O primeiro jornal português
de Fact-Checking

Ministra da Justiça diz que “ninguém mentiu”, mas corrigiu informação: a cronologia do caso que envolve Luís Neves

Um atrelado apreendido pela Polícia Judiciária no âmbito da “Operação Pacoba”, que continha dezenas de bidões com produtos químicos usados na produção de droga, acabou nas instalações da Construbarcelos, empresa do empreiteiro que realizou obras numa propriedade do atual ministro da Administração Interna (MAI), Luís Neves. A decisão de não destruir os produtos, devido ao alegado elevado custo da operação, foi o motivo apresentado pelo governante. No entanto, em vez de esclarecer o caso, a justificação acabou por levantar novas dúvidas sobre o verdadeiro custo desta destruição. Emails internos da PJ, diferentes orçamentos e esclarecimentos posteriores do Ministério da Justiça (MJ) foram acrescentando novas versões à história, até à audição de Rita Júdice no Parlamento.
© MIGUEL A. LOPES/LUSA

Esta quarta-feira, 9 de setembro, em audição no Parlamento, Rita Júdice negou qualquer mentira nas informações transmitidas pelo Governo sobre o caso do atrelado apreendido pela Polícia Judiciária no âmbito da “Operação Pacoba”. A declaração surge na sequência da polémica em torno das informações contraditórias sobre o custo da destruição dos produtos químicos, um dos casos que têm envolvido Luís Neves nas últimas semanas. Neste artigo, o Polígrafo traça a linha temporal das diferentes versões apresentadas desde os primeiros esclarecimentos prestados pelo governante.

29 de julho: primeiras declarações do MAI sobre as polémicas

O ministro da Administração Interna (MAI) classificava como um “puro ato de boa gestão” a opção de levar o atrelado com precursores de droga para as instalações da Construbarcelos, empresa de João Carvalho, empreiteiro que construiu a polémica piscina numa propriedade do governante, em Odemira.

Segundo o MAI, a destruição dos produtos químicos implicaria um custo de cerca de 150 mil euros, valor para o qual não havia cabimentação orçamental, e a Polícia Judiciária (PJ) não dispunha de espaço para os armazenar, tendo sido necessário encontrar uma solução alternativa.

21 de agosto: Emails da PJ levantam dúvidas sobre o orçamento

A justificação apresentada por Luís Neves gerou dúvidas. Seria mesmo necessário um valor tão elevado para destruir os produtos químicos? Cerca de um mês depois das declarações do governante, uma investigação do jornal “Nascer do Sol” apontava que emails internos da PJ colocavam em causa a ideia de que aquele orçamento dizia respeito apenas aos produtos que acabaram nas instalações da Construbarcelos.

De acordo com a documentação a que o jornal teve acesso, 126 mil euros, acrescidos de IVA, correspondiam à destruição de todo o material armazenado nas instalações da PJ em Tires e da Polícia Marítima, no Seixal. No total, o orçamento ascendia a 154.980 euros.

A mesma investigação dava conta de que duas empresas especializadas na destruição de químicos estimavam orçamentos bastante inferiores para a operação. A empresa Carmona apontou um custo de cerca de 250 euros por tonelada. Já a Ecodeal, que está habituada a fazer este tipo de orçamentos para a PJ, estimou um preço de 3.150 euros por tonelada. Contas feitas, admitindo um peso máximo de 12 toneladas para os 62 bidões que estavam no atrelado apreendido, a estimativa da Carmona apontaria para cerca de três mil euros, enquanto a da Ecodeal rondaria os 38 mil euros.

3 de setembro: Ministério da Justiça confirma orçamento de 144 mil euros

A 3 de setembro, o Ministério da Justiça confirmou a existência de um orçamento de 144.456,93 euros para a destruição de produtos químicos apreendidos no âmbito da “Operação Pacoba” e a falta de orçamento da PJ para executar a operação, noticiou a Lusa.

Em resposta a perguntas do grupo parlamentar do Chega, o MJ esclareceu que os 62 bidões apreendidos, com capacidade para 200 litros cada um, continham acetato de etilo e hexano e representavam “um volume anormal deste tipo de produtos apreendidos, em vários processos, e em quantidades sem paralelo até então”.

Segundo o ministério, a situação levou a PJ a consultar uma empresa especializada para a destruição dos químicos, autorizada pelo Ministério Público.

4 de setembro: Ministério esclarece que valor abrangia outros processos

No entanto, no dia seguinte, o Ministério da Justiça esclareceu que aquele valor não dizia respeito exclusivamente aos produtos apreendidos no âmbito da “Operação Pacoba”, abrangendo também materiais de outros processos.

9 de setembro: Rita Júdice nega “qualquer mentira”

Esta quarta-feira (9 de setembro), em audição na Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias, a governante garantiu que “não houve qualquer mentira, ninguém mentiu”.

Confrontada pelo Chega com a aparente contradição entre a informação prestada pelo Ministério da Justiça e as declarações de Luís Neves, Rita Júdice atribuiu a discrepância à informação que lhe foi transmitida pelos serviços da Polícia Judiciária.

A ministra admitiu estar “incomodada” com a situação e revelou ter pedido ao atual diretor nacional da PJ, Carlos Cabreiro, que apure pessoalmente, “ponto por ponto”, o que aconteceu, incluindo se todos os elementos constantes do orçamento dizem respeito à “Operação Pacoba”.

Partilhe este artigo
Facebook
Twitter
WhatsApp
LinkedIn

Relacionados

Em destaque