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Grande Entrevista a André Ventura: “Eu não minto para ganhar votos”

Este artigo tem mais de um ano
Na primeira parte da entrevista exclusiva ao Polígrafo o líder do Chega recusa o rótulo de mentiroso, mas, confrontado com publicações falsas que fez no Twitter, não as eliminou, mesmo depois de ter assegurado que o faria. Ventura reconhece que a generalidade dos deputados da Assembleia da República ainda o encaram como um "pária" e como um "vendedor da banha da cobra". A esses, deixa um conselho: que falem mais de Deus.

Jorge Castela, um amigo seu, afirmou, em entrevista ao jornal “Expresso”, que o senhor é um “surfista”, que “cavalga a onda que é importante para conseguir captar o eleitorado”. Já mentiu muitas vezes para ganhar votos?

Não. Eu não minto para ganhar votos. Acho que o país precisava de uma força política que não é de cavalgar a onda, é de dizer e de exprimir aquilo que as pessoas sentem e não dizem ou têm receio em dizer. E é isso que o Chega tem feito e por isso é que tem crescido tanto. Nós dizemos muitas vezes que somos a voz daqueles que não tinham voz. Mas mais do que isso temos sido a voz de muita gente que até tinha voz, mas que não dizia aquilo que pensava…

Mas dizer uma mentira não é dar voz a quem não tem voz.

Não. Por isso é que eu disse logo que nós não mentimos. O Chega não faz política com base na mentira. Não é isso que procura. Procura expressar aquilo que as pessoas sentem e isso foi uma grande mudança. Muita gente vê isso como uma coisa disruptiva, às vezes até mentirosa ou forçada da realidade. E também porque há momentos em que a realidade não é a preto e branco.

E há-os também em que a realidade é a preto e branco. Podemos ir a casos concretos. Há uma semana divulgou uma conferência com participação de José Sócrates. Foi alertado nos comentários da sua publicação para o facto de o evento ter decorrido há uma década e, apesar de saber que tinha publicado uma incorreção, manteve-a online. Porquê?

A conferência aconteceu mesmo, só que foi anterior.

Mas não apagou…

Não tenho que apagar, a conferência aconteceu mesmo.

Está a dizer que não partilhou a imagem da conferência como se fosse acontecer?

Eu não disse lá a data em que a conferência ia acontecer. Vocês é que estão a dizer. Isto era o mesmo que termos posto o Isaltino a fazer uma conferência sobre corrupção, fosse em que altura fosse. Fosse em 2001, em 2004 ou em 2020. Por isso, quando dizem que é mentira, a conferência aconteceu mesmo. Só que foi numa altura anterior. Faz sentido que José Sócrates faça uma conferência sobre o papel do Estado? Quando sabemos, e já sabíamos na altura, o que era José Sócrates.

Uma semana antes tinha partilhado, também no Twitter, uma imagem que mostrava um cão que teria salvo a dona no sismo da Turquia. Mais uma vez falsa, mais uma vez não apagada. Convive assim tão bem com a mentira?

Há uma diferença muito grande, aí eu fui mesmo enganado. Achei mesmo que era uma imagem…

Mas foi alertado…

A mim ninguém me alertou.

Não, desculpe. Nos comentários ao seu “tweet”…

Como deve imaginar não passo o dia a ver os comentários do Twitter.

O Polígrafo fez uma verificação… até à data de hoje não sabia que a fotografia era falsa?

Há uma coisa nessa imagem…

Neste momento estou a dizer-lhe que essa fotografia não corresponde ao sismo na Turquia. Não sabia disso até agora?

Não, não sabia. Não tinha visto…

Soube agora?

Soube agora.

E mediante esta informação, vai apagar o “tweet”?

É evidente, vou tirá-lo. Agora, acho que a imagem mesmo assim tem um potencial grande, que é o de mostrar a importância que os animais têm na nossa vida, na vida em geral. Acho que isso tem sido menosprezado por Portugal e por muitos países. Foi isso que eu quis passar.

