Esta manhã a saúde esteve, como frequentemente sucede em debates quinzenais entre Governo e oposição, em grande destaque, muito por "culpa" da líder do CDS, Assunção Cristas, que trouxe o tema para a discussão, fazendo fortíssimas críticas a António Costa. Segundo Cristas, o primeiro-ministro "desvaloriza olimpicamente o que se passa à sua volta". E argumentou com o facto de em 2018 se ter verificado "uma vaga inédita de demissões no Serviço Nacional de Saúde", dando alguns exemplos para fundamentar a sua opinião.

O Polígrafo verificou a intervenção de Cristas no que respeita às demissões nos hospitais públicos - motivadas, segundo Cristas, pela resistência do Executivo em cumprir as promessas que fez a profissionais de saúde e administrações hospitalares - e concluiu que a líder centrista foi fiel aos factos. Vejamos, hospital a hospital:

  • HOSPITAL TONDELA-VISEU

No dia 22 de Maio, 33 diretores e coordenadores de serviço daquela unidade de saúde demitiram-se de funções. Na carta em que justificam a decisão, denunciaram “a degradação progressiva de vários serviços”, que consideravam que “terá uma repercussão irreparável no tratamento e orientação de muitos doentes” que diariamente recorrem ao centro hospitalar, na “contínua ausência de uma política, regras ou orientação, que não seja o desesperado desinvestimento cego e desordenado, a todos os níveis, tecnológico e humano".

  • CENTRO HOSPITALAR DE LISBOA CENTRAL

Em 6 de Julho, os chefes de equipa de medicina interna e cirurgia geral daquele Centro Hospitalar apresentaram a demissão por considerarem que as condições da urgência não tinham níveis de segurança aceitáveis.

Na carta de demissão entregue à administração, sublinharam a “consecutiva degradação da assistência médica prestada no serviço de urgência do Hospital São José”, considerando ainda que se chegou a uma “situação de emergência” que impunha “um plano de catástrofe”. Mais: que “a política de recursos humanos, ou a sua ausência, não procedendo à contratação de médicos mais jovens que rejuvenesçam as equipas, cada vez mais envelhecidas, e compensem as saídas que, pelos mais diversos motivos, se têm verificado, tem levado a uma delapidação progressiva dos médicos que as integram”

  • MATERNIDADE ALFREDO DA COSTA

No dia 11 de Julho foi a vez dos chefes de equipa de ginecologia e obstetrícia da Maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa, apresentarem a sua demissão à administração. Os profissionais queixavam-se da falta de recursos humanos e de “exaustão”.

  • HOSPITAL AMADORA-SINTRA

Passado cerca de um mês sobre a crise na Maternidade Alfredo da Costa, também os chefes de equipa do serviço de urgência de obstetrícia e ginecologia do hospital Amadora-Sintra concretizaram os pedidos de demissão que tinham apresentado. "Uma vez que o Conselho de Administração e o Governo não responderam a qualquer das questões que os médicos colocaram - nomeadamente a contratação de especialistas para o serviço e a reorganização do serviço de urgência - e por considerarmos que a contratação de empresas de prestação de serviços pode mitigar o problema pontualmente, mas não tem nenhuma [consequência] estrutural, não há nenhuma razão para que os médicos não mantenham a demissão", disse então à Agência Lusa o presidente do Sindicato Independente dos Médicos (SIM), Jorge Roque da Cunha.

  • HOSPITAL DE GAIA

Condições indignas, enfermarias com buracos no chão e humidade nas paredes, falta de meios, de recursos humanos, atrasos nos tratamentos (nomeadamente os oncológicos), doentes de risco em lista de espera há mais de 6 meses; enfermarias com mais de 30 camas e uma única casa de banho. Estes foram alguns dos motivos apresentados para o pedido de demissão, no dia 5 de setembro, do diretor clínico e dos diretores e chefes de serviço do Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia/Espinho.

António Costa

Entre os demissionários, que representavam 95% dos corpos dirigentes do hospital, estavam o diretor clínico e vários outros médicos com funções de chefia, como diretores de serviço e de departamento, bem como o responsável pela urgência. Ao todo foram 52 demissões.

  • CENTRO HOSPITALAR DO BAIXO VOUGA

Mais um mês e nova crise, dessa vez com a demissão da diretora do Serviço de Urgência do Centro Hospitalar do Baixo Vouga apresentou, em 7 de setembro, a demissão, ao fim de seis anos no cargo. Num e-mail enviado aos profissionais da unidade de saúde, Elsa Rocha, escreveu que a sua decisão “tem de fazer o conselho de administração refletir que tem de olhar para a urgência como um serviço prioritário”, esperando “ideias e soluções” que já não tem para apresentar no exercício de funções. Na sequência do seu afastamento, outros 40 médicos também comunicaram o seu afastamento de funções.

  • HOSPITAL DA GUARDA

Dezanove dias depois da “rebelião” no Baixo Vouga, três diretores de serviço do Hospital da Guarda apresentaram a demissão. A alegada inércia da administração e os atrasos no concurso de cirurgia estiveram na origem do descontentamento.

  • HOSPITAL DONA ESTEFANIA

No dia 12 de dezembro, os chefes de equipa de urgência do Hospital D. Estefânia, em Lisboa, apresentaram a sua demissão à administração, considerando que houve "quebra do compromisso" feito pela instituição de contratar mais médicos. A situação era, afirmaram então, “insustentável”.

  • HOSPITAL DE SÃO JOAO

A administração do maior hospital do Porto, entregou esta semana um pedido de renúncia à tutela. Motivo invocado: "O mandato do Conselho de Administração (CA) do Centro Hospitalar Universitário de São João terminou a 31 de dezembro de 2018. Em consequência o CA apresentou a renúncia de modo a facilitar a sua substituição da forma mais rápida possível". Apesar de os demissionários terem feito questão de sublinhar que o seu afastamento não foi motivado por outros motivos que não estes, há muito que a falta de recursos humanos e técnicos e a degradação das condições de trabalho era motivo de tensão entre os profissionais do hospital e a administração – e entre esta e a tutela.

Avaliação global do Polígrafo:

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