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Vencedores, perdedores e desaparecidos. A noite da maioria absoluta em verificações de factos

Este artigo tem mais de um ano
Quem ganhou (e perdeu) mais em comparação com 2019? A maioria absoluta de António Costa é maior do que a de José Sócrates? Há mais ou menos partidos com representação parlamentar? Rui Rio é o primeiro líder de um dos grandes partidos a perder duas eleições legislativas seguidas? O PSD e o PCP obtiveram os piores resultados de sempre? É a primeira vez que o CDS está fora da Assembleia da República? O Polígrafo responde a estas e várias outras questões, no rescaldo da noite eleitoral.

A maioria absoluta de Costa é maior do que a de Sócrates?

É a segunda maioria absoluta conquistada pelo PS, agora sob a liderança de António Costa, deixando assim de ser um feito exclusivo de José Sócrates (ex-líder entretanto desfiliado do partido) que, em 2005, tinha obtido 45,03% dos votos (2.588.312 no total) e 121 mandatos de deputados.

Ora, no momento em que escrevemos falta ainda apurar os votos e respetivos mandatos (quatro no total) dos círculos da Europa e Fora da Europa que, tradicionalmente, são repartidos entre o PSD e o PS (dois para cada em 2019, mas desde 2002 que o PSD elegia sempre três). De qualquer modo, estando com 41,68% dos votos (2.246.483 no total) e 117 mandatos de deputados, já não será possível superar o resultado de 2005.

Nas legislativas anteriores, em 2019, votaram cerca de 160 mil pessoas no conjunto dos dois círculos eleitorais que permanecem por apurar em 2022. Pelo que parece ser seguro concluir que a maioria absoluta de Costa será menor do que a de Sócrates.

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O PSD nunca tinha eleito tão poucos deputados?

Quando ainda falta atribuir quatro mandatos em disputa nos círculos eleitorais do estrangeiro, o PSD acumula 76 mandatos de deputados. É um dos piores resultados de sempre, mas não o pior.

Em 2005 registou-se um ponto mais baixo para o PSD com apenas 75 mandatos, quando Pedro Santana Lopes foi derrotado por José Sócrates que conquistou então a primeira maioria absoluta da História para o PS. Em 1983, sob a liderança de Carlos Mota Pinto, o PSD também não tinha ido além de 75 mandatos. Ainda mais baixo só mesmo em 1976, com Francisco Sá Carneiro, um mínimo absoluto de 73 mandatos.

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Os partidos da direita ficaram com mais deputados do que em 2019?

Englobando o PSD nesta contabilização, como partido de centro-direita, chegamos a um total de 96 deputados que ainda poderá aumentar com os mandatos dos círculos do estrangeiro. Aos 76 mandatos do PSD juntam-se agora os 12 do Chega e os oito do Iniciativa Liberal.

Em 2019, o PSD tinha conquistado 79 mandatos, ao passo que o CDS-PP ficara com cinco e o Chega e o Iniciativa Liberal com um para cada. Total: 86 mandatos.

Ou seja, apesar do desaparecimento do CDS-PP e da estagnação do PSD, o conjunto da direita ganha mais deputados através das grandes subidas do Chega e do Iniciativa Liberal, partidos fundados nos últimos anos. Permanece muito distante, ainda assim, do patamar de 116 deputados que garante uma maioria absoluta na Assembleia da República.

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É a primeira vez que o CDS está fora da Assembleia da República?

Sim. Desde as eleições para a Assembleia Constituinte de 1975, o CDS (Centro Democrático Social), rebaptizado como CDS-PP (Centro Democrático Social – Partido Popular) em 1993, elegeu sempre deputados e formou sempre grupos parlamentares, incluindo as coligações Aliança Democrática (AD) e Portugal à Frente (PàF) com o PSD (e também o PPM, no caso da AD).

