“No dia 1 de janeiro, quando eu já não for secretário-geral da ONU, estejam certos de uma coisa: esteja eu onde estiver, a fazer o que quer que eu esteja a fazer, continuarei a manter a convicção de que a paz é possível”, afirmou António Guterres no seu discurso, na abertura do Debate Geral da 81.ª Assembleia Geral da ONU.
Foi a última vez que Guterres se dirigiu à Assembleia Geral, neste contexto, enquanto secretário-geral. A poucos meses de deixar o cargo, que ocupa desde 2017, foram várias as vezes em que o responsável foi alvo de conteúdos desinformativos ou viu as suas declarações e ações escrutinadas online. O Polígrafo reúne algumas das alegações que circularam nos últimos anos sobre Guterres.
Guterres apresentou plano contra o discurso de ódio que pretendia “silenciar opiniões dissidentes”?
Em 2019, depois de a Organização das Nações Unidas (ONU) ter lançado uma Estratégia e Plano de Ação contra o Discurso de Ódio, a página “Notícias Viriato” publicou um artigo no qual acusava António Guterres e a ONU de quererem “silenciar as opiniões dissidentes”.
No entanto, ao analisarmos o plano da ONU e o discurso de Guterres a este propósito, pudemos concluir que esta imputação não tem fundamento. António Guterres reforçou, várias vezes – durante o discurso, durante a conferência de imprensa e até na sua conta de Twitter – que o combate ao discurso de ódio não poderia nunca pôr em causa a liberdade de expressão.

“As Nações Unidas apoiam a liberdade de opinião e de expressão em todo o lado. Abordar o discurso do ódio não significa limitar ou proibir a liberdade de expressão. Significa impedir que o discurso de ódio se transforme em algo mais perigoso, como o incitamento à discriminação, à hostilidade e à violência, algo que é proibido pelo direito internacional”, explicou Guterres na conferência de imprensa.
Avaliação do Polígrafo: Falso
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Guterres alertou para a supressão de liberdades em alguns países durante a pandemia?
“António Guterres será um perigoso negacionista? Um assanhado de extrema-direita? Será um toino das teorias da conspiração?”, escreveu Joana Amaral Dias numa publicação em que analisa o excerto de um discurso proferido pelo secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU) em fevereiro de 2021, na abertura da 46ª sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU, sobre as implicações de algumas medidas tomadas no âmbito da pandemia de Covid-19.
De facto, Guterres sugeriu que a pandemia está a ser instrumentalizada por alguns regimes ou Governos – não nomeando especificamente a que países se referia – para suprimir “vozes dissonantes” e silenciar a informação independente.
“Utilizando a pandemia como pretexto, as autoridades de alguns países tomaram duras medidas de segurança e adotaram medidas de emergência para suprimir vozes dissonantes, abolir a maior parte das liberdades fundamentais, silenciar a comunicação social independente e dificultar o trabalho de organizações não governamentais“, lamentou o secretário-geral da ONU, antigo primeiro-ministro de Portugal.
O Polígrafo verificou o vídeo original, publicado no canal da ONU no YouTube, e constatou que a maior parte da intervenção de Guterres incidiu sobre a pandemia, com grande destaque para as vulnerabilidades e interrupção da vida de centenas de milhões de famílias que perderam o emprego ou viram os seus rendimentos reduzidos.
Avaliação do Polígrafo: VERDADEIRO
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Guterres foi à faixa de Gaza servir de “escudo humano” para garantir a entrada de ajuda humanitária?
“Estava no Twitter e apareceu-me uma publicação a indicar que António Guterres tinha ido à faixa de Gaza servir de ‘escudo humano'”, indica um leitor numa mensagem enviada ao Polígrafo, que remete para um tweet de 29 de outubro. Neste, revela-se que o “secretário-geral da ONU, Guterres, foi à fronteira de Gaza com algum material de abastecimento servindo como escudo humano”.
“A sua expressão parece que diz ‘Israel pode bombardear o que quiser, mas devo entregar os abastecimentos ao povo de Gaza’. Normalmente acho que ele é um inútil, mas desta vez gosto muito dele”, acrescenta a publicação, que é acompanhada de uma imagem do secretário-geral da ONU rodeado de oficiais do exército egípcio e guarda-costas.

