As alegações de Henrique Cerqueira imputam a participação “consciente e ativa” de figuras da oposição salazarista no assassinato de Humberto Delgado. “Do plano concertado para o aproveitamento do prestígio de Humberto Delgado participaram, consciente e ativamente, os militantes e o delegado do Partido Comunista Português, em Argel, e obviamente Álvaro Cunhal, sem cujas prévias instruções isso não teria sido possível”, escreveu.

O Polígrafo recorreu a entrevistas, relatos e recortes que procuram explicar as circunstâncias da morte do “general sem medo”, de forma a verificar a veracidade (ou não) das declarações de Cerqueira.

O que leva Humberto Delgado a Badajoz?

Em 1962 foi dado o mote para a delineação da “Operação Outono” - nome de código da armadilha montada contra Humberto Delgado -, aquando do golpe de Beja. Este golpe terá sido intentado pelo general, que acabou por escapar. Embora o encontro em Badajoz se tenha realizado em 1965, foi um ano antes, em Roma, durante um procedimento médico, que a operação teve efetivamente início.

Em 1998, o jornal “Expresso” publicou uma entrevista do jornalista José Pedro Castanheira a Rosa Casaco, chefe da brigada da PIDE que assassinou Humberto Delgado. O Polígrafo recupera a confissão. 

Conta Casaco que, ainda em Roma, Delgado foi acompanhado por Ernesto Bisogno e Mário de Carvalho, apresentado na altura como um “professor” oposicionista, sendo na verdade um informador da PIDE, nome de código “Oliveira”. A presença de Carvalho no círculo do general, enquanto informador, levou a PIDE a “passar à fase seguinte, ou seja, ao contacto com o próprio general”, confirma.

A 27 de Dezembro de 1964, no Hotel Caumartin, em Paris, o general encontra-se com Mário de Carvalho e um representante civil da organização revolucionária existente em Portugal, Ernesto Castro Sousa, que lhe diz poder contar com 4.600 homens. “Mário de Carvalho apresentou Ernesto Lopes ao general como Ernesto de Castro e Sousa, nas supostas qualidades de advogado, oposicionista e recém-chegado de Portugal. E aí foi combinado o encontro de Badajoz, entre Humberto Delgado, Mário de Carvalho, Ernesto de Castro e Sousa e alguns 'militares' portugueses das fileiras da Oposição Democrática”, revela Casaco.

Henrique Cerqueira apresenta contudo outra versão, afirmando que “é certo que o inspetor Ernesto Lopes Ramos teve a seu cargo a planificação da captura do General Humberto Delgado, (…) mas já não é verdadeira a versão que ele apresenta, como não acreditamos ter sido ele quem funcionou como Ernesto de Castro e Sousa”. 

O Polígrafo falou com Frederico Delgado Rosa, biógrafo e neto de Humberto Delgado, de forma a esclarecer tais alegações. Delgado Rosa entende o livro de Cerqueira como sendo “uma efabulação da história por motivações políticas dúbias por parte de uma personagem igualmente dúbia”.

“Através de volumosa correspondência com Cerqueira, Mário de Carvalho alimentou toda a espécie de teorias para sair ele próprio ileso do processo”, sublinha Delgado Rosa.

De facto, nenhum nome da oposição à ditadura salazarista mencionado por Cerqueira parece coincidir com os personagens envolvidos na armadilha de Badajoz. Também no caso de Ernesto Lopes Ramos podemos concluir que este foi delegado como sendo Ernesto de Castro e Sousa, atravessando a fronteira servido de documentos passados nesse nome.

Em que circunstâncias morreram Humberto Delgado e Arajaryr Campos?

“Quando, pelas 15 horas do dia 13, Humberto Delgado e a secretária almoçavam no Hotel Simancas, alguém os preveniu da presença da polícia no Hotel. Saíram, então, apressadamente. Pouco depois, conduzidos por elementos da polícia espanhola, ambos abandonaram o edifício pela porta das traseiras. Não foram, portanto, capturados pela PIDE, como pretendem as conclusões oficiais, e muito menos nesse descampado. De resto, é absolutamente inconcebível que a PIDE, para uma tal operação, escolhesse semelhante local”, relata Cerqueira. 

Cerqueira estaria correto apenas no que diz respeito à data do crime, consumado a 13 de fevereiro de 1965, em Los Almerines, território espanhol perto da fronteira portuguesa. Mas a confissão de Rosa Casaco deixa clara a intenção do plano e a captura por parte da PIDE: “Raptar o general e levá-lo clandestinamente para Portugal, para lhe ser dada voz de prisão e responder em tribunal por 'atos de terrorismo'”. A ideia de Casaco, como haveria de declarar em Madrid logo após o 25 de Abril, era “cloroformizar o general”, de maneira a adormecê-lo, transportando-o de seguida “na mala do automóvel pela fronteira de S. Leonardo”, mas também esta declaração é colocada em causa.