2 de janeiro de 2021, em altura de debates, disse que foi sempre contra a eutanásia… não conhece as suas posições?

Sim, mas o que tem isso a ver com a eutanásia?

O André Ventura disse, durante um debate, que foi sempre contra a eutanásia. Isto é manifestamente falso: em 2004, enquanto aluno da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa, defendeu [num texto publicado na revista da associação de estudantes daquela faculdade sobre questões de consciência individual como o aborto ou a eutanásia, revelado pelo jornal “Diário de Notícias” em maio de 2020] precisamente o contrário.

Não, está enganada.

Nesse artigo afirma que “a laicidade do Estado é, indiscutivelmente, uma conquista recente dos homens. É fundamental termos isto [a laicidade do Estado] presente, para continuarmos a ter força para defender os ideais da República em que acreditamos. A República que nasceu precisamente para esmagar a intolerância e a vileza” e, mais à frente, “a Europa vive tempos conturbados face ao fenómeno religioso. (…) Mas a sociedade civil, cada vez mais exigente quanto às liberdades individuais, tem também vindo a preconizar o progressivo desvinculamento do Estado face ao domínio religioso no seu conjunto. (…) Símbolos desta exigência, e deste percurso, encontramo-los, por exemplo, no que respeita ao aborto (descriminalizado na grande maioria dos estados europeus), à eutanásia (fortemente contestada pela igreja Luterana, Católica e Calvinista) e até em relação à prostituição e à descriminalização das drogas leves”. 

Onde é que diz aí que eu sou a favor da eutanásia por motivos religiosos?

Não se consegue depreender com base neste texto o seu apoio à eutanásia?

Não, não consigo depreender. Isso é falso o que está a dizer. Alguma vez eu digo que sou a favor ou contra a eutanásia? Eu estou a dizer que, nos Estados laicizados da Europa Ocidental, a eutanásia foi despenalizada. E isso nada tem que ver com a minha posição pessoal. Você tem que ler menos a Fernanda Câncio e ler mais a verdade.

André Ventura, o que se depreende…

… não é o que se depreende. Onde é que diz aí que eu sou a favor da eutanásia? Está a mentir.

Nunca foi a favor da eutanásia?

Não, nunca fui.

© Micaela Neto

Ainda no mesmo texto, escreve: “Ainda bem que o Estado tem força e vontade de se assumir como plataforma de consenso, ainda bem que o Estado, enquanto expressão da comunidade política, prossegue os fins e defende os valores essenciais dessa mesma comunidade, sem interferir em domínios cuja competência deve caber apenas aos indivíduos, no âmbito do seu fundamental direito à liberdade individual, de consciência e de mundividência. Ainda bem que o Estado não decide arvorar-se de vestes paternalistas, indicando-nos o caminho a seguir, explicando-nos o que é bom e o que é mau”. Isto não é uma posição favorável?

Não. Isso é não ter ouvido a minha intervenção na Assembleia da República. Espero mais de si. Quando fui à Assembleia da República, disse que o motivo pelo qual somos contra a eutanásia não tem que ver com motivos religiosos. Tal como disse em 2004. Tem que ver motivos científicos, médicos e jurídicos. Sejam sérios uma vez na vida.

Quando disse que quatro dos oito membros da sua direção eram mulheres, sabia que a proporção era de três para onze? Suponho que conheça os seus núcleos.

Vamos lá ver uma coisa, nós podemos fazer todos os pontos e contrapontos…

Não estamos a fazer contrapontos, estou a perguntar-lhe se sabia que a proporção não era aquela.

Sabia. Mas eu estava a referir-me aos que são representantes da direção.

Mas se são três mulheres para onze homens, como é que chegou às quatro para oito?