O melhor resultado a solo do CDS foi registado logo nas primeiras eleições legislativas em 1976, quando obteve 15,98% dos votos e 42 mandatos de deputados à Assembleia da República. E os piores resultados (até 2022) tinham coincidido com as duas maiorias absolutas do PSD de Cavaco Silva (legislativas de 1987 e 1991), quando o CDS chegou mesmo a ser apelidado de “partido do táxi“, na medida em que todo o seu grupo parlamentar (quatro e cinco deputados, respetivamente) caberia no interior de um automóvel.

Em 2022, os 86.578 votos (1,61% do total) no CDS-PP não chegaram para eleger um único deputado (não incluindo aqui os votos da coligação com o PSD nas regiões autónomas da Madeira e dos Açores, nem os votos dos círculos do estrangeiro que ainda não foram apurados), efeito de uma maior dispersão pelo território nacional que tende a ser mais favorável em eleições autárquicas (o CDS-PP conquistou seis presidências de câmaras municipais em 2021) do que em eleições legislativas (Chega, IL, BE, PAN e Livre não têm presidências de câmaras municipais, mas acabam de eleger deputados à Assembleia da República).

Neste âmbito importa salientar que o CDS-PP acumulou mais votos ao nível nacional do que o PAN (

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Quem ganhou mais em comparação com 2019?

Liderado por André Ventura, o partido Chega saltou de 67.826 votos (1,29% do total) e apenas um mandato de deputado em 2019 para

Por sua vez, o Iniciativa Liberal, desta vez sob a liderança de João Cotrim de Figueiredo, também deu um grande salto de 67.681 votos (1,29% do total) e apenas um mandato de deputado em 2019 para

Quanto ao PS de António Costa, passa de 1.908.036 votos (36,34% do total) e 108 mandatos de deputados em 2019 para

Em termos absolutos, o PS foi o partido que ganhou mais votos em comparação com 2019 e ainda poderá igualar o aumento de mandatos com o Chega (um total de 11), além da subida percentual que está quase ao mesmo nível. No entanto, proporcionalmente, quem acumula mais ganhos em comparação com 2019 é o partido de Ventura.

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Quem perdeu mais em comparação com 2019?

O Bloco de Esquerda (BE) caiu de 500.017 votos (9,52% do total) e 19 mandatos de deputados para 240.257 votos (4,46% do total) e cinco mandatos de deputados. Ainda falta apurar os círculos do estrangeiro, mas de pouco servirão para atenuar uma enorme queda, entre 2019 e 2022, para menos de metade dos votos e cerca de um quarto dos deputados.

A Coligação Democrática Unitária (CDU), que junta o Partido Comunista Português (PCP) ao Partido Ecologista “Os Verdes” (PEV), por sua vez, caiu de 332.473 votos (6,33% do total) e 12 mandatos de deputados para

A queda do CDS-PP também foi substancial, ao ponto de ter ficado sem representação parlamentar, algo que nunca tinha acontecido na democracia portuguesa. O histórico partido da Assembleia Constituinte, agora liderado por Rodrigues dos Santos (que entretanto já anunciou a sua demissão), caiu de 221.774 votos (4,22% do total) e cinco mandatos em 2019 para 86.578 votos (1,61% do total) e zero mandatos em 2022. Não perdeu tantos votos e mandatos como o BE, mas a derrota do CDS-PP até terá sido mais significativa do ponto de vista político, mediante uma análise não estritamente aritmética.

Quanto ao PAN (Pessoas-Animais-Natureza), foi outro dos grandes derrotados da noite eleitoral. A colagem ao PS no âmbito do Orçamento do Estado para 2022 e a responsabilização do BE e do PCP pela crise política não terão beneficiado a causa do partido liderado por Inês de Sousa Real. Tal como a saída do anterior líder, André Silva, há menos de um ano.

