Quinta-feira, 23 de Outubro de 2013. Chegara o grande dia. Confiança no Mundo era apresentado em grande estilo no Museu da Electricidade. Na mesa principal, lado a lado com José Sócrates, estavam duas das maiores figuras do socialismo internacional: Mário Soares e Lula da Silva. O ex-presidente do Brasil, que assinara o prefácio, viera de propósito a Portugal para participar na cerimónia. Com sala cheia e figuras tão notáveis, Sócrates dificilmente poderia estar mais feliz.

Depois das intervenções de Soares e Lula, Sócrates pegou nos seus apontamentos. Fez uma intervenção forte, sólida, estruturada. Preparara-a intensamente, como sempre sucedia. Notava-se que estava à vontade com o tema. Lera muito sobre o assunto durante a sua estadia em Paris. Quando chegou a hora dos agradecimentos, não se esqueceu de ninguém importante - isto se não considerarmos relevante a figura que hoje, depois da prova produzida no âmbito da Operação Marquês, o Ministério Público considera ser o real autor do livro que daí a apenas três dias ocuparia o primeiro lugar do top de vendas:

Domingos Farinho, um professor de Direito que se encontrava perdido algures entre as muitas centenas de pessoas presentes, algumas delas fora da sala, a assistir através de um ecrã gigante, por manifesta falta de espaço na sala principal.

O cinema é uma das paixões do alegado ghost writer do ex-PM. O seu realizador de eleição é o polaco Krzysztof Kieslowski, autor de Vermelho, o seu filme favorito, que dá o nome ao seu blogue pessoal. Depois de Vermelho, o seu ranking prossegue com “Blade Runner”, de Ridley Scott, “The Thin Red Line”, de Terence Malick, e da “Guerra das Estrelas” de George Lucas.

Através da audição de conversas entre José Sócrates e Domingos Farinho, bem como da análise de fluxos financeiros entre as esferas dos dois homens, Rosário Teixeira concluiu que o segundo era muito mais do que um amigo com quem o ex-PM falava sobre livros por puro deleite intelectual. Para o líder da Operação Marquês, Domingos é o ghostwriter em quem Sócrates depositou grandemente a responsabilidade de o fazer existir em dois cenários para si fundamentais nesta fase da vida: na universidade, através da redacção da sua tese de mestrado; e nas bancas das livrarias, através da adaptação daquele trabalho académico para um livro que viria a vender cerca de 17 mil exemplares. Ao todo, estima o MP, Sócrates terá investido perto de 170 mil euros na aquisição de cerca de 10 mil exemplares.

Socrates
A Confiança no Mundo, primeiro livro de Sócrates, foi um enorme sucesso de vendas

O dia em que um “cachucho” lhe salvou a vida

Para Domingos, na altura com 36 anos, colaborar com Sócrates era um privilégio muito particular – mais uma das coisas boas que a vida lhe dera desde que, numa viagem tumultuosa ao Brasil, quase a perdera, na sequência de um episódio digno de um filme policial e amplamente noticiado na imprensa da época.

Estávamos no ano 2000. Domingos terminara recentemente a licenciatura em Direito com média de 16, uma nota invulgarmente elevada para os padrões da Faculdade de Direito de Lisboa. Os pais decidiram premiá-lo com umas férias no Brasil, onde aproveitariam para visitar uns familiares no Recife.

Foi precisamente numa dessas visitas que as coisas se descontrolaram. Juntamente com a sua mãe, Domingos foi a casa de uma prima que se encontrava em pleno processo de separação de um ex-polícia. Este, ao ver o jovem abandonar sozinho a casa da sua antiga companheira, não controlou um ataque de ciúmes e interpelou-o na rua. Domingos reagiu mal. A conversa transformou-se em discussão – e esta quase resultou em execução, quando o companheiro despeitado decidiu sacar de uma arma, apontá-la ao português e desferir seis tiros em direcção a si – e é neste particular momento que a história de aproxima da transcendentalidade: Domingos terá sido salvo pelo seu anel - um “cachucho” enorme ornamentado com um símbolo da mitologia grega –, que, ao fazer ricochete, desviou uma bala fatal. Inanimado, a sangrar abundantemente, o jovem foi resgatado do chão e rapidamente transportado do hospital. As lesões eram graves. Não conseguia respirar autonomamente – os pulmões tinham sido atingidos.

