“Fernando Negrão na AR: ‘Há um elefante nesta sala, e não podemos fugir de falar desse elefante, que tem que ver com as nomeações e relações familiares’. Concordo... falemos então da nomeação do filho deste em 2012 para o gabinete da Ministra da Justiça enquanto este era... Deputado...”

Este é o teor de uma publicação no Facebook publicado no passado sábado, 6 de abril, e entretanto tornado viral nas redes sociais.

Da autoria de Sandro Figueiredo Dias, o post vem acompanhado de um despacho de nomeação de Ricardo José Galo Negrão dos Santos e está assinado por Paula Teixeira da Cruz. Data: 19 de fevereiro de 2012, período em que a social-democrata era ministra da Justiça no Governo liderado por Pedro Passos Coelho e em que Fernando Negrão era deputado do PSD na Assembleia da República.

sandro figueiredo

Os comentários acintosos em relação a Fernando Negrão sucederam-se. E o tom repetia-se à exaustão: como era possível que o Negrão falasse sobre o “Familygate” nos termos em que falou, quando ele mesmo teria protagonizado um caso semelhante poucos anos antes?

O Polígrafo investigou o caso e concluiu que estamos perante uma iniciativa de pura desinformação. Ricardo Negrão não é familiar de Fernando Negrão, que tem efetivamente dois filhos, mas ambos vivem e trabalham no estrangeiro.

Contatada pelo Polígrafo, Paula Teixeira da Cruz, a alegada promotora da nomeação familiar, clarifica o que se passou: “Conheci Ricardo Negrão dos Santos na Ordem dos Advogados, quando trabalhava com o Dr. José Miguel Júdice no período em que ele era bastonário. Era um técnico muito competente. Quando assumi a pasta da Justiça, identifiquei a necessidade de recorrer a um profissional credenciado e o nome dele foi uma escolha óbvia. Mas não há qualquer relação de parentesco entre os dois.” Também Fernando Negrão, apesar de não ter falado diretamente com o Polígrafo, confirmou a falta de fundamento da insinuação.

fernando negrão
Fonte: perfil de Sandro Figueiredo Pires no Facebook

Sandro Figueiredo Dias, que entretanto eliminou a publicação da sua cronologia, é, a avaliar pelas suas publicações, um simpatizante do Partido Socialista (PS) e um apoiante incondicional de António Costa. No seu perfil, podem ser encontradas várias fotografias suas em ações partidárias, nomeadamente numa Comissão Política Federativa da Federação da Área Urbana de Lisboa.

Mas não foi o único a difundir tal falsidade nos últimos dias. Joana Lima, ex-presidente da Câmara Municipal da Trofa e atual deputada do PS na Assembleia da República, também partilhou uma fake news similar sobre Negrão, com o seguinte título: "Filho de Negrão nomeado para a função pública - mais um 'tacho' para um 'boy'". Nessa mesma publicação, a deputada socialista comentou, em tom indignado: "Como é que esse Senhor teve o desplante de passar metade do seu tempo no debate na Assembleia da República, com o Primeiro-Ministro, a criticar as relações familiares!!! Ontem mesmo no Expresso da Meia Noite a lengalenga , continuou . Eis o que noticiaram hoje!! enfim!"

Na verdade, é uma publicação de um blog, datada de 2012. Baseia-se na imagem do despacho de nomeação de Ricardo José Galo Negrão dos Santos, garantindo que é filho de Fernando Negrão. Ou seja, a mesma falsidade.

Em resumo: estamos perante informação falsa, que recorre a um truque clássico da desinformação: partir de uma base verdadeira (de facto, o despacho de nomeação é real) para, depois disso, manipular o seu teor, distorcendo-o em função de objetivos que podem ser políticos, mas não só. Neste caso, parece evidente que se trata de um post cuja finalidade é desacreditar uma das principais figuras do PSD, envolvendo-o num escândalo que está a desgastar politicamente o Governo de António Costa.

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