Por esses ou outros eventuais motivos, o PAN cai de 174.511 votos (3,32% do total) e quatro mandatos em 2019 para

Em suma, ao nível aritmético, o BE foi o partido que perdeu mais votos (cerca de 260 mil), maior percentagem de votos (5,06 pontos percentuais) e mais mandatos de deputados (14 no total). Proporcionalmente, a queda do PAN foi quase similar, embora a uma escala mais reduzida, ao passo que o CDS-PP perdeu 100% dos mandatos que tinha conquistado em 2019.

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É o pior resultado de sempre do PCP em legislativas?

Sim. O histórico partido da Assembleia Constituinte caiu para o ponto mais baixo de sempre nas eleições legislativas de 2022, com apenas 4,39% dos votos e seis mandatos de deputados. Em 2019, a CDU elegera um total de 12 deputados, o que já tinha constituído então o pior resultado de sempre em legislativas, a par de 2002.

O melhor desempenho dos comunistas registou-se nas legislativas de 1979, quando conseguiram 18,8% dos votos expressos e elegeram 47 deputados. Nessa altura, o PCP integrava a coligação Aliança Povo Unido (APU), sob a liderança de Álvaro Cunhal, juntamente com o MDP/CDE.

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Resta algum círculo eleitoral com o mesmo partido vencedor desde 1975?

Sim, restam dois. Desde as eleições para a Assembleia Constituinte em 1975 que o PSD (ex-PPD) vence sempre nos círculos eleitorais da Região Autónoma da Madeira e de Fora da Europa. Neste segundo caso, porém, os resultados de 2022 ainda não foram apurados.

No círculo de Fora da Europa, o PSD alcançou o seu melhor resultado em 1991, com 77,3% dos votos, obtendo os dois mandatos em disputa. Apenas não conseguiu os dois mandatos em 1983 e 1985, quando os repartiu com o CDS-PP, e em 1999 e 2019, quando o PS conseguiu eleger um deputado. No entanto, o PSD manteve-se sempre como o partido mais votado pelos eleitores deste círculo.

Na Madeira, o eleitorado também é fiel aos sociais-democratas desde o início da experiência democrática. O melhor resultado do PSD verificou-se em 1987, com 65,5% dos votos e a eleição de quatro dos cinco mandatos então em disputa. O PSD elegeu sempre quatro ou cinco deputados na Madeira até 1995. Nesse ano registou-se um decréscimo acentuado da percentagem de votos e, pela primeira vez, o partido assegurou apenas três assentos parlamentares. Tal como volta a acontecer em 2022.

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Rui Rio é o primeiro líder de um dos grandes partidos a perder duas legislativas seguidas?

Ao discursar na noite eleitoral, assumindo a derrota e perante a iminência de uma maioria absoluta do PS que viria a ser confirmada poucos minutos depois, Rui Rio abriu a porta à sua demissão da liderança do PSD. É a segunda derrota sucessiva em eleições legislativas, depois de 2019. Mas será que se trata de um caso único entre os líderes dos dois maiores partidos, PS e PSD?

É um caso raro, mas não único. De facto, a derrota em eleições legislativas costuma quase sempre resultar em demissão do líder, quer no PS, quer no PSD. Mas há uma excepção: Mário Soares, do PS, que perdeu sucessivamente as eleições legislativas de 1979 e 1980, frente à Aliança Democrática (AD) de Francisco Sá Carneiro.

Mas Soares não apenas se manteve na liderança do PS, como acabaria por vencer as legislativas de 1983, reassumindo o cargo de primeiro-ministro que já exercera entre 1976 e 1978.

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Há mais ou menos partidos na Assembleia da República?

Em 2019 alcançara-se o maior número de sempre de partidos com representação parlamentar, um total de 10, destacando-se as entradas do Chega, Iniciativa Liberal e Livre.

Em 2022, os três estreantes conseguem manter-se e, nos casos do Chega e do Iniciativa Liberal, a partir de agora formam grupos parlamentares de média dimensão (12 e oito deputados, respetivamente).

Contudo, o facto é que passam a estar representados oito partidos no total, menos dois, por causa das saídas do CDS-PP e do PEV. E desta vez não há novos estreantes.

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