Domingos terá sido salvo pelo seu anel - um “cachucho” enorme ornamentado com um símbolo da mitologia grega –, que, ao fazer ricochete, desviou uma bala fatal. Inanimado, a sangrar abundantemente, o jovem foi resgatado do chão e rapidamente transportado do hospital. As lesões eram graves. Não conseguia respirar autonomamente – os pulmões tinham sido atingidos.

domingos Farinho
"Vermelho", de Krzysztof Kieslowski, é o filme favorito de Domingos Farinho

Demoraria vários dias a acordar depois da noite traumática, mas não perdeu muito tempo até começar a fazer piadas sobre o assunto na presença dos amigos mais próximos, como contou ao jornal Observador o humorista Luís Filipe Borges, seu ex-colega de faculdade: “Estávamos a ver o filme Snatch – Porcos e Diamantes, que estreou nesse ano de 2000. A dada altura, o personagem Tony ‘Dente de Bala’ é baleado seis vezes por outro gangster asiático. Tony acaba por salvar-se porque uma das balas que era dirigida à cara acaba por ficar alojada entre os dentes da frente — daí o nome do personagem. Tal como o resto do filme, essa cena é muito cómica, apesar de ser igualmente muito sangrenta. Em vez de se assustar, o que seria normal depois de tudo o que tinha acontecido pouco tempo antes, o Domingos riu imenso com essa cena (…) Depois do que aconteceu no Brasil, o Domingos continuou a ter a mesma alegria de sempre mas passou a dar ainda mais valor à vida.”

Ganhou o gosto pelos corredores do poder. Seguiu-se, já no governo Sócrates, o gabinete do influente secretário de Estado Adjunto do primeiro-ministro, Filipe Baptista, o que lhe valeu o convívio directo com José Sócrates, por cuja figura política se deixou entusiasmar.Tornou-se um indefectível do ideal socrático.

O cinema é uma das paixões do alegado ghost writer do ex-PM. O seu realizador de eleição é o polaco Krzysztof Kieslowski, autor de Vermelho, o seu filme favorito, que dá o nome ao seu blogue pessoal. Depois de Vermelho, o seu ranking prossegue com “Blade Runner”, de Ridley Scott, “The Thin Red Line”, de Terence Malick, e da “Guerra das Estrelas” de George Lucas. Ainda hoje guarda os três primeiros episódios da saga de Hans Solo e Dark Vader em caixas com capas da TV Guia. Além do cinema, gosta de banda desenhada (de que tem uma apreciável colecção), de corrida - atleta de cidade, corre meias-maratonas – e de poesia, quer na qualidade de apreciador, quer na de autor. Uma das últimas vezes em que assinou um poema aconteceu aquando da morte de Herberto Hélder, um dos seus poetas de eleição:

 “(...) E quando Herberto Helder

nos diz olha: eu queria saber em

que parte

se morre, para ter uma

flor e com ela atravessar

vozes leves e ardentes e crimes sem roupa,não é ele que quer atravessar asvozes leves

A poesia, toda ela,

é uma criatura sem criador que lhechame sua

foi inventada por umduende qualquer.”

O caminho em direcção a Sócrates

Desde a tragédia brasileira, a sua carreira tem vindo sempre em crescendo. Fez o estágio de advocacia, mas a prioridade era a carreira académica. Rapidamente iniciou o mestrado em ciências jurídico-políticas, que terminou com uma média de 17 valores. Seguiu-se o doutoramento. Entretanto já dava aulas como assistente. O seu reconhecido mérito valeu-lhe uma chamada para trabalhar no gabinete de Rui Pereira, seu ex-professor e na altura secretário de Estado da Administração Interna de António Guterres.

Também a sua mulher, Jane Kirkby, aprofundou as suas ligações ao partido: esteve no gabinete de Manuel Salgado (entre 2007 e 2008), quando este se tornou número dois de António Costa na autarquia de Lisboa.

Ganhou o gosto pelos corredores do poder. Seguiu-se, já no governo Sócrates, o gabinete do influente secretário de Estado Adjunto do primeiro-ministro, Filipe Baptista, o que lhe valeu o convívio directo com José Sócrates, por cuja figura política se deixou entusiasmar.Tornou-se um indefectível do ideal socrático. Os seus laços – e os da sua família – começaram a estreitar-se com o primeiro-ministro e com o PS. De Filipe Baptista transitou para o gabinete de Almeida Ribeiro, uma das eminências pardas do então líder do Executivo. O ex-espião tinha qualidades que lhe agradavam: cultura, muita capacidade de análise política e grande discrição. Foi, depois disso, nomeado para o Gabinete de Resolução Alternativa de Conflitos pelo Ministério da Justiça (onde promoveu acriação de uma banda desenhadacom uma história inspirada emcada um dos serviços que dirigia, tendo contratado oito artistas e encontrado um mecenas para viabilizar o projecto).

domingos farinho

Também a sua mulher, Jane Kirkby, aprofundou as suas ligações ao partido: esteve no gabinete de Manuel Salgado (entre 2007 e 2008), quando este se tornou número dois de António Costa na autarquia de Lisboa. Foi também assessora do secretário de Estado Manuel Pizarro, na Saúde, (de 2008 a 2009), próximo de Sócrates. Jane é irmã de Mark Kirkby, que foi chefe de gabinete de Ferro Rodrigues quando este foi líder do PS e António Costa era o líder parlamentar. Os Bobela-Mota Kirkby são, aliás, uma família tradicional do PS, com peso na secção de Benfica, em Lisboa. 

