O primeiro jornal português
de Fact-Checking

Há lugar para o fascismo no Chega? O que nos dizem três dirigentes, uma saudação e um lema

Rui Cruz era, até há poucos dias, apenas um desconhecido delegado do Chega. Foi a VI Convenção do partido que lhe trouxe, como a mais ninguém, uma espécie de fama no meio político. É que o "pai e avô" disse ser também "fascista" no discurso que fez este sábado, em Viana do Castelo. Na plateia não houve reação - a expressão foi recebida com naturalidade -, mas será que isso significa que o fascismo tem lugar no Chega? Desde a sua formação, há exemplos que mostram que o partido procura afastar qualquer sombra desta ideologia, nem sempre com sucesso.

Ter um dirigente a apelidar-se de fascista poderá não ser o maior dos problemas de André Ventura nos próximos dias: o líder do Chega parece estar habituado a lidar com este tipo de situações. A ajudar, o já utilizado recurso à “ironia”, que encaixa no discurso que Rui Cruz protagonizou este sábado em Viana do Castelo (de homem tradicional e conservador). Ventura ficou mais “incomodado” com aquilo que apelidou de “tremenda má-fé” com que o tema foi tratado na esfera pública, mas o problema pode ser externo ao que se ouviu na VI Convenção do partido. E tem três nomes, uma saudação e um lema.

Homem número um, dois e três:

Ventura prometeu: desde o momento em que foram identificados vários dirigentes com ligações a grupos extremistas e apologistas do fascismo que o líder do Chega garantiu que teria “tolerância zero relativamente a pessoas que tenham pertencido a grupos neonazis”.

Casos como o de Luís Filipe Graça, Nelson Dias da Silva e Tiago Monteiro, o primeiro e último conhecidos de Mário Machado, fundador da organização neonazi “NOS”, foram imediatamente investigados e resultaram no afastamento do partido logo em 2020. Pouco tempo antes, Pedro Perestrello entrava e saía do Chega como uma flecha. O ex-candidato do Partido Nacional Renovador (PNR), com tendências marcadamente fascistas, tinha saltado para a direção do Chega em 2019, mas dez meses depois da constituição do Chega como partido a revista “Sábado” revelou que dois dos seus fundadores se desvincularam, deixando denúncias de ilegalidades em relação à recolha de assinaturas necessárias à formação da estrutura partidária. Um deles era Perestrello.

Quanto a Machado, o conhecido skinhead chegou a prometer a neo-nazis que aderiram ao Chega que nunca revelaria que estes foram seus camaradas. Publicado a 2 de fevereiro no canal de Mário Machado no YouTube, o vídeo “Mário Machado sobre o Chega e André Ventura” apresentou-se como “um esclarecimento após 2 semanas de intenso debate sobre o Chega e a entrada de amigos e militantes das minhas organizações nesse partido político”.

Abre-se o vídeo e surge o líder histórico dos skinheads portugueses em frente a um retrato gigante de António de Oliveira Salazar. Começa Machado: “Tem vindo a lume nas últimas semanas uma perseguição por parte de jornalistas terroristas quase todos encomendados pela extrema-esquerda radical no sentido de tentar denegrir de alguma forma a imagem do partido político Chega.” Machado falava dos três homens acima mencionados: Graça, Dias da Silva e Monteiro.

“Uma pessoa por ter tido envolvimento num movimento de extrema-direita, nacionalista, nacionalista ou fascista não tem daí os seus direitos civis diminuídos”, considerou. Por isso, e face às reacções negativas provocadas pela notícia da entrada de nacionalistas neo-nazis no Chega, o líder de extrema-direita prometeu protecção aos seus seguidores: “O conselho que dou aos meus queridos amigos que me acompanharam durante quase 25 anos de luta nacionalista é que se se quiserem inscrever no Chega nunca, em caso algum, digam que pertenceram a algum movimento nacionalista ou de extrema-direita. Não têm de o fazer. Pelo menos naqueles que eu liderei não existe prova alguma que vocês façam ou tenham feito parte dessas organizações porque só eu e apenas eu é que posso provar que o indivíduo ‘a’ ou ‘b’ pertenceu à minha organização. E eu nunca o vou fazer. Como nunca o vou fazer, só vós próprios podem pôr a corda ao vosso pescoço.”

A saudação:

Sim, a saudação nazi. No decurso de um comício do Chega realizado na cidade do Porto a 25 de janeiro de 2020, um apoiante destacado nas primeiras filas junto ao palco levanta o braço direito no ar, claramente em saudação nazista, enquanto é cantado o hino nacional de Portugal.

Questionado à data pelo Polígrafo sobre o sucedido, André Ventura respondeu da seguinte forma: “Não me revejo minimamente em tais gestos ou noutras provocações que se verificaram antes. A equipa de segurança foi contendo o mais possível todas as provocações, sem recorrer a violência ou força excessiva, mas naturalmente absteve-se de agir enquanto se cantava o hino nacional. São centenas de pessoas, é impossível controlar quem entra e com que motivações.”

O lema:

Nos intervalos que vai dando à inspiração internacional, Ventura também já namorou por várias vezes com o salazarismo: no discurso de encerramento do IV congresso do partido, em 2021, o líder do Chega inspirou-se no Estado Novo: “Deus, Pátria, Família e Trabalho: é nisto que este partido acredita!” E não foi vez única.

Ventura já inspirou outros membros e simpatizantes, que adotam agora a “Lição de Salazar”, um dos lemas mais conhecidos do Estado Novo onde só faltava o “trabalho”, um nome que de que o Chega se apropriou.

Partilhe este artigo
Facebook
Twitter
WhatsApp
LinkedIn

Relacionados

Em destaque