Não me ponha na situação em que tenho que explicar tudo, pelo amor de deus. Ou então diga aos seus chefes para fazerem um trabalho um bocadinho melhor. São três mulheres na direção, mas depois há cinco ou quatro mulheres que são representantes da direção. Façam um bocado o trabalho de casa, que diabo.

Não é preciso nas suas declarações enquanto político?

Ouça, temos uma vice-presidente, que é a Marta Trindade, temos a Rita Matias e temos a Patrícia Carvalho. E tínhamos várias representantes de direção. A Cristina Vieira, que era representante da direção para as mulheres e para a violência doméstica. E temos tido várias que são representantes da direção para outros assuntos e que não podem estatutariamente ser membros da direção.

A direção é um órgão e o Chega tinha lá três mulheres e onze homens à data.

Mas tem representantes também. E tinha uma, que é a Cristina Vieira. Foi isso que eu disse. Têm que fazer o trabalho de casa, não é por-me sempre no papel de vos estar a corrigir.

Numa entrevista ao Polígrafo, em 2020, disse que tem a noção de que algumas pessoas o encaram como “vendedor da banha da cobra”. Ouvindo os seus adversários, fica-se com a impressão de que nada mudou.

Se ouvissem menos os meus adversários e mais a mim, percebiam a razão de estar a dizer isso. E a razão pela qual as pessoas acham ridículo e nos dão 15% nas sondagens, é porque percebem que há uma perseguição sistémica e consistente ao Chega. Vocês têm um primeiro-ministro que disse que ia ter 26 mil casas para dar. Passados quatro anos, não deu nenhuma. Não houve investimento em habitação, mas o que interessa é se o André Ventura era a favor da eutanásia há mil anos atrás. Descredibiliza-vos a vocês, não é a mim. Eu espero que isto passe mesmo, porque é um sinal do jornalismo que temos hoje: faz os fretes à esquerda toda. E que nem se prepara, pelo menos podia-se preparar. Vêm com coisas de trás…

O André Ventura partilhou um print há uns meses onde se lia que em Lisboa, dos 500 mil habitantes, 300 mil eram imigrantes. Acreditou nestes números?

Pois, e de onde é que era essa notícia? Sabe? Era da Globo. Agora não sei se isto vai passar. Eu partilho notícias se forem do Polígrafo, se forem da SIC, da TVI. Se a Globo mentiu é um problema da Globo.

A notícia continha um equívoco. Perguntei-lhe se acreditou naqueles números, não respondeu.

Eu ainda acredito nas notícias que se publicam. Quando diz que partilhei uma notícia, sim, era da Globo. Partilhei porque acreditei.

Na mesma entrevista ao Polígrafo admitiu ainda que se sentia “um pária” no Parlamento. Também dá ideia de que, nesse aspeto, nada mudou. Os seus colegas continuam a tratá-lo como tal.

Os meus colegas continuam a tratar-me da mesma forma agressiva que têm feito, como muitos órgãos de comunicação social. Mas nós cá estamos para nos defender. E por isso é que os portugueses nos dão 15% e 5% a eles.

E não pensa que atitudes como a que tomou recentemente com os cartazes de Catarina Martins no Parlamento contribuem para que esta questão se reforce?

Acha normal que não se levante a imunidade após o pedido de um juiz de instrução?

Estou a perguntar-lhe se acha que estes comportamentos contribuem para piorar a questão.

Não sei, era uma boa questão para o Polígrafo ver. Qual foi o último caso em que um juiz de instrução pediu levantamento de imunidade e o Parlamento não aceitou?

Não está a responder à minha pergunta. Vou repetir: acha que a opção de levantar cartazes no Parlamento não reforça esta questão?

De defender a justiça? Nós defenderemos sempre a justiça quando estiver em causa a impunidade dos políticos.

Não lhe parece que querer condenar Catarina Martins por delito de opinião é ceder ao politicamente correto que o Chega tanto abomina?

