Deputado do Chega defendia “castigos corporais” aos alunos na sala de aula
Antigo militante do PSD, Mithá Ribeiro não era um desconhecido quando entrou na Assembleia da República. Em 2006, num artigo publicado no jornal “Diário de Notícias”, Vasco Graça Moura citava o livro do atual deputado do Chega, “A Pedagogia da Avestruz”, onde Mithá Ribeiro afirmava: “Cheguei a ter de jogar alunos e respectivo material pela porta fora, porque se recusavam a obedecer à ordem de expulsão da aula; cheguei a agarrar pelos colarinhos alunos que me invadiam a sala; cheguei a pôr o dedo em riste em algumas situações. Arrisquei a minha pele? Sim, mas ganhei o respeito dos outros e assim pude trabalhar.”
Já em 2013, numa entrevista ao jornal “i”, o ex-docente explicou que “é muito difícil separar a indisciplina da violência. O problema sério nas escolas é a indisciplina. E o problema seríssimo é a pequena indisciplina”. Além, claro está, do “ruído”, que se tornou “tão normal que só reagimos quando se ultrapassa” um limite.
“O modelo participativo tem virtudes mas também tem problemas e um deles é incentivar a indisciplina”, continuou o agora deputado do Chega, que acabou mesmo por dizer que “o modelo autoritário diretivo consegue mais eficazmente impor o silêncio“, lamentando que se tenha passado de “um modelo autoritário da ditadura para uma ditadura da democracia que impôs o modelo participativo. Quem hoje defender o modelo autoritário parece que está a cometer um pecado capital”.
É já no final da entrevista que Mithá Ribeiro indica ser um “professor autoritário” e que, para isso, beneficia “de duas vantagens que são vergonhosas de dizer num estado civilizado. Uma: sou homem e posso ser fisicamente afirmativo. Se um aluno desobedecer à minha ordem estou preparado para atuar. Não dou aulas sem estar fisicamente bem preparado – faço jogging, exercício, etc.”
Recordado sobre a exigência do Estado Novo em relação à robustez dos professores, Mithá Ribeiro assumiu a “robustez física como condição de sobrevivência na sala de aula”: “Por outro lado, ser negro é uma grande vantagem para lidar com minorias. A maioria do corpo docente são mulheres de etnia portuguesa. Se alguém estiver interessado em perceber o que é a violência sobre as mulheres é entrar numa sala de aula. Combater a violência contra as mulheres é combater a indisciplina nas escolas. Mas o que temos é um discurso académico politicamente correto que, ao mesmo tempo que defende a condição da mulher, defende exageradamente a condição do aluno que massacra essa mulher. Os governos passam e este problema arrasta-se. Devíamos ter vergonha disso.”
Confrontado com o livro e os episódios autoritários que nele relata, Mithá Ribeiro reafirmou algumas das intervenções: “Tive um aluno que ficava à porta da sala a gozar enquanto os colegas entravam. Um dia em que entrou, agarrei-o com a toda a força e rebentei-lhe a camisa e só não lhe bati. Ficou de tal maneira assustado que nunca mais apareceu nas minhas aulas. Nesse ano tive o meu carro riscado de ponta a ponta. Mas nunca contestei. É o preço a pagar.”
Ex-vice-presidente do Chega escreveu artigo sobre “Hitler e Mussolini amordaçados pela ditadura mental”
Neste artigo, Gabriel Mithá Ribeiro, um dos vice-presidentes do partido Chega, defendeu as virtudes do “nacionalismo”, traduzindo-se por exemplo na ideia de que “rejeitar liminarmente o antinacionalismo ou globalismo antifronteiras constitui um dever da cidadania responsável num momento em que a desregulação da imigração extraeuropeia há muito fez soar os alarmes por toda a Europa Ocidental. No entanto, a única forma de autodefesa dos povos, o seu nacionalismo, continua deslegitimada por um conluio de elites antinacionais que agrega académicos, intelectuais, jornalistas, políticos, artistas, sindicalistas, por aí adiante”.
