"O Dr. António Costa é Primeiro-Ministro de Portugal há 5 anos, 5 meses e 8 dias. São já 284 semanas de exercício de poder com as chaves do Orçamento de Estado numa mão e com a caneta na outra para referendar leis e assinar decisões. E, contudo, este tempo tem-se traduzido apenas em estagnação e em vazio e para os amadorenses", aponta Suzana Garcia no seu mais recente artigo de opinião publicado no jornal Observador.

No seguimento desta acusação, a advogada faz uma série de afirmações relacionadas com a falta de investimento nos serviços de saúde e transportes da Amadora.

Será que correspondem à verdade?

1.

A afirmação:

"Mais de metade da população da Amadora não tem médico de família". 

O Polígrafo consultou o Portal da Transparência do SNS, onde é possível verificar que os dados mais recentes relativos à atribuição de médicos de família por área de Agrupamento de Centros de Saúde (ACES) são de março de 2021.

No ACES da Amadora existem 170.836 utentes inscritos em Cuidados de Saúde Primários, destes, 126.517 têm médico de família atribuído, ou seja, 74%. Assim, restam 43.928 utentes sem a atribuição do médico de família, cerca de 26%.

créditos: © SNS

No entanto, Suzana Garcia refere que a população da Amadora é de 182 mil pessoas. De facto, na base de dados Pordata, a informação mais recente relativa à população residente por concelho indica que em 2019 habitavam no município 182.915 pessoas. Este dado tem como fonte o Instituto Nacional de Estatística (INE) e diz respeito à estimativa anual da população residente por concelho.

Ainda que se considere a população total indicada, as 182.915 pessoas, já sabemos que apenas 170.836 se encontram inscritas nos Cuidados de Saúde Primários, ou seja, restam 12.079 pessoas que não estão inscritas e que, consequentemente, não têm médico de família atribuído.

Somando estas 12.079 pessoas com as 43.928 que, apesar de inscritas, não têm médico de família, obtemos um total de 56.007 pessoas. Ou seja, dos 182.915 habitantes no concelho da Amadora, 31% não tem médico de família e/ou não estão inscritas em cuidados de saúde primário.

Apesar de o número de habitantes sem médico de família ser elevado, principalmente quando comparado com outros concelhos, é falso que este corresponda "a mais de metade da população da Amadora".

Avaliação do Polígrafo: Falso

2.

A afirmação:

"[Governo] cancelou a prevista expansão da Linha Azul até ao Hospital Amadora-Sintra, cuja população tem como lhe aceder apenas por carreiras da Vimeca, ou por táxi, ou viatura particular".

No seguimento desta afirmação a advogada escreve ainda: "Mas em vez deste investimento tão premente, tão necessário para cerca de 600.000 pessoas, o Dr. António Costa preferiu proceder ao despejo de dinheiro na futura Linha Circular do centro de Lisboa, não servindo nem os amadorenses nem os lisboetas que mais precisam de transporte, optando ao invés por colocar um dispendioso carrossel para turistas no centro de Lisboa".

"Esta é a realidade: o Dr. António Costa tira aos suburbanos para dar aos privilegiados do Chiado", reafirma Suzana Garcia. Confirma-se?

Recuando até 2009, é possível encontrar várias notícias que anunciam a chegada do metro ao Hospital Amadora-Sintra. Nos meses que antecederam as eleições legislativas de 2009, foi lançado um ambicioso plano de expansão do Metro de Lisboa, que previa a construção de 30 novas estações.

De acordo com o Jornal de Notícias, iria ser feito um investimento de cerca de 2,5 mil milhões de euros. Entre outras, o plano previa novas estações em Odivelas, Benfica, Alcântara, Loures e previa-se a ligação até ao hospital Amadora-Sintra, tal como referido por Suzana Garcia. Na altura, já se encontrava também projetada a criação de uma linha circular do metro.

Em 2016, quando o metro já tinha chegado à Amadora Este e à Reboleira, foi apresentado o "Plano de Desenvolvimento Operacional da Rede do Metro". Algumas ideias do plano inicial foram mantidas e outras acabaram por ficar esquecidas. Mais tarde, em 2017, o Governo anunciou que a expansão do Metro de Lisboa iria concretizar a ideia da linha circular projetada em 2009, através da construção das estações da Estrela e de Santos.

Nessa altura, o então ministro do Ambiente, anunciou que a construção desta linha circular iria custar 216 milhões de euros, investimento que seria realizado com recurso a fundos do Banco Europeu de Investimento (BEI).

Depois de avanços e recuos e de uma forte oposição política ao projeto que foi suspenso em 2020, as obras arrancaram no dia 14 de abril deste ano, entre o Rato e Santos, dando início à formação do controverso círculo que passará a unir todo o centro da cidade.

