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Jovem cujo pai GNR dormia à chuva – e que confrontou MAI – participou esta tarde numa arruada do Chega em Valongo

A 23 de janeiro o Polígrafo noticiava que Tomás, filho da "escola pública" e de um pai GNR que dormia num colchão frente ao seu posto, era presença regular em manifestações de professores. O pai nunca foi identificado - e a GNR nunca teve conhecimento da situação -, mas os pais deste jovem são agora mais do que a escola e as forças armadas. Com uma bandeira de Portugal nas mãos, Tomás participou esta tarde numa arruada do Chega em Valongo.

Há cerca de um mês já havia quem lhe chamasse “agitador profissional”. Na apresentação do livro de José Luís Carneiro, “Ganhar o Futuro”, no Porto, Tomás fez (muito) barulho ao lado do coletivo “Amamos a Escola”: “O meu pai está a dormir num colchão à chuva.” Na altura, André Ventura não tardou a apelidar o jovem de “herói”, numa publicação que divulgou no Instagram um dia depois do incidente. Parecia não o conhecer – poderia não o conhecer -, mas agora a história é diferente. Até porque o jovem Tomás participou esta tarde numa arruada do Chega, em Valongo. Não é presença comum, confirmou a concelhia ao Polígrafo, mas é uma cara suficientemente conhecida para que baste o seu primeiro nome para que seja identificado.

Com uma bandeira de Portugal nas mãos, mesmo ao lado de bandeiras do partido de André Ventura, Tomás esteve esta tarde nas ruas de Valongo, desta vez a manifestar-se não contra alguma coisa, mas sim a favor de um partido.

A história sobre este jovem “agitador” é recente, mas tem agora novos contornos. O Polígrafo contactou os órgãos nacionais do Chega, mas até ao momento da publicação deste artigo não obteve qualquer resposta. 

Jovem que confrontou MAI com o “pai GNR que dorme na rua” também participou em manifestação pelos professores. Coletivo a que pertence recusa clarificar quem é o seu pai

O vídeo amador tem mais de dois minutos e mostra Tomás, um jovem de idade desconhecida, a tentar chegar à fala com José Luís Carneiro enquanto o ministro da Administração Interna assina alguns livros. “Eu tenho um pai que é membro da OPC e que não recebe o salário que era digno. Trabalha agora num posto e está a dormir lá à frente com um colchão, na chuva. O sr. ministro nem sequer fala sobre o assunto. Prefere falar sobre futuro, mas fale também sobre o presente. Fale também sobre o presente porque devia envergonhá-lo”, acusou Tomás.

A ideia que ficou foi a de que José Luís Carneiro nunca levantou a cara para responder às acusações, mas o vídeo completo mostra que há uma conversa entre os dois: o ministro pergunta-lhe o nome – “Tomás, sr. ministro, Tomás Rodrigues” – e garante-lhe que pode manifestar-se. E que falará com ele no final do encontro, antes de seguir para Cabeceiras de Basto.

Tomás acalma-se: “Com certeza, sr. ministro, com certeza. Isto é revoltante. Eu não tenho nada contra si, mas enoja-me o sr. nunca se ter referido às forças de segurança no seu discurso.”

Ao peito, o jovem trazia um alfinete – visível, por exemplo, na transmissão da CMTV – onde se lê “Amamos a Escola“. Trata-se de um  coletivo recente de docentes, que habitualmente se juntam a manifestações, envergando t-shirts estampadas com o símbolo do movimento ou alfinetes como aquele que Tomás trazia ao peito. Está diretamente ligado a Pedro Brito: o professor/ilustrador que ficou conhecido por ter desenhado um nariz de porco na cara de António Costa escreve inclusivamente para o site do movimento.

É nesse portal que Tomás, o “filho de um pai GNR”, é identificado como “filho da escola pública“. Numa manifestação junto à Câmara Municipal do Porto, a 4 de novembro do ano passado, o jovem, de casaco e sapatilhas brancas, empunhava um megafone. O que disse não ficou registado em áudio, mas o resumo do encontro dá-nos pistas.

“O Tomás, filho mais novo da Escola Pública, esperançou, num discurso articulado e esclarecido, usou a sua voz para clamar que o João [Costa] é um aldrabão, que há muito está apenas focado na demissão”, lê-se num artigo assinado pelo “coletivo” a 7 de novembro. As fotografias não deixam margem para dúvidas: é o mesmo “Tomás” que, em ocasiões distintas, se manifesta por causas também elas distintas.

No dia em que se aproximou de José Luís Carneiro, o jovem estivera numa manifestação independente pelos professores, nos Aliados. Foi deles que se fez acompanhar na entrada para o local onde a obra estava a ser apresentada. No final do encontro, o grupo reuniu com José Luís Carneiro. Tomás já não estava lá. Nenhuma das 13 questões remetidas pelo Polígrafo ao coletivo “Amamos a Escola” obteve resposta concreta.

À pergunta “o Tomás tem uma mãe professora e um pai polícia? Consegue comprová-lo?“, o coletivo respondeu: “Estimada senhora jornalista. obrigado pelo seu contato. Permita-me uma breve introdução. Talvez a senhora não saiba, o polígrafo para quem trabalha é a mesma organização que chamou, sem contraditório, num verdadeiro e infame “atropelo” deontológico, de racistas a professores no dia 10 de junho na Régua; a mesma organização que não foi capaz de contactar os professores envolvidos para relatar o ocorrido porque apressadamente foram obrigados a cumprir a voz do dono que tropeçou no parágrafo. A mesma organização que obedece ao guru, agora, tacitamente reformado, que aconselha e refina os gestos, palavras e atitudes de uma certa burguesia instalada que tanto e muito tem destruído a democracia em Portugal. A mesma organização que não mediu o impacto dos seus gestos, quando chamou racista ao professor que criou o cartaz, com as nefastas e sérias consequências que essa mentira provocou nas escolas deste seu/nosso país. Quanto ao que me pede, pergunte aos seus patrões… estou certo que a narrativa que querem montar já está decidida. Cumprimentos.”

Às perguntas “o Tomás é maior ou menor de idade? É representado por alguém durante as manifestações? Vai sozinho? A sua interpelação ao ministro foi combinada previamente com o movimento? Onde dorme o pai do Tomás? Em que posto?“, o coletivo respondeu: “Amamos a escola! Livre e democrática. O amamosaescola está disponível para um esclarecimento na televisão e em horário nobre.”

Às perguntas “quem é o pai do Tomás? Onde dorme? Porque é que o Tomás estava presente na manifestação? Representado por quem?“, o coletivo respondeu: “O amamosaescola está disponível para um esclarecimento na televisão e em horário nobre.”

O Polígrafo questionou a GNR sobre o pai de Tomás, um guarda que dorme alegadamente frente ao posto em que trabalha, deitado apenas num colchão. A GNR garante não ter, até agora, conhecimento da situação.

Nota editorial: o Polígrafo não conseguiu apurar a idade do jovem que interpelou José Luís Carneiro. Dada a nossa política de proteção de menores (que pode consultar aqui), optámos por, na dúvida, não publicar imagens que o identifiquem.

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