Mas eu tenho ido a tribunal porquê? Porque a Mariana Mortágua me acusou de partilhar a publicação de uma jornalista a dizer que ela tinha recebido dinheiro do BES. Eu não sei se recebe ou não, isso é uma questão para a justiça. Ela fez uma queixa, e bem, houve um pedido de levantamento de imunidade, e bem, e sabe o que é que eu fiz nesse dia? Levante-se a imunidade imediatamente, eu quero ir lá explicar. O que é que Catarina Martins fez? O contrário.

O Chega defende que a liberdade de expressão deve ser absoluta…

Não, absoluta não… Deve ser politicamente… deve ser um valor essencial da democracia. Absoluta não. Se eu usar a minha liberdade de expressão para a ofender isso não é liberdade de expressão.

… isto tudo ao mesmo tempo que traz a PSP para a Assembleia Municipal de Lisboa porque chamaram racistas às declarações de um deputado municipal. É nesses casos que a liberdade de expressão deve ser reprimida?

Eu não conheço o caso da Assembleia Municipal de Lisboa.

Não conhece o caso em que o seu deputado municipal…

Não estava lá, não estava lá. E portanto não conheço os contornos que aquilo teve em termos de chamar nomes a um e a outro. Sei que houve envolvência das duas partes e uma série de troca de acusações. Agora a Polícia deve ver e o Ministério Público também. Se eu lhe chamar nomes isso não é liberdade de expressão. E ali aparentemente houve vários nomes trocados entre pessoas.

Então acha que essa intervenção da PSP foi justificada?

Vamos deixar isso para o Ministério Público, para ver o que é que o Ministério Público tem a dizer sobre isso, que é quem tem que decidir legalmente se o deve fazer ou não. Agora, no caso que eu conheci de perto e, portanto, só falo por esse, que é o caso de Catarina Martins, voltava a fazer hoje exatamente aquilo que fiz. Não faz sentido que o Parlamento levante sistematicamente a imunidade a uns e não a outros. É uma proteção política.

Na sequência da divulgação do relatório dos abusos sexuais na igreja, o senhor defendeu um aumento das penas e dos prazos de prescrição. Essa é uma posição nova ou está presente desde os seus tempos no seminário? 

Basta ver o que nós defendemos em dezembro do ano passado.

Estou a perguntar-lhe se já a defendia nos seus tempos de seminário e não em dezembro do ano passado.

Nos meus tempos de seminário?

Sim, já defendia isso?

Sabe com que idade é que eu fui para o seminário?

Não tinha opinião sobre este tema?

Mas sabe com que idade é que eu fui para o seminário?

Não, diga-me. Não ando com um perfil seu comigo. 

Exato. E no seminário a questão da minha vida não eram os abusos sexuais como deve imaginar.

Não tinha conhecimento dos abusos sexuais?

Não tinha. Nunca, em toda a minha vida na igreja – eu passei na igreja grande parte da minha vida, converti-me com 14 anos, já não era nenhum bebé – assisti a situações de abusos sexuais. Nunca. Nem de comportamentos impróprios. Para comigo não houve, senão seria o primeiro a denunciá-lo, nem com outros. Agora, o que temos dito ao mesmo tempo é: isto envergonha a igreja, envergonha aqueles que são católicos, como é o meu caso, e nós não podemos ter uma posição para a sociedade diferente da que temos para a igreja. Se me perguntar se eu defendo o mesmo aumento de penas e castração química que defendemos para outros, sim, defendemos também para os padres, para os missionários, para os bispos, para os chefes de escuteiros… é exatamente a mesma coisa. Se me disser assim: pensou nisto quando foi para o seminário? Não.

Continua a ir à missa com regularidade?

Continuo.

E ainda se auto-inflige castigos corporais?

Não vou responder.

Quando é que foi a última vez que usou o cilício?

Também não vou responder.

Marcelo Rebelo de Sousa cometeu um erro imperdoável quando afirmou que os casos de abuso na igreja não lhe pareciam particularmente elevados?