Na perspetiva de Mithá Ribeiro, “a sensibilidade nacionalista das pessoas comuns não pode continuar a ser ignorada, humilhada, desrespeitada, tratada como uma doença civilizacional dos portugueses, dos povos europeus e demais povos do mundo ocidental, como os brasileiros ou norte-americanos. Tal conjunto de nacionalidades deve compreender que o equilíbrio mental coletivo das suas sociedades foi colocado em causa por uma gestão fortemente enviesada da memória social organizada em torno do nacionalismo fascista, simbolizado em Benito Mussolini, e do nacionalismo nazi, de Adolf Hitler. Não está em causa o julgamento condenatório desses regimes, porém nem o maior crápula do planeta pode ser sequestrado pela manipulação e pela mentira, antes confrontado com a verdade e com o sentido de justiça em nome da liberdade“.
Embora não se trate de uma apologia dos regimes de Mussolini e Hitler, menos de forma assumida, lendo o artigo na sua totalidade verifica-se que o autor, no essencial, lamenta que a “memória social” em torno dos regimes de Mussolini e Hitler tenha como que lançado um anátema sobre as ideias “nacionalistas”, não forçosamente impregnadas de princípios fascistas e/ou nazistas.
Essa interpretação torna-se mais clara num dos últimos parágrafos do artigo que também passamos a transcrever: “As disfuncionalidades das sociedades e do mundo residem sempre na orientação moral dos regimes vigentes, nunca nas seculares tradições nacionais. Trocar o essencial pelo acessório é próprio de ignorantes ou, bem pior, de manipuladores mentais, arte em que a esquerda é exímia. Daí que a justíssima condenação do fascismo e do nazismo, de Mussolini e de Hitler – que o Chega nunca deixará de o fazer -, tenha de remeter para o falhanço moral desses regimes. É apenas esse falhanço que está em causa e jamais o falhanço do ideal nacionalista, pela mesma razão que um pai homicida não torna o ideal de família genocida”.
Mithá Ribeiro dedicou livro a Donald Trump e Jair Bolsonaro apresentado por Maria Luís Albuquerque
De facto, no dia 6 de novembro de 2019, a antiga ministra das Finanças e ex-deputada do PSD apresentou o novo livro de Gabriel Mithá Ribeiro, intitulado como “Um Século de Escombros – Pensar o futuro com os valores morais da Direita”.
Segundo noticiou a Agência Lusa nesse mesmo dia, “a antiga ministra das Finanças entre 2013 e 2015, apresentou hoje, em Lisboa, o livro ‘Um século de Escombros – Pensar o futuro com os valores da Direita”, de Gabriel Mithá Ribeiro, onde esteve também o antigo primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, o que mereceu um agradecimento especial por parte do autor. Mas sobre a situação que o PSD atravessa, com a disputa da liderança entre Luís Montenegro, Miguel Pinto Luz e o atual presidente do partido, Rui Rio, que sucedeu precisamente a Passos Coelho, nenhum dos antigos governantes quis falar à comunicação social”.
“Na apresentação do livro, a social-democrata recordou os tempos em que o XIX Governo (2011-2015) pôs em prática o programa de ajustamento financeiro, depois da crise de 2011. Entre os países que passaram por um resgate, a Grécia foi aquela que optou por adotar uma ‘atitude de vítima‘, em contraste com ‘a atitude de responsabilidade adotada pela Irlanda, Portugal ou Chipre’, afirmou a antiga ministra”, de acordo com a Agência Lusa.
“‘O posicionamento de vítima assumido pelo governo grego acabou por levar a medidas muito graves‘ que fizeram com que o ‘sofrimento tenha sido muito e inutilmente prolongado’, considerou a ex-governante. Na sua opinião, os partidos da esquerda em Portugal ‘rapidamente se descartaram da responsabilidade da resolução da crise e, naturalmente, aderiram ao herói do Syriza quando apareceu com esta postura de vítima e com esta atitude de desafio‘”, lê-se na mesma notícia.
Mais, “na sua intervenção, Maria Luís Albuquerque fez também referência ao facto de o livro abordar o período do nazismo e os crimes perpetrados por este regime que vingou na Alemanha, e destacou ‘a forma como os crimes associados ao nazismo foram aceites‘ e ‘ultrapassados‘. Um contraste com a ‘mea culpa’ que não foi feita na sequência de ‘muitos dos crimes cometidos por regimes contemporâneos, de regime comunista‘, argumentou. ‘Ao não reconhecer os erros, eles não são ultrapassados e correm imenso risco de se repetirem‘, alertou”.
Consultando o livro em causa de Mithá Ribeiro, confirma-se que é mesmo dedicado a “Donald Trump, Jair Bolsonaro, Nova Direita Europeia e Povo de Israel”, logo nas respetivas páginas iniciais (pode consultar aqui).