Embora só se tenha debruçado na pesquisa de aquivo sobre Humberto Delgado três anos depois, Delgado Rosa acompanhou de perto o caso de Rosa Casaco, inclusive a sua confissão ao jornal “Expresso”.

“Eu só mais tarde realizei a minha pesquisa de arquivo sobre Humberto Delgado, que me levou sete anos, entre 2001 e 2008. Mas em 1998 acompanhei de perto o 'caso Rosa Casaco' que foi bastante polémico na altura. Mais tarde, fruto da minha longa pesquisa, incluindo a leitura de toda a documentação judicial, cheguei à conclusão de que Rosa Casaco não fez outra coisa senão mentir descaradamente, quer em 1998, quer durante o julgamento, como réu revel fugido em Espanha, que prestou declarações escritas a partir de Madrid alegadamente para ajudar a justiça portuguesa”, afirma Delgado Rosa.

“Assume que a cilada fatal foi montada pela PIDE, confirma que o assassino foi Casimiro Monteiro, mas garante - contrariando o acórdão do Tribunal - que Arajaryr Campos, a secretária do general, foi morta por Agostinho Tienza”, salienta.

Acórdão do Tribunal de Santa Clara

Casaco nega que a morte do general fosse o objetivo do plano, pelo menos tal qual lhe foi transmitido. Já depois da Revolução dos Cravos, quando o caso subiu a tribunal, a acusação haveria de considerar que “o objetivo central” da direção da polícia era o de “reduzir” o general “à não atuação, quaisquer que fossem os meios necessários para tanto” - o que incluiria, obviamente, a possibilidade da liquidação física. Esta tese, contudo, não foi acolhida pelos juízes do Tribunal Militar. Na sua apreciação, a morte não figurava no plano traçado, que visava “tentar raptar e prender” o general, “trazendo-o para Portugal”.

Recorde-se que o julgamento da PIDE, em 1981, ilibou as chefias do Estado Novo, considerando, então, que o homicídio perpetrado por Casimiro Monteiro foi uma derrapagem aos planos estabelecidos. O jornalista Manuel Geraldo cobriu todo o julgamento do tribunal de Santa Clara e, no rescaldo do mesmo, publicou um livro  intitulado como “Memória de um processo. A segunda morte do General Delgado”. A expressão viria a ser recuperada por Delgado Rosa que, em declarações ao Polígrafo, recorda as falhas desta condenação.

“O julgamento foi uma farsa, ao considerar-se que o autor material do crime, Casimiro Monteiro, era o único autor moral do mesmo. Ou seja, tinha desobedecido às ordens superiores e assassinado o general em vez de o raptar. O chefe da brigada da PIDE, Rosa Casaco, foi ilibado, bem como os restantes elementos da brigada e a hierarquia superior da PIDE: Fernando Silva Pais, Agostinho Barbieri Cardoso e Álvaro Pereira de Carvalho. Isto para não falar de Salazar, obviamente, que já tinha morrido. Mas o seu ministro do Interior, Santos Júnior, não foi sequer incluído no libelo. Segundo o testemunho do próprio Silva Pais, Salazar e o ministro estavam inteiramente ao corrente da 'Operação Outono'”.

Mas Delgado Rosa aponta uma razão adicional pela qual o julgamento foi “a segunda morte de Humberto Delgado”, afirmando que “os juízes distorceram a verdade material do crime, ocultando que o general foi assassinado por sucessivas e violentas contusões cranianas”.

Este foi o principal assassínio político da ditadura e marcou indelevelmente a memória coletiva, pelo que a obra de Henrique Cerqueira acabou por forçar a generalidade da imprensa a tomar posição sobre a veracidade dos documentos que coligiu no seu livro, assumindo por vezes um alinhamento político. Exemplos disso são os jornais O DiaDiário de LisboaO JornalO PaísO Século.

Ao Polígrafo, Delgado Rosa alerta para o perigo que acarreta trazer de volta estas publicações:Ainda existem, na sociedade portuguesa, setores reacionários que, por se identificarem com Salazar e com a própria PIDE, periodicamente lançam mão do famigerado livro 'Acuso!' para lançar uma cortina de fumo no 'caso Delgado', como se este ainda estivesse envolto em mistério, como se ainda houvesse espaço para sombrias acusações a figuras da oposição ao regime de Salazar que depois se tornaram protagonistas do regime democrático. Os blogs que reproduzem e alimentam esse tipo de embuste são lamentáveis, pois a responsabilidade da PIDE no assassinato do general é um facto histórico comprovado”.

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