma ou já reformadas), da sua condição financeira e do seu nível de escolaridade. Implementado desde 2018, surgiu com o objetivo de capacitar financeira e digitalmente as pessoas com mais de 55 anos, mas o interesse que despertou junto de pessoas mais novas fez com que visse o seu âmbito de implementação alargado a adultos em idade ativa, independentemente da idade, com a preocupação de as capacitar financeiramente no presente, mas também para prepararem, o quanto antes, a fase de vida da reforma. É fundamental termos consciência de que a longevidade continua a aumentar e que há uma enorme probabilidade de vivermos um terço das nossas vidas em situação de reforma.

O projeto é implementado através de sessões de capacitação financeira e digital, em formato presencial ou online, a que chamamos Laboratórios de Literacia Financeira. Cada participante tem acesso a um conjunto de Laboratórios que abordam diferentes temas, tais como o planeamento e gestão do orçamento, produtos financeiros e capacitação digital, crédito e endividamento, seguros, impostos, entre outros.

As sessões são sempre dinamizadas pela equipa da Fundação, com uma linguagem acessível e exemplos do quotidiano, com os quais os participantes possam identificar.

A falta de hábito de registo das despesas, a não existência de um planeamento ou de realização de um orçamento continuam a ser questões importantes para muitos participantes, que têm dificuldade em ter controlo sobre os gastos que realizam. Por outro lado, a necessidade de prevenção da fraude é, infelizmente e cada vez mais, uma questão importante a ter em atenção, sobretudo, com o público sénior.

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