Contactada pelo Polígrafo, fonte oficial do Metropolitano de Lisboa confirma que "o projeto de expansão da rede tem como base o Plano MOPTC de 2009 que contemplava diversos prolongamentos, entre eles a extensão ao Hospital Amadora-Sintra/Prof. Doutor Fernando Fonseca, a linha circular através da ligação das linhas Amarela e Verde Rato/Cais do Sodré, o prolongamento a Alcântara, entre outros projetos".

Segundo a mesma fonte, "as contingências económico-financeiras vividas no país, após a apresentação do estudo de 2009, não tornaram, ainda, possível a concretização de todos os prolongamentos previstos nessa proposta, designadamente a extensão ao Hospital Amadora-Sintra/Prof. Doutor Fernando Fonseca".

Avaliação do Polígrafo: Verdadeiro

3.

A afirmação:

"[o Hospital Amadora-Sintra] teve roturas no abastecimento de oxigénio durante a primeira fase da pandemia, num cenário verdadeiramente terceiro-mundista".

A 1 de fevereiro, o Polígrafo fez um fact-check sobre a alegada rutura de oxigénio no Hospital Amadora-Sintra e a possibilidade de essa rotura repetir-se noutros hospitais nacionais. A alegação era falsa.

O Hospital Professor Doutor Fernando Fonseca (HFF) desmentiu: "A 26 de janeiro de 2021, com 385 doentes COVID-19 internados em enfermaria – uma taxa de esforço COVID-19 de 62% do total de camas disponíveis do hospital e o maior número de doentes Covid internados de todo o país – registou-se o pico histórico de assistência do HFF à pandemia. Com mais de uma centena de doentes Covid-19 em Ventilação Não Invasiva (VNI), procedimento que salvaguardou a escalada destes doentes para as limitadas vagas em cuidados intensivos a nível nacional, o HFF registou uma sobrecarga da sua rede de oxigénio".

Segundo o hospital, "nunca esteve em causa a disponibilidade de oxigénio medicinal, ou a rutura ou colapso da rede, mas sim a dificuldade da estrutura existente em manter a pressão, em casos muito pontuais, devido ao número recorde de doentes infetados por Covid-19 internados no HFF. Em momento algum, os doentes internados estiveram em perigo devido a esta ocorrência".

"A transferência de doentes para outras unidades de saúde menos pressionadas, ou para os Hospitais de retaguarda, permitiu redistribuir o esforço entre as instituições da região, da mesma forma que, durante a primeira vaga, também o HFF recebeu doentes Covid de outros hospitais e regiões do país mais afetadas pela pandemia", explica a unidade hospitalar.

Avaliação do Polígrafo: Falso

4.

A afirmação:

"Um hospital [Amadora-Sintra] que foi construído pelo governo do Prof. Aníbal Cavaco Silva nos anos 90, originalmente para servir 200 mil pessoas, e que atualmente serve uma população de 600 mil". 

É verdade que o HFF serve mais 400 mil pessoas do que aquelas que era previsto servir?

Tal como explica a unidade hospitalar, o HFF foi projetado em 1985 e a sua construção prolongou-se por uma década. Os dados dos Censos de 1981 mostram que, nesse ano, a população dos concelhos da Amadora (161.341) e de Sintra (224.873) correspondia a um total de 386.241 habitantes.

Atualmente, segundo fonte oficial da unidade hospitalar, o HFF "serve as necessidades de saúde de cerca de 575.000 habitantes dos concelhos de Amadora e de Sintra". Consultando os dados da estimativa da população residente na base de dados Pordata nos dois concelhos, constata-se que é de 581.833 habitantes.

Assim, é possível concluir que o HFF servirá quase mais 200.000 habitantes do que aqueles que residiam nos concelhos de Amadora e Sintra quando a unidade hospitalar foi projetada.

Segundo o hospital, "o reforço da resposta do HFF face ao aumento da população residente nestes dois concelhos tem sido conseguido em diversos domínios. A área dos Cuidados Intensivos é disso um bom exemplo, pois praticamente foi duplicado o número de camas desta importante especialidade médica em pouco mais de dois meses e em plena pandemia".

Em suma, conclui-se que é falso que o hospital Amadora-Sintra tenha sido projetado, inicialmente, para servir 200.000 pessoas. Tal como confirmado pelo HFF, o projeto da unidade hospitalar visava servir as populações dos concelhos de Amadora e Sintra que, segundo dados dos Censos de 1981, tinham na altura uma população conjunta de 386.241 habitantes.

Avaliação do Polígrafo: Falso

Siga-nos na sua rede favorita.
International Fact-Checking Network