A imagem é real. Foi captada no dia 20 de outubro, dia em que António Guterres se deslocou à passagem de Rafah – a única de acesso a Gaza sem ser sob o controlo de Israel – para lançar um apelo aos governos e organizações no terreno para que garantissem a entrada de ajuda humanitária aos palestinianos.
Do lado egípcio da passagem, em Sinai, o líder da ONU frisou que os mais de 200 camiões com cerca de três mil toneladas de ajuda humanitária, que estavam bloqueados à espera de luz verde para passarem a fronteira, não eram “apenas camiões”.
“São uma tábua de salvação, são a diferença entre a vida e a morte para muitas pessoas em Gaza. E vê-los presos aqui faz-me ser muito claro: o que precisamos é de os fazer sair, fazê-los passar para o outro lado do muro. Fazê-los sair o mais depressa possível e o maior número possível”, sublinhou Guterres.
O breve discurso do secretário-geral da ONU foi feito perante dezenas de trabalhadores humanitários egípcios que esperavam a abertura da fronteira para fazer passar a ajuda necessária.
Guterres garantiu ainda que a ONU estava “a trabalhar para garantir que os camiões cheguem o mais rapidamente possível, com a maior quantidade de ajuda possível” e insistiu na necessidade “de resolver esta situação o mais rapidamente possível”.
Avaliação do Polígrafo: VERDADEIRO
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Guterres que “normaliza terroristas” está em destaque na capa da revista “Time”?
“Amantes da lama: eles transformam as poças num paraíso”, comenta-se numa das publicações (neste caso no X/Twitter) de uma suposta capa da revista “Time” que destaca a figura de António Guterres, secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), classificando-o aliás como “o especialista em pântanos: normalizando terroristas, esquecendo reféns“.

Contudo, esta imagem não passa de uma distorção ou adulteração gráfica de uma verdadeira capa da revista “Time” com Guterres em destaque que foi publicada em junho de 2019, há mais de quatro anos.
“O nosso planeta está a afundar-se” é o título original da capa verdadeira de 2019. Guterres surge de fato e gravata, enquanto secretário-geral da ONU, com água pelos joelhos. “Oceanos a subir, residentes em fuga, aldeias a desaparecer”, destaca-se.
No âmbito da produção dessa capa, Guterres foi até à costa de Tuvalu, na Polinésia, para ser fotografado. Sobre as alterações climáticas, afirmou à revista que “são uma área onde as Nações Unidas têm obrigação de assumir liderança global”, apelando a que “todos se juntem”, porque “é absolutamente essencial para o planeta reverter a situação atual”.

Na capa falsa, além da modificação dos títulos de destaque, também o fundo da imagem é manipulado: em vez da linha de horizonte do Oceano Pacífico surgem as paredes da sala de plenário da Assembleia Geral da ONU, na sede da instituição em Nova Iorque.
Avaliação do Polígrafo: MANIPULADO
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É verdade que foi Guterres quem “atribuiu” o prémio de 140 mil euros a António Costa por “compromisso com a paz”?
“E, do nada, António Guterres atribui um prémio de 140 mil euros a António Costa por ‘compromisso com a paz’”, aponta um tweet publicado no dia 16 de outubro de 2024, baseado numa notícia do mesmo dia do jornal “Observador”.
Em causa está o prémio Félix Houphouët-Boigny pela paz da UNESCO, que foi “estabelecido em 1989 e ao longo das últimas três décadas premiou personalidades como Nelson Mandela (o primeiro a receber a premiação em 1991), Frederik Willem de Klerk, Yasser Arafat, Yitzhak Rabin, Shimon Peres, Jimmy Carter e, já em 2022, Angela Merkel.
Mas desengane-se quem achar que é o secretário-geral da ONU – seja ele António Guterres ou qualquer outro que tenha ocupado ou venha a ocupar este cargo – a decidir quem recebe o prémio. São muitos os que podem propor nomes para este prémio, desde Estados-membros da UNESCO, organizações não governamentais com parceria oficial, membros de Governos e parlamentos, académicos e até outras pessoas que já tenham sido premiadas com este prémio.
Mediante estas propostas de nomes, o júri internacional reúne-se e delibera “de acordo com os Estatutos (assistido pelo representante do Diretor-Geral da UNESCO, pelas partes interessadas e por um relator, que exercem funções sem direito a voto)”.
Posteriormente, as “decisões são tomadas por consenso ou por votação secreta até que seja alcançada uma maioria simples” e é submetida uma avaliação das nomeações, juntamente com recomendações sobre a seleção do premiado, ao Diretor-Geral da UNESCO.
Este júri internacional é composto por “figuras públicas internacionais que são conhecidas pela sua ação em nome da paz nos domínios em que desenvolveram as suas carreiras”. Entre estas figuras estão estadistas, académicos, juristas, diplomatas e ativistas dos direitos humanos (pode consultar aqui os nomes que compõem o júri).
Avaliação do Polígrafo: FALSO
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