Em busca de novo sucesso

Maio de 2014. José Sócrates acabava de chegar de uma longa viagem que incluiu uma semana em Cuba e outra no Brasil quando telefonou a Domingos Farinho. Comeou por lhe garantir que, apesar de tanto frenesim, se encontrava vivo, mas que não era por isso que o contactava. Queria convocá-lo para um encontro pessoal para fazer um ponto de situação relativamente à obra de filosofia política que ambos preparavam naquele momento. Domingos estava disponível, claro. Agendaram um almoço para a sexta-feira seguinte, 16 de Maio. Farinho fez, porém, questão de infomar desde logo o ex-PM de que depois da última conversa que tiveram já tirara notas dos livros que lera. Mais: já escrevera mesmo cerca de cinco páginas.

De acordo com o Ministério Público, o ex-primeiro-ministro terá contratado Domingos Farinho para lhe escrever a tese de mestrado

Sócrates, interessado em dar seguimento ao sucesso comercial que obtivera com A Confiança no Mundo, considerava que não havia tempo a perder. Pouco antes, nesse mesmo dia, estivera ao telefone com o seu editor José Araújo, com quem falara sobre a edição premium de A Confiança no Mundo, um opúsculo de capa dura que Sócrates sugeriu lançar no mercado, na expectativa de que, mesmo sendo um produto mais caro que a obra original, tivesse grande adesão dos leitores.

O caminho do sucesso teria, pois, de ser retomado. E Farinho era nuclear para que tal sucedesse. O socialista queria fazer um retiro de dois a três meses na companhia do jurista. Este concordou, era bom para José Sócrates, mas também para ele (que há muito planeava viver fora do País com a mulher).

“Tenho desde a adolescência uma discussão acesa com um grande amigo sobre o papel da biografia na bibliografia. Eu sou um fundamentalista do ocultismobiográfico. Apenas a obra vale (...)Tudo o resto é privacidade e/oucoscuvilhice”, escreveu Farinho no seu blogue

José Sócrates já se pusera em campo. Cerca de duas semanas antes, telefonara para o Hotel Sheraton Algarve, um empreendimento de luxo onde há muitos anos passava férias. Em conversa com uma funcionária do hotel, dissera-lhe que estava interessado em alugar um apartamento no Pine Cliff Residences durante um ano. A sua interlocutora explicou-lhe que seria impossível ficar tanto tempo nas residências. E sugeriu-lhe uns apartamentos novos, também dentro do Pine Cliffs, mas situados na zona do restaurante japonês existente no empreendimento. Sócrates ficou de telefonar no dia seguinte.

José socrates
"O Dom Profano" fala sobre a importância do carisma na política

Estas e outras conversas foram fulcrais para que o MP formasse a convicção de que, à imagem do que alegadamente acontecera com o seu primeiro livro, Sócrates montou um esquema em redor de O Dom Profano, pagando a Domingos Farinho para o apoiar na pesquisa bibliográfica e para, numa fase final, lhe escrever o ensaio de filosofia. Interrogado pelo MP sobre o assunto, Farinho garantiu que nada teve a ver com qualquer dos livros assinados por José Sócrates. Neste momento, ainda não é possível afirmar de forma concludente se Farinho disse ou não a verdade sobre a importância do seu papel na obra de Sócrates. Sabe-se que é uma pessoa discreta, que cultiva um relativo desprezo pelas luzes da ribalta. Veja-se, por exemplo, o que escreveu em Fevereiro de 2015 no seu blogue sobre a sacrossanta questão da autoria de livros: “Tenho desde a adolescência uma discussão acesa com um grande amigo sobre o papel da biografia na bibliografia. Eu sou um fundamentalista do ocultismobiográfico. Apenas a obra vale (...)Tudo o resto é privacidade e/oucoscuvilhice.” O Ministério Público acredita que os dois livros assinados por José Sócrates - A Confiança no Mundo e O Dom Profano - são a prova material do pensamento de Domingos Farinho.

Nota editorial: este artigo foi escrito com base no livro "A Sangue Frio" (editora Matéria-Prima, 2017), da autoria de Fernando Esteves, diretor do Polígrafo

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