Acho que ele não esteve bem aí e disse-lhe…

A Igreja e a relação com Deus têm sido um terreno demasiado aproveitado pelos políticos?

Não, até acho o contrário. Acho que os políticos não têm falado sobre Deus o suficiente. Têm receio de falar de Deus, sobretudo na Europa, o que não acontece nos Estados Unidos. Nos Estados Unidos há uma cultura e as pessoas religiosas, os políticos religiosos, falam de Deus mais à vontade. Na Europa não. Na Europa há um certo receio de falar de Deus e os políticos religiosos devem perder o medo de falar de Deus.

Agora, acho que Marcelo Rebelo de Sousa não esteve bem nessa declaração sobre os abusos sexuais, mas ele depois veio explicar isso. Eu estive com ele penso que um dia ou dois depois disso, numa audição que já estava marcada, e fiquei satisfeito com as explicações que me deu. Marcelo Rebelo de Sousa queria dizer precisamente o contrário, que face ao que se esperava, talvez a situação não fosse tão má…

Todos ouvimos a explicação…

Os casos de abusos sexuais não podem ser minorizados e têm que ser tratados de forma muito intensa. No próximo dia 9 de março, a pedido do Chega, a Assembleia vai ter uma tarde de debate sobre os abusos sexuais de menores. E mais uma vez teve que ser o Chega a trazer este assunto…

E não se vai sentir, na sua condição de católico, tentado a branquear os pecados da igreja em função da sua fé?

Não, repare, quer quando estive com o Presidente da República quer agora que foi revelado o relatório da comissão, eu defendi que as penas têm que ser maiores. Em dezembro, o Chega defendeu o aumento do prazo de prescrição. Todos votaram contra, menos dois partidos, penso eu, que se abstiveram. E agora, subitamente, todos são a favor. Isto é a verdade da mentira. Inclusive ouvi a Isabel Moreira dizer que era a favor, mas o PS votou contra. É importante que se saiba isto.

Acha que é agora que vai ser aprovado o aumento do prazo de prescrição?

Eu acho que o aumento de penas não vai ser aprovado e que a castração química não vai ser aprovada. Mas eu respeito isso, o Chega não tem maioria na Assembleia.

Prazo de prescrição, sim ou não?

Espero que relativamente ao prazo de prescrição, que é uma proposta do Chega, possa haver um consenso da sociedade portuguesa, após a comissão dizer aquilo que nós dissemos: que tem que se aumentar o prazo de prescrição destes crimes.

Nuno Melo disse este sábado que o Chega ia ser engolido pela IURD (Igreja Universal do Reino de Deus). Porquê?

Não vou fazer comentários. Eu acho que não se bate nas pessoas quando elas já estão no chão. Respeito muito o CDS, nós temos muitos quadros que vieram do CDS…

O CDS diz que tem quadros que vieram do Chega.

As sondagens dizem o contrário, portanto eu não vou estar a alimentar isso. Temos muitos quadros que vieram do CDS, o meu primeiro vice-presidente veio do CDS, Diogo Pacheco de Amorim veio do CDS, Pedro Pinto, líder parlamentar… O que eu disse não foi para melindrar de forma alguma o CDS, sempre tivemos uma relação óptima.

© Micaela Neto

Mas porquê a menção à IURD? O Chega é financiado pela IURD?

O Chega cumpre o financiamento que a lei determina, como sabe não pode haver entidades coletivas a financiar…

E tem membros da IURD?

Devemos ter membros de todas as igrejas do país, mais da católica. Há também uma grande presença evangélica no Chega, que é positiva, não só de portugueses como de brasileiros. E são muito apoiantes do Chega, alguns fazem parte de estruturas… estou-me a lembrar da Madeira, onde o vice-presidente é brasileiro.

Mas conhece militantes que pertencem à IURD?

