Se perguntarmos a um qualquer cidadão qual foi a maior mentira do ano, é provável que suceda o mesmo que aconteceu na redação do Polígrafo: uma maioria esmagadora dirá espontaneamente que o episódio mais vivo que guarda será a acusação infundada a António Costa, segundo a qual o Primeiro-Ministro estaria de férias aquando da tragédia dos fogos de Pedrógão Grande.

Entre essa maioria esmagadora, uma parcela significativa dirá igualmente que se recorda que a falsidade ocorreu em 4 de Outubro, a um par de dias do ato eleitoral que reconduziria Costa a novo mandato em São Bento. Isto porque ninguém esquece que foi nesse dia que um popular (que se viria a saber que possui uma ligação ao CDS) quase foi agredido em plena via pública pelo chefe do Executivo, depois de o acusar vivamente de ter abandonado o país quando sua presença seria fundamental.

Ora, a verdade é que o rumor das férias "inoportunas" de Costa já tinha meses e circulava abundantemente pelas redes sociais. O próprio Polígrafo desmentira-o no dia 13 de Agosto, cerca de dois meses antes da ocorrência que, por ter sido captada pelas câmaras televisivas, ganhou amplitude nacional, transformando-se num facto incontornável do ano político. O tema foi também abordado no Polígrafo SIC, o programa de fact-checking televisivo que resulta de uma parceria entre o Polígrafo e a SIC.

A verdade é que o incêndio de Pedrógão Grande ocorreu entre os dias 17 e 24 de junho de 2017 e, durante esse período de tempo, António Costa estava em funções como primeiro-ministro. Só posteriormente é que foi de férias, de facto, na primeira quinzena de julho de 2017.

"O primeiro-ministro tinha férias marcadas para a primeira quinzena de julho e não as desmarcou, apesar da crise dos incêndios de Pedrógão Grande e do roubo de armamento dos paióis de Tancos. Vai ser à distância que tomará conhecimento da reunião do Conselho Superior de Defesa, que se reúne hoje em clima de alta tensão contra o ministro Azeredo Lopes. Também será à distância que ficará a par da reunião urgente que o CDS-PP pediu ao Presidente da República sobre 'a quebra grave da confiança nas instituições do Estado' depois dos incêndios e do assalto a Tancos", noticiou o jornal "i", a 3 de julho de 2017.

Aliás, na altura das férias de Costa, mais do que o incêndio de Pedrógão Grande, o que causou uma maior controvérsia foi a proximidade temporal com o furto de material de guerra na base militar de Tancos, detectado no dia 28 de junho.

Bombeiros
créditos: MIGUEL A. LOPES/LUSA

"António Costa interromperá as férias e regressará a Portugal entre terça e sexta-feira. Depois voltará para o seu destino de férias - aparentemente, uma ilha espanhola - até ao debate sobre o 'Estado da Nação', no dia 12 de julho. As férias do primeiro-ministro - ou o local onde decorrem - não foram divulgadas oficialmente. O primeiro-ministro ainda não se pronunciou sobre o roubo de material de guerra que está a preocupar as autoridades internacionais. Assunção Cristas, a líder do CDS, pediu ontem a António Costa para dar explicações, mas vai ter de esperar", salientou o jornal "i".

Pela relevância política que teve, pela viralidade imparável que durante meses conquistou nas redes sociais até se tornar absolutamente incontornável e pela gravidade da imputação em causa, a redação do Polígrafo elegeu a acusação infundada a António Costa como a Mentira do Ano. 

Consultando as notícias de jornais e reportagens nas estações de televisão durante esse período temporal verificamos, aliás, que o primeiro-ministro esteve presente em Pedrógão Grande logo no dia 18 de junho de 2017, acompanhando as operações da Proteção Civil.

"Eu queria dar conta, em primeiro lugar, da total solidariedade com estas populações que estão a ser vítimas desta calamidade e, muito em particular, das famílias que estão enlutadas com esta tragédia humana que não tem comparação com nenhuma outra ocorrida", declarou Costa, no dia 18 de junho de 2017, precisamente em Pedrógão Grande, onde esteve ao lado de Constança Urbano de Sousa, então ministra da Administração Interna.

Pela relevância política que teve, pela viralidade imparável que durante meses conquistou nas redes sociais até se tornar absolutamente incontornável e pela gravidade da imputação em causa, a redação do Polígrafo elegeu a acusação infundada a António Costa como a Mentira do Ano. 

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