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De falso em falso… Uma dezena de mentiras sinalizadas pelo Polígrafo que André Ventura não apagou

O líder do Chega publicou nas redes sociais uma notícia falsa com o grafismo da rádio Renascença, prontamente sinalizada pelo Polígrafo. Entretanto, questionado pela Renascença, Ventura não esclareceu qual a origem da publicação e não a apagou. O jornal "Público" queixa-se de uma situação idêntica que, aliás, tem sido recorrente. O Polígrafo compila 10 exemplos recentes.

Em fevereiro de 2023, na entrevista concedida por André Ventura ao Polígrafo, o líder do Chega recusava o rótulo de mentiroso. Foi confrontado com publicações falsas que fez no Twitter e não as eliminou, mesmo depois de ter assegurado que o faria. Seis meses depois nada mudou.

Ventura mantém o modus operandi de partilhar informação sem que se retracte quando a mesma é sinalizada como falsa. No mais recente caso foi até desmentido pela rádio Renascença (e pelo jornal “Público”) na sequência de um fact-check do Polígrafo.

Do mais recente ao mais antigo, recorde 10 mentiras que se mantêm nas redes sociais de Ventura sem qualquer retificação:

A falsa notícia sobre “milhares de inscritos na JMJ desaparecidos”

No rescaldo da Jornada Mundial da Juventude (JMJ), que reuniu mais de um milhão de fiéis em Lisboa, Ventura partilhou nas suas redes sociais uma suposta notícia a dar conta de “milhares de inscritos desaparecidos”. Em causa estaria uma vaga de “imigração ilegal” validada por um “especialista”. “Nós tínhamos avisado. O Governo não fez absolutamente nada!”, argumentava.

A informação verificou-se ser falsa. O líder do Chega partilhou uma imagem manipulada com recurso ao grafismo da “Rádio Renascença” que, quando contactada, rejeitou “a publicação deste conteúdo em qualquer uma das plataformas em que a Renascença está presente”. A notícia nunca existiu e desconhece-se a origem da imagem manipulada.

No Twitter (ou X), Ventura mantém a notícia falsa, tal e qual como a publicou no dia 6 de agosto.

“Quando era homem não ganhava nada”, defendeu Ventura sobre atleta trans 

No dia 12 de julho, o líder do Chega denunciou uma situação que considerou injusta no Twitter. Em causa uma atleta paralímpica e trans que teria conquistado oito títulos italianos desde a transição. “Quando era homem não ganhava nada”, escreveu Ventura.

A atleta em questão é Valentina Petrillo, de 49 anos, que compete nas categorias sprint de 100, 200 e 400 metros para invisuais. Aos 20 anos, Petrillo mudou-se para Bolonha para estudar Ciências da Computação no Instituto para Cegos e foi nessa altura que se tornou membro da equipa nacional de futebol da Itália para pessoas invisuais.

“Foi apenas aos 41 anos que ela finalmente começou a correr novamente, tendo conquistado 11 títulos nacionais em três anos na categoria T12 masculina para atletas com deficiência visual”, escreveu a “BBC” no artigo de 2021.

Desta forma, desmente-se o que defendeu Ventura. Mas o tweet mantêm-se sem qualquer correção.

A mentira de que o Chega é o único partido no Parlamento contra liberalização das drogas

No Dia Internacional Contra o Abuso e o Tráfico Ilícito de Drogas (26 de junho), o líder do Chega fez um tweet em que garantia: “O Chega é o único partido naquele Parlamento contra a liberalização das drogas. O resto é tudo igual, todos a mesma coisa.”

O Polígrafo centrou a sua verificação na posição dos partidos políticos com assento parlamentar em relação à legalização para fins recreativos – e não para o fim medicinal (aprovado em 2018) e constatou que o argumento não tinha fundamento.

O PCP e PSD chumbaram propostas de liberalização das drogas. No caso dos comunistas, a posição mantém-se inalterada desde a última votação (2019). Relativamente ao PSD, apesar de alguns setores do partido mostrarem uma progressiva receptividade para essa mudança, o seu líder já se afirmou contrário à mesma.

O tweet que dizia que a amnistia “vai soltar traficantes de droga para as ruas”

A publicação feita a 21 de junho por André Ventura – e que se mantém tal como as outras – é ilustrada por uma imagem em forma de cartaz da autoria do próprio Chega, onde se lê: “Governo aprova amnistia que abrange traficantes de droga até aos 30 anos.”

“Isto é um erro tremendo! Agora vamos soltar traficantes de droga para as ruas? Este é o Governo da bandalheira total!”, escreveu Ventura.

Em causa está a Proposta de Lei (n.º 97/XV/1.ª), aprovada no Conselho de Ministros de 19 de junho, que concede um “perdão de penas e amnistia de infrações praticadas por jovens”, entendidos por este diploma como pessoas com idade compreendida entre os 16 e 30 anos.

Mas é falso que os traficantes de droga sejam perdoados como afirma Ventura. Há mais de duas dezenas de crimes que não são abrangidos por este perdão do Estado e, entre eles, está o tráfico de estupefacientes.

Mariana Mortágua foi eleita com “braços no ar” e “sem votação secreta”

André Ventura e Pedro Frazão, deputados do Chega, divulgaram no Twitter que a nova líder do Bloco de Esquerda (BE), Mariana Mortágua, teria sido eleita por uma votação não secreta, com “braços no ar”, durante a Convenção e recorreram a imagens do suposto momento, mas também aqui é falso o que difundem.