Não conheço pessoalmente. Secalhar existem, tenho a certeza de que existem. Mas conhecer alguém não conheço. O facto de o Chega estar a crescer muito e a receber estes membros de várias igrejas a mim não me causa nenhum problema. Acho que isso é positivo.

A IURD é uma igreja que declara 42 milhões de euros livres de impostos todos os anos, que foi investigada por lavagem de dinheiro, que tem benefícios fiscais…

Mas eu não estou a falar de dirigentes. E isso também o Estado português, que nos cobra milhões de impostos e não nos dá o que deve. Temos que distinguir aquilo que são as cúpulas daquilo que são as pessoas.

Portanto o Chega tem os braços abertos para quem quiser entrar?

Para quem fala de Deus. Queremos que quem acredita em Deus, quem acha que Deus devia ter presença no espaço público, quem acha que os valores do cristianismo se estão a perder, seja parte do Chega. Que venha para ajudar. Sejam católicos, evangélicos, protestantes… ouça, até muçulmanos.

Eu acho que o Chega neste momento – acho, não tenho números e por isso não vá dizer depois que não dei os números certos – é o partido que tem o maior número de pessoas dentro que professam uma determinada religião.

É ou não um defensor da teoria da grande substituição, segundo a qual os povos europeus estão a ser substituídos por populações oriundas de outros países?

A pergunta assim, e eu acho que a compreendo bem, é um pouco simplista. Não estou a dizer que a formulação é simplista, a pergunta colocada a mim desta forma é que é simplista.

Há pessoas no Chega que já falaram nisto. O senhor nunca falou abertamente.

Eu vou falar por mim e assumirei estas palavras: há um risco na Europa de uma crescente, não chamaria substituição… ah… substituição não é a melhor palavra. Eu acrescentaria que há um risco de uma crescente aglomeração, de uma, de uma… de uma certa adulteração, adulteração cultural e civilizacional da Europa com os fluxos migratórios dos países islamizados ou islâmicos.

Aquilo que acabou de descrever é a teoria da substituição.

Eu sei, mas se eu a critiquei no início por não ter os dados corretos, não gosto de usar coisas sem ter os dados completos. Não sei se esse processo em termos de equilíbrio populacional, mesmo em países como a Alemanha, a França ou a Bélgica, se já estão a um nível que se possa falar de substituição. Portanto prefiro falar de adulteração. Quando tiver os números di-los-ei logo, imediatamente.

Não terá medo de dizer teoria da substituição?

Nunca terei medo. Não acho é que seja apropriado falarmos disso sem termos um conhecimento aprofundado do fenómeno migratório. O que se vê neste momento é que há um impacto significativo a nível cultural, civilizacional e social na Europa de imigração proveniente de povos não-cristãos, no sentido cultural e não religioso. E há o risco de adulterarmos a nossa civilização e os nossos valores.

Não considera que essa é uma atitude xenófoba?

Não, porque eu não estou a dizer que isso tem que ser corrigido à força e à bruta. Estou a dizer que é um facto. Sendo um facto, os europeus têm que pensar…

Mas está a dizer que devia ser corrigido.

Estou a dizer que ele existe. Na minha perspectiva devia ser corrigido. E por isso é que eu disse e assumo que não ficarei contente se um dia metade da população da Europa for islâmica. Isto já foi dito pelo Papa Francisco, por muitos governantes europeus, a Europa tem profundas raízes cristãs.

E deve mantê-las.

Na minha opinião deve mantê-las. Não é no sentido religioso, é no sentido cultural. Isso preocupa-me. E se a Europa se tornar um bloco islâmico preocupa-me ainda mais.

Uma vez, na Bélgica, disse aos colegas da extrema-direita europeia o seguinte: “Venho de um país onde se diz que a sharia ou as regras muçulmanas nalgumas cidades são ‘ok’.”  Onde é que se diz isto, exatamente?

A nossa esquerda diz toda isso.

A nossa esquerda diz toda isto?

