Quem não se lembra do discurso a "zero" que Rui Tavares protagonizou frente a André Ventura no frente-a-frente que juntou o Livre ao Chega, ao acusar o programa do partido de extrema-direita de conter zero vezes as palavras "cidades", "interior", "ambiente", entre outras? Este pequeno "truque" não nasceu ou morreu em Rui Tavares, tendo sido já utilizado por vários atores políticos como forma de "desmascarar" os programas eleitorais dos seus oponentes.

Conhecidos todos os documentos que os nove partidos que conseguiram eleger deputados nas eleições legislativas de 2019 apresentaram em 2022, alguns deles até interativos, o Polígrafo quis saber se os políticos estão ou não a falar a mesma língua que os seus eleitores. Para isso, cruzámos algumas das palavras que marcaram este e outros anos, politicamente falando, bem como as 10 finalistas para a "palavra do ano de 2021", que, segundo a Porto Editora, promotora da iniciativa, têm por base algumas propostas de cidadãos e pesquisas efetuadas no Dicionário da Língua Portuguesa.

São elas: "apagão", "bazuca", "criptomoeda", "mobilidade", "moratória", "orçamento", "podcast", "resiliência", "teletrabalho" e "vacina".

Quanto às nossas, escolhemos termos tão simples como "crise", "prosperidade", "economia", "animal/animais", "alterações climáticas/clima", "progresso", "Covid-19", "racismo", "mulher", "direito", "deveres", "luta", "Portugal", "Estado", "empresas", "jovens", "cultura", "pensões", "RSI", "impostos", "salário", "prostituição", "drogas", "SNS" e "trabalhadores".

Quase 1500 páginas de medidas sem "apagões" ou "podcasts"

Feita a seleção, cruzados todos os termos, talvez haja algumas palavras que possamos desde logo excluir. Claro: "apagão". Porque haveria um programa eleitoral de falar num "apagão"? "Zero vezes. Bola" para todos os nove partidos. Longe das milhares de palavras utilizadas pelos partidos para convencer os eleitores ficou também "podcast". Parece mesmo que os partidos não falam a mesma língua que os portugueses... Ou será que sim?

"Vacina", a palavra do ano de 2021 escolhida por 45,4% dos cerca de 35 mil internautas que participaram na iniciativa da Porto Editora, aparece um total de 37 vezes nos nove programas eleitorais consultados pelo Polígrafo. Sem surpresa, é ao longo das mais de 600 páginas do programa do Iniciativa Liberal que o termo (também sob a forma das variantes "vacinação" e "vacinar") surge mais vezes, 25 no total, sendo que ficou ausente dos documentos apresentados pelo Chega, PAN e CDS-PP.

Já "criptomoeda", por mais inadequado que possa parecer, é tema de conversa nos programas do Bloco de Esquerda (7 vezes), do Livre (2 vezes) e ainda do Iniciativa Liberal (2 vezes). As diferenças estão apenas no propósito da utilização do termo: o Bloco de Esquerda e o Livre querem taxar, ao passo que o Iniciativa Liberal quer "assegurar que as bolsas de criptomoedas são reguladas (...) para segurança dos clientes".

"Bazuca" é calão? Talvez nem tanto...

Curiosamente ou não, "bazuca" não aparece uma única vez no programa eleitoral dos socialistas, dos sociais-democratas, dos centristas, dos comunistas e nem mesmo dos liberais. Afinal, o único partido que menciona os fundos europeus com esta palavra aparentemente apreciada pelos portugueses é o Bloco de Esquerda, que afirma que a "meses de propaganda sobre a chamada bazuca europeia culminaram na apresentação de um Plano de Recuperação e Resiliência mais restrito que o inicialmente anunciado, e sujeito a condicionalismos e contrapartidas".

Ainda assim, não há como fugir e o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) é mesmo uma preocupação de todos os partidos. Todos, exceto o Chega que não utiliza nem a sigla, nem as três palavras juntas e nem sequer uma das três palavras para se referir a este fundo.

Por sua vez, "mobilidade" e "moratória" também parecem ser preocupações dos nove partidos com representação parlamentar. Os socialistas, por exemplo, escreveram 45 vezes "mobilidade" e uma vez "moratória". O PSD fala 36 vezes em "mobilidade" e uma vez em "moratória", enquanto o Bloco de Esquerda repete 20 vezes o termo "mobilidade" e quatro vezes "moratória". A CDU guarda cinco espaços para "mobilidade" e zero para "moratória". O Chega dobra os "zeros" e não menciona nenhuma das palavras. O PAN fala em "mobilidade" 17 vezes e uma em "moratória". O Livre repete 32 vezes "mobilidade", o Iniciativa Liberal um total de 59 vezes e o CDS-PP apenas uma vez. Nenhum destes três últimos partidos se refere a "moratória" no seu programa eleitoral.

