Depois de ter sido banido do Facebook, a atividade online do movimento Nova Ordem Social (NOS) ficou confinado a grupos estabelecidos na plataforma WhatsApp, um blogue e um fórum no qual se ocultam determinados conteúdos. Para aceder a todos os conteúdos do fórum é necessário fazer um registo com o endereço de e-mail pessoal e sujeitar-se à aprovação dos respetivos administradores. O Polígrafo teve acesso a esses conteúdos, entre os quais se destaca uma publicação em que se incita à retaliação contra os participantes no ataque organizado que derrubou as páginas do NOS no Facebook, além da conta pessoal do líder Mário Machado no Twitter.

No fórum em causa, Machado utiliza um nome de código - "Amigo" - e publicou o seguinte texto: "Como todos sabem, temos vindo a ser atacados cobardemente pelos censores do Facebook, em Portugal. Sob a capa do anonimato, estes sub-contratados pela Accenture, decidem por critérios meramente axiológicos e nada jurídicos, eliminar, bloquear ou perseguir indivíduos cujas ideias não se enquadram na sua visão do mundo. Esta semana, apagaram ou bloquearam as contas de 162 ativistas da Nova Ordem Social, as páginas principais da Organização, e no meu caso, eliminaram todas as fotos de perfil por não 'estarem em conformidade com a política da empresa'. Uma foto em que estou com quatro cachorros… Outra vestido de fato e gravata no escritório, outra da entrevista da TVI, etc. Fotografias muito perigosas, portanto".

O líder nacionalista prossegue: "Estes miúdos gozam de uma liberdade plena para fazerem o que querem, como querem e a quem quiserem! Para termos uma alternativa onde podemos exercer os nossos direitos civis consagrados na Constituição e que estão a ser violados por estes 'agentes' do Facebook, resolvemos agora criar este Fórum. A foto que se segue é de Ricardo Manaia, um dos funcionários contratados pela Accenture para monitorizar o Facebook e um dos que mais tem perseguido os nacionalistas portugueses, através de sucessivos 'castigos e suspensões' de perfil. Na sua página de Facebook revela o seu ódio irracional a Bolsonaro, e as suas tendências politicas em várias publicações, sempre contrárias ao ideal patriota. Brevemente colocaremos disponível uma lista de todos os funcionários deste departamento e as suas respetivas moradas, a fim de fazermos chegar o nosso desagrado, sempre de forma lícita é certo… Por correio".

Ou seja, Machado expôs a identidade de um dos alegados participantes na ação concertada de denúncias em massa das páginas do NOS e prometeu divulgar em breve "uma lista de todos os funcionários deste departamento e as suas respetivas moradas, a fim de fazermos chegar o nosso desagrado, sempre de forma lícita é certo… Por correio". Nos comentários, porém, as manifestações de "desagrado" assumiram a forma de incitamento ao ódio e à violência, testemunhou o Polígrafo.

Mario Machado
Cartaz da manifestação pró-Salazar que terá lugar a 1 de Fevereiro em Lisboa

Cerca de uma semana após a polémica aparição de Machado no programa "Você na TV" da TVI, dezenas de páginas do movimento de extrema-direita NOS foram apagadas na rede social Facebook, através de uma ação organizada de denúncias (por racismo, xenofobia e outras formas de discurso de ódio) em que participaram movimentos antifascistas, nomeadamente a Frente Unitária Antifascista (FUA) que entretanto já foi alvo de represálias (isto é, denúncias contra as suas páginas) por parte do NOS. O ataque contra o NOS foi mais amplo e envolveu vários movimentos antifascistas internacionais, funcionando em rede, como revelou o Polígrafo no dia 14 de janeiro.

Não é a primeira vez que Machado utiliza um fórum online para expor "inimigos" e incitar a represálias contra os mesmos. Em 2007, na sequência de uma investigação conduzida pela procuradora Cândida Vilar, 36 indivíduos conotados com o movimento skinhead foram pronunciados pelo crime de discriminação racial e outras infrações conexas, incluindo agressões, sequestro e posse ilegal de armas. Na fase de investigação foram apreendidas diversas armas de fogo, munições, armas brancas, soqueiras, mocas, bastões, tacos de basebol e diversa propaganda de carácter racista, xenófobo e antissemita. Mário Machado estava entre eles.

Já em prisão preventiva, o então líder dos Hammerskins escreveu – e tornou pública num fórum online frequentado por militantes de extrema-direita - a carta que se segue: "As ideias são como os tratados: pouco vale firmá-los com a nossa tinta quando não somos capazes de confirmá-las com uma gota do nosso sangue". À citação de Ramalho Ortigão, acrescentou: "Eu estou a dar o meu sangue, espero que todos vós possam fazer o mesmo".

Na "carta aberta a todos os camaradas", Machado apelou ainda aos nacionalistas para não esquecerem o nome do rosto da "nova inquisição": a procuradora Cândida Vilar. O líder dos skinheads tinha acabado de receber a acusação assinada pela procuradora, estava convencido de que ia ser libertado mas continuou preso e não conteve a revolta. O Ministério Publico acusou-o de ameaça, coação e difamação e o tribunal viria a condená-lo a oito meses de prisão efetiva pelo crime de difamação agravada.

Notificações

Na sua rede favorita

Siga-nos na sua rede favorita.