Sim, diz que não há problema nenhum. E foi isso que eu lhes quis dizer: cuidado com as vossas esquerdas, porque a esquerda lá em Portugal e em Espanha diz isto.

Mas em que cidades é que se diz que isso é “ok”?

A nossa esquerda diz que isso é “ok” em todas as cidades da Europa. Diz que não há problema nenhum e que, se andarmos na rua, e houver partes da cidade em que as mulheres tenham que andar todas cobertas, para eles não há problema nenhum. É uma questão cultural. Para nós é um problema: as mulheres não são mercadoria.

Essas declarações que foram feitas pela esquerda portuguesa… tem noção de quando, em que circunstâncias?

Mas eu nem preciso de saber quando. No Parlamento, sempre defenderam a massificação dessa cultura islâmica na Europa. Encontrará vários a dizer isto, desde o Francisco Louçã a outros… quando esta presença islâmica tem levado em muitos casos à diminuição das mulheres enquanto seres humanos, sociais… à adulteração e ao fanatismo cultural. E já não estou a falar de ataques terroristas, porque isso é uma minoria muito significativa (SIC). E tem levado a uma ofensiva contra a nossa cultura sem precedentes, em que as mulheres são as primeiras vítimas, mas as crianças também.

Não acha que colocar a mulher no papel de vítima é também aquilo que têm feito os seus colegas da extrema-direita, ao forçar a mulher a ouvir o batimento cardíaco do feto antes de abortar? Concorda com isto?

Não, não vamos misturar as duas coisas. Vamos lá ver…

Então não concorda? Estou-lhe só a perguntar se não acha que isto é vitimizar a mulher.

Não interessa aqui a minha opinião pessoal. Não quero falar sobre o aborto, já o disse várias vezes. Para nós não foi nenhuma prioridade. Agora, não vamos misturar o aborto com a questão da imigração.

Não estou a misturar. Estou a perguntar-lhe se considera que os seus colegas da extrema-direita europeia estão a proteger os direitos das mulheres quando propõe este tipo de medidas.

Eu compreendo perfeitamente e o Chega tem tido uma política pró-vida acentuada. É um debate em curso entre mulheres e homens, não é uma questão fechada. E há quem ache que a defesa do direito à vida vai até ao elemento mais radical da vida humana, no sentido etimológico, e portanto eu compreendo aqueles que defendem que a preocupação com o feto e com a vida deve preponderar sobre a vontade de quem quer abortar.

Esta não é só uma posição anti ou pró-aborto.

Eu não sei quem é que disse, não ouvi. Talvez me possa dizer o nome da pessoa que disse isso. Mas essa não é a nossa prioridade. A questão da imigração e da transformação civilizacional é. Você sabe, como eu sei, que em muitas comunidades islâmicas as mulheres são vítimas de um abuso cultural, civilizacional, violentíssimo, em que são desprovidas de direito, de personalidade, são obrigadas a vestir-se como não querem… desde a escola até ao casamento.

Mantém a sua definição de “subsídio-dependentes”? 

Em relação a quê?

Em relação aos “subsídio-dependentes”. Gostava que me fizesse uma definição daquilo que considera ser um “subsídio-dependente”.

Fazer uma definição… “subsídio-dependente” é alguém que maioritariamente vive de subsídios e que genericamente tem uma cultura de subsídio-dependência face ao Estado.

Subsídios como o RSI, por exemplo. Já encontrou a fórmula para alguém não ser dependente de uma prestação que vai dos 90 aos 200 euros? 

Aqui não é só a fórmula, não é… é evidente que nós temos feito no Parlamento um trabalho para que a subsídio-dependência seja reduzida. Nos Açores foi o Chega que impôs a regra de uma redução progressiva do RSI, também. Mas pedindo que, ao mesmo tempo, isso seja colmatado com o aumento da oferta de trabalho, para que quem saia da subsídio-dependência possa trabalhar. Mas a nossa proposta tem ido mais longe: para que quem recebe essas prestações ou outras, exceto em caso de invalidez, possa contribuir para a comunidade e, portanto, possa trabalhar. Porque está a receber uma prestação do Estado.