A explicação: É verdade que na manhã de 28 de maio, Mariana Mortágua, deputada bloquista, venceu as eleições internas do Bloco com uma margem significativa. A lista da moção A, encabeçada pela própria, recolheu 439 votos contra os 79 da lista da moção E, liderada por Pedro Soares, mas não foi Mortágua quem foi votada de “mão no ar”. Foi sim a sua moção, como explicou ao Polígrafo o partido: “Segundo a Moção aprovada pela Convenção, ‘a coordenação da Comissão Política ficará a cargo de quem encabece a lista mais votada para a Mesa Nacional do Bloco de Esquerda'”.

Entre dia 27 e 28 de maio, a Mesa Nacional “foi eleita por voto secreto”, confirmou ao Polígrafo o Bloco, “como acontece em todas as Convenções” do partido. É dessa Mesa que faz parte, como coordenadora, a deputada bloquista.

O tweet mantém-se tal como estava em maio.

O cartaz do Livre partilhado por André Ventura e a manipulação do mesmo

O líder do Chega difundiu nas redes sociais a imagem de um cartaz da “Festa da Espiga”, iniciativa do partido Livre que incluiu um “Espetáculo Drag”, com o respetivo preçário no qual se destaca (sublinhado) que o “bilhete criança até 16 anos” é “gratuito”.

Ventura comentou: “Entrada gratuita para crianças numa festa com ‘Drag Queens’? A nossa esquerda está podre e doente. (…) É preciso proteger as nossas crianças!”

Mas a imagem foi manipulada. Na realidade, o cartaz original com a referência ao “Espetáculo Drag” não inclui o preçário, adicionado na imagem falsificada. E mais: o “Espetáculo Drag” era apenas uma entre várias atividades da “Festa da Espiga”, que iam desde a exibição de um documentário até uma conversa sob o mote “Que energia para este clima? Em Portugal e na Europa”, passando por um concerto e ainda por uma “sessão coletiva de palavras ditas”.

A conferência com participação de Sócrates divulgada por Ventura que… aconteceu em 2015

“Isto podia ser piada mas não é! Vai mesmo acontecer! O sistema protege-se e protege os seus. Este país precisa de uma limpeza!”. Este é o tweet que se mantém até hoje na conta de André Ventura.

Foi feito no dia 11 de fevereiro e servia para comentar um suposto evento que iria ocorrer no dia 13 de fevereiro no Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE). Mas o “vai mesmo acontecer” está errado… porque já aconteceu em 2014.

A conferência com o mote “O Papel do Estado na Sociedade Contemporânea” que contava com José Sócrates, ex-primeiro-ministro português, como principal interveniente, ocorreu em 13 de fevereiro de 2014.

Apesar de desmentido por vários utilizadores do Twitter, e depois de verificado pelo Polígrafo, Ventura não apagou o que escreveu.

Imagem partilhada por Ventura que mostrava cão que “salvou a dona” em sismo era afinal de 2018

A fotografia tornou-se viral nas redes sociais após o terramoto que atingiu a Turquia e a Síria no dia 6 de fevereiro. A imagem que mostrava um cão deitado nos escombros junto a uma mão emocionou muitos, e até André Ventura a partilhou nas redes sociais.

“Na Turquia, após este sismo devastador, foi um cachorro que descobriu e salvou a dona. Ainda há seres humanos que maltratam os animais. Devíamos estar-lhes gratos por tudo o que nos dão”, escreveu na legenda do tweet.

Mas a referida fotografia não foi captada na Turquia e não tem relação com o sismo registado em fevereiro de 2023. O registo fotográfico encontra-se no site da agência britânica “Alamy” e data de 18 de outubro de 2018. Está registada como sendo da autoria de Jaroslav Noska e na descrição lê-se: “Cão procura feridos em ruínas após terramoto”.

O Polígrafo identificou o erro, mas Ventura não corrigiu a informação difundida.

Impostos dos portugueses pagaram “destransição” de mulher norte-americana, dizia Ventura

Recorrendo à imagem de uma notícia do jornal “Correio da Manhã”, André Ventura comentou no Twitter que “os nossos impostos vão servindo para pagar coisas como esta”.

Em causa a notícia “Mulher muda de sexo e agora volta atrás na decisão por não se identificar como homem” que remonta a maio de 2022. Divulgada no jornal “Correio da Manhã”, a peça é referente a Alia Ismail, de 27 anos, que terá feito uma mastectomia e tomado hormonas masculinas durante seis anos. Após o processo, Ismail descobriu que não se identificava com o novo corpo.

Faltou a Ventura referir que Alia Ismail é uma cidadã norte-americana, não beneficiando, por esse motivo, dos impostos dos portugueses ou sequer de um serviço de saúde público.

Lisboa tem 500 mil habitantes e quase 300 mil são imigrantes, destacou (erradamente) Ventura

Em outubro de 2022, o líder do Chega exibia a imagem de uma aparente notícia – “Dos poucos mais de 500 mil habitantes de Lisboa, quase 300 mil são imigrantes” -, a partir da qual concluía, desde logo, que “ainda vamos a tempo de parar esta loucura e de evitar os exemplos desastrosos de política de imigração criminosa que vimos noutros países da Europa”.

Ventura recorreu a um artigo publicado no dia 8 de outubro, tendo sido escrito por um correspondente do G1 na cidade de Lisboa. No entanto, consultando os últimos dados do Instituto Nacional de Estatística (atualizados no dia 16 de dezembro de 2021), verifica-se que os números apresentados no artigo (e no post de Ventura) estão incorretos.

O Polígrafo concluiu que os números apresentados no post estão errados, na medida em que se confunde a cidade de Lisboa com a Área Metropolitana de Lisboa e misturam-se dados referentes a uma e outra.

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