Chumbado ou não, o "Orçamento" continua a ser falado. E com ele a "resiliência"

Será que "Orçamento", a palavra que esteve na origem destes novos programas eleitorais, foi honrada vezes suficientes? Vejamos: PS (15 vezes), PSD (cinco vezes), BE (30 vezes), CDU (sete vezes), Chega (uma vez), Livre (seis vezes), IL (68 vezes), PAN (21 vezes) e CDS-PP (três vezes). Sim, o partido liderado por João Cotrim de Figueiredo volta a estar no topo da tabela. Afinal, com mais de 600 páginas de programa é difícil não repetir expressões.

A palavra que se segue exigiu mais do que uma simples pesquisa. Afinal, o que querem os partidos dizer com "resiliência"? Estarão a falar do PRR? Ou daquele termo que os portugueses quase elegeram como palavra de 2021? No caso do Chega, sabemos que é mesmo esta última opção. Não mencionando uma única vez o PRR, o partido de André Ventura fala uma vez em resiliência para informar que "patrocinará uma envolvente institucional que incentive a preferência na aquisição de produtos locais e nacionais ('compre português') para aumentar a resiliência local e nacional, incluindo ao flagelo dos incêndios florestais".

Quanto aos socialistas, descontando as vezes em que se referem aos fundos europeus, sobram 10 "resiliências" para agarrar o eleitorado. Vence "maior" para palavra que mais vezes antecede o termo em causa. Os sociais-democratas aumentam a fasquia para as 15 repetições. O BE zera a tabela com a CDU e o CDS-PP. O Livre menciona duas vezes o termo. Os liberais 11 vezes e o PAN cinco vezes.

Não desmonte a secretária... O "teletrabalho" veio para ficar

De olhos postos no modelo de trabalho que o Governo privilegiou nos últimos tempos por forma a controlar a pandemia de Covid-19, será que podemos afirmar que o "teletrabalho" é para continuar? Quais os direitos dos trabalhadores? E os deveres das entidades empregadoras? A resposta só pode ser encontrada nos programas do PS (12 vezes), PSD (quatro vezes), BE (uma vez), Livre (cinco vezes), IL (sete vezes) e PAN (uma vez).

Sem surpresas, os bloquistas querem o "cumprimento da legislação de quotas de emprego e alargamento do novo regime para o teletrabalho às pessoas com deficiência", o Livre quer "apoiar o teletrabalho e o trabalho remoto através de revisão legislativa para alargar o direito a trabalhadores com filhos ou dependentes até aos 12 anos", a IL propõe o "alargamento do teletrabalho aos pais com filhos até aos oito anos, sem necessidade de acordo com o empregador" e o PAN prevê "fomentar o recurso ao teletrabalho numa perspectiva de sustentabilidade ambiental, coesão territorial e apoio à conciliação da vida familiar".

O PSD quer, por sua vez, "promover, em sede de concertação social, um compromisso com as associações patronais com vista ao estabelecimento de um enquadramento legal que preveja o regresso ao posto de trabalho, após o gozo da licença parental, de ambos os progenitores a tempo parcial, a tempo parcial completado com teletrabalho ou exclusivamente em teletrabalho, até ao final do primeiro ano de vida da criança". E o PS tenciona "estimular o trabalho à distância", potenciando o "recurso ao teletrabalho como meio de flexibilidade da prestação de trabalho e como possibilidade de maximizar o uso das tecnologias no âmbito de outras formas contratuais". Ao que parece, o modelo veio mesmo para ficar.

Então e a "crise", as "empresas" e os "trabalhadores"?

Em parte próximos daquilo que o eleitorado procura saber, as palavras "premiadas" podem não ser aquelas que mais interessam aos portugueses. Por isso, o Polígrafo alargou esta análise a mais um conjunto de 25 termos, com a condição de serem atuais e importantes para a população. De uma forma de análise mais sucinta, vejamos quem fala mais sobre o quê:

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Crise

PS - 12; PSD - 27; BE - 91; CDU - 0; Chega - 0; Livre - 8; IL - 25; PAN - 27; CDS - 0

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Prosperidade

PS - 1; PSD - 2; BE - 2; CDU - 0; Chega - 0; Livre - 1; IL - 6; PAN - 0; CDS - 1

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Economia

PS - 109; PSD - 111; BE - 48; CDU - 4; Chega - 4; Livre - 34; IL - 98; PAN - 50; CDS - 5

___________________________________

Animal / Animais

PS - 4; PSD - 11; BE - 44; CDU - 0; Chega - 0; Livre - 40; IL - 48; PAN - 311; CDS - 0

___________________________________

Alterações Climáticas / Clima

PS - 39; PSD - 60; BE - 75; CDU - 3; Chega - 0; Livre - 40; IL - 23; PAN - 84; CDS - 0

___________________________________

Progresso

PS - 5; PSD - 7; BE - 1; CDU - 3; Chega - 0; Livre - 2; IL - 4; PAN - 6; CDS - 1

___________________________________

Covid-19

PS - 5; PSD - 4; BE - 7; CDU - 2; Chega - 0; Livre - 2; IL - 20; PAN - 15; CDS - 0

___________________________________

Racismo

PS - 6; PSD - 0; BE - 26; CDU - 0; Chega - 2; Livre - 2; IL - 0; PAN - 1; CDS - 0

[Importa aqui esclarecer que, no programa eleitoral do partido Chega, o termo "racismo" é utilizado em citações que mostramos de seguida: "'Combater o racismo' e 'combater o discurso e práticas da esquerda sobre o racismo' são uma e mesma coisa"].