Ainda não respondeu à minha pergunta: como é que alguém pode não ser dependente de uma prestação mensal que vai dos 90 aos 200 euros?

Trabalhando. Têm que trabalhar.

30% dos beneficiários do RSI são menores. Não pode colocar menores a trabalhar.

Bom… eu não estou a colocar os menores… agora os outros 70%…

Menores não são “subsídio-dependentes”?

Não é vontade deles serem “subsídio-dependentes”. Se os pais não trabalham… Temos que ser razoáveis. Agora, os outros têm que trabalhar como toda a gente trabalha. Não podemos criar a cultura de que não trabalhar é melhor do que trabalhar. É isto que está enraizado hoje. Enquanto ando pelo país todo, dizem-me que não há ninguém para trabalhar. E sabe porquê? Porque uma grande parte está a receber subsídios.

Acha então que as pessoas preferem um subsídio que vai, volto a insistir, dos 90 aos 200 euros, do que receber um salário de 600, 700, 800 euros?

Primeiro é preciso fazer um esclarecimento: quando há filhos menores, os subsídios são gradativos. Vão aumentando. E não vão para as crianças, vão para os pais. É preciso sermos sérios, temos que dizer as coisas às pessoas. Não se pode mentir, isto é o Polígrafo. Tem que dizer que há pessoas que recebem mil euros.

Conhece as condições em que uma pessoa chega a receber mil euros de RSI? Quantos filhos tem que ter…

Pergunte às pessoas nos correios, eles dizem.

Mas quantos filhos tem que ter uma família para receber mil euros de RSI? São quatro, cinco filhos?

Mas são os filhos que vão buscar o dinheiro? Não, são os pais.

Mas os pais têm que alimentar e têm responsabilidades sobre os filhos.

E sabe se eles investem nos filhos? Fiscaliza isso?

Então acredita que os pais não estão a investir esse dinheiro nos filhos, não estão a alimentar os filhos?

Claro que acredito. Os pais que trabalham não têm filhos para sustentar também? Diga lá… Acha normal que alguém vá buscar mil euros sem fazer nada? Porque tem três filhos, vai buscar mil ou mil e duzentos euros… Mas a senhora administrativa que trabalha das oito da manhã às sete da tarde vai buscar 700 ou 750 euros.

Está a comparar duas situações distintas: o salário de uma pessoa individual e o rendimento de uma família completa com quatro a cinco filhos.

Não, sabe o que é que eu estou a comparar? Quem declara e quem não declara. Porque muitos destes depois têm biscates e trabalham por fora. Esta é a verdade, as pessoas não gostam de ouvir. No país todo sabe-se que é assim. Você sabe que é assim, só que veio com dados de 200 euros a ver se me enganava, mas não me engana, porque este assunto conheço eu melhor do que a maior parte das pessoas neste país. Eu sei de quem ganha mil euros, de quem ganha mil e duzentos… e até sei de quem ganha mais. Coisas que a envergonhariam a si, aos seus vizinhos e a todos os que vivem do trabalho.

E tem dados que confirmam que os beneficiários de RSI têm trabalhos à parte?

O que eu sei é isto, quando começou a baixar o RSI…

Mas eu queria saber como é que o André Ventura fez essa investigação.

Os dados são estes: quando os Açores começaram a diminuir o RSI, viu um aumento da emigração para algum lado? Não, sabe o que é que aconteceu? Começaram a trabalhar. Por isso quando pergunta: como é que se acaba com a subsídio-dependência? Com trabalho, que é isso que é preciso. Temos um país em que metade trabalha para a outra metade viver desse trabalho.

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Nota Editorial: a segunda parte desta entrevista, que versa principalmente temas político-partidários, será publicada amanhã, dia 23 de fevereiro.

 

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