Nasceu em Sintra há 36 anos, certo?

Sim, em Mem Martins.

Como foi a sua infância?

Foi numa zona a que devo a maior parte das coisas que sou hoje porque foi lá que conheci a desigualdade de que tanto falo, em que alguns têm tudo e outros não têm nada. Foi em Mem Martis que comecei a sentir a questão das minorias e a questão do Estado que esquece algumas zonas do país. Os subúrbios são muito esquecidos. Quando falo destas situações, as pessoas sentem que estou a ser autêntico.

Como foi a sua votação em Mem Martins?

Foi a freguesia do país onde mais votos tivemos. E não é por mim, que eu sai de lá cedo. As pessoas sentem esses problemas. Em Lisboa fiquei abaixo da Iniciativa Liberal. Nos subúrbios fiquei acima.

Como foi a sua infância? Brincava na rua?

Sim, andava de bicicleta, o meu pai andava no negócio das bicicletas. Eu queria ser ciclista, era a minha grande paixão.

Foi em Mem Martis que comecei a sentir a questão das minorias e a questão do Estado, que esquece algumas zonas do país. Os subúrbios são muito esquecidos.

O seu ídolo era Lance Armstrong?

Sim. O dia em que ele reconheceu que se dopou foi uma das últimas situações em que chorei. Eu ia de bicicleta para todo o lado. A bicicleta fazia-me sentir como se tivesse de superar sempre mais obstáculos. Achava que tornar aquilo profissional era conseguir ser alguém numa terra onde as pessoas sentiam que era difícil sair dali, passar um certo escalão social. Eu queria muito.

Chegou mesmo a pensar ser profissional?

Sim. Tinha aquela bicicletas de alumínio para fazer provas. Cheguei a participar em provas