___________________________________

Mulher

PS - 13; PSD - 10; BE - 68; CDU - 1; Chega - 1; Livre - 9; IL - 8; PAN - 27; CDS - 3

___________________________________

Direito

PS - 54; PSD - 31; BE - 149; CDU - 36; Chega - 2; Livre - 88; IL - 150; PAN - 156; CDS - 6

___________________________________

Deveres

PS - 0; PSD - 8; BE - 0; CDU - 0; Chega - 0; Livre - 5; IL - 11; PAN - 2; CDS - 0

___________________________________

Luta

PS - 7; PSD - 5; BE - 26; CDU - 7; Chega - 0; Livre - 19; IL - 7; PAN - 8; CDS - 0

___________________________________

Portugal

PS - 122; PSD - 352; BE - 127; CDU - 13; Chega - 8; Livre - 74; IL - 363; PAN - 108; CDS - 10

___________________________________

Estado

PS - 119; PSD - 170; BE - 180; CDU - 14; Chega - 20; Livre - 96; IL - 827; PAN - 86; CDS - 28

___________________________________

Empresas

PS - 135; PSD - 152; BE - 67; CDU - 10; Chega - 3; Livre - 42; IL - 259; PAN - 29; CDS - 14

___________________________________

Jovens

PS - 49; PSD - 50; BE - 26; CDU - 6; Chega - 8; Livre - 11; IL - 33; PAN - 66; CDS - 2

___________________________________

Cultura

PS - 128; PSD - 137; BE - 109; CDU - 14; Chega - 11; Livre - 95; IL - 209; PAN - 108; CDS - 9

___________________________________

Pensões

PS - 1; PSD - 12; BE - 34; CDU - 9; Chega - 4; Livre - 0; IL - 55; PAN - 2; CDS - 0

___________________________________

Rendimento Social de Inserção (RSI)

PS - 0; PSD - 0; BE - 2; CDU - 0; Chega - 0; Livre - 2; IL - 0; PAN - 2; CDS - 0

___________________________________

Impostos

PS - 7; PSD - 15; BE - 45; CDU - 9; Chega - 5; Livre - 12; IL - 181; PAN - 19; CDS - 4

___________________________________

Salário

PS - 19; PSD - 23; BE - 88; CDU - 32; Chega - 2; Livre - 8; IL - 73; PAN - 8; CDS - 0

___________________________________

Prostituição

PS - 0; PSD - 0; BE - 0; CDU - 0; Chega - 0; Livre - 6; IL - 0; PAN - 8; CDS - 0

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Drogas

PS - 0; PSD - 1; BE - 7; CDU - 0; Chega - 0; Livre - 0; IL - 1; PAN - 2; CDS - 0

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Serviço Nacional de Saúde (SNS)

PS - 45; PSD - 18; BE - 68; CDU - 11; Chega - 2; Livre - 9; IL - 110; PAN - 43; CDS - 2

___________________________________

Trabalhadores

PS - 57; PSD - 22; BE - 103; CDU - 20; Chega - 2; Livre - 36; IL - 117; PAN - 32; CDS - 0

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Contas feitas, parece mesmo que "Estado" vai levar para casa o troféu de palavra mais gasta pelos partidos políticos. Foram mais de 1.500 as vezes em que o termo foi mencionado pelos nove "grandes", mas o maior agradecimento deve ir para o Iniciativa Liberal, que de tanto querer afastar o Estado das políticas nacionais, acabou por mencioná-lo quase 900 vezes. Senão vejamos:

"Políticas socialistas geradoras de dependência face ao Estado criaram este ciclo de subdesenvolvimento que condena Portugal à estagnação"; "Fica claro como queremos emagrecer o Estado e eliminar as circunstâncias em que o compadrio e a corrupção florescem". Estas são as duas primeiras vezes no programa em que a palavra "Estado" é mencionada.

A curta distância está "Portugal", que foi referido quase 1.200 vezes por todos os nove partidos. Os liberais continuam aqui a levar vantagem, mas com o PSD muito próximo do número de repetições… E com menos 449 páginas de programa.

No top 3 de palavras que assustam os partidos estão o "RSI", a "prostituição" e as "drogas", todos eles mencionados menos do que 15 vezes em todos os programas eleitorais. Comparativamente aos debates protagonizados pelos líderes destes partidos na televisão, parece mesmo haver um desfasamento no público que querem alcançar.

O prémio final para o partido que menos fala sobre tudo vai para o Chega, que referiu apenas 74 vezes as 25 palavras selecionadas pelo Polígrafo, seguido de perto pelo CDS-PP, que mencionou apenas mais 11 vezes os termos em análise.

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