O primeiro-ministro António Costa publicou hoje, no jornal “Público”, uma “carta aberta” dirigida a Manuel Alegre, histórico militante do PS, defendendo a decisão do Governo de não reduzir a taxa de IVA aplicada aos espectáculos tauromáquicos (ao contrário de uma série de outros espectáculos que beneficiarão de uma redução dessa taxa em 2019), a qual tinha sido criticada por Alegre numa primeira “carta aberta” dirigida a Costa e publicada no dia 7 de novembro.

Na resposta a Alegre, Costa garante o seguinte: “Choca-me que o serviço público de televisão transmita touradas. Mas não me ocorre proibir a sua transmissão”. Mais: “Como homem da Liberdade tem também de respeitar os cidadãos que, como eu, rejeitam a tourada como manifestação pública de uma cultura de violência ou de desfrute do sofrimento animal”. E questiona: “Será assim ilegítimo, totalitário, violentador da liberdade a não atribuição de benefício fiscal à tourada? O que seria então se lhe fosse dado um tratamento fiscal agravado, como acontece com o tabaco ou o álcool?”

“Bem sei que o novo politicamente correto é ser politicamente ‘incorreto’… Mas então prefiro manter a tradição e defender o que acho certo, no respeito pela liberdade dos outros de defenderem e praticarem o contrário”, finaliza Costa.

Na resposta a Alegre, Costa garante o seguinte: “Choca-me que o serviço público de televisão transmita touradas. Mas não me ocorre proibir a sua transmissão”.

No dia 8 de abril de 2010, o mesmo Costa, então nas funções de presidente da Câmara Municipal de Lisboa (CML), assistiu à corrida de touros que inaugurou a temporada desse ano no Campo Pequeno, em Lisboa, acompanhado pelo secretário de Estado da Cultura, Elísio Summavielle. A corrida foi transmitida precisamente pela RTP, serviço público de televisão. Além de ter aplaudido vários momentos do espetáculo, Costa também desceu até à arena para condecorar o forcado José Luís Gomes com a Medalha de Mérito Municipal, Grau Ouro, decisão tomada por unanimidade na CML em setembro de 2009.

António costa

Mesmo tendo em conta a obrigação de representação institucional da CML, enquanto presidente, o facto é que Costa aplaudiu o espetáculo (transmitido pelo serviço público de televisão, algo que diz ser “chocante”, oito anos depois, nas funções de primeiro-ministro) e em nenhum momento demonstrou que “rejeita” a tourada “como manifestação pública de uma cultura de violência ou de desfrute do sofrimento animal”, pelo contrário. Mais, a condecoração do forcado foi aprovada por unanimidade na CML.

António Costa

As referidas afirmações de Costa na “carta aberta” a Alegre podem não ser falsas, tratando-se de uma questão de consciência (e só o próprio saberá se é verdade ou não o que escreveu na carta), mas a contradição com a sua ação política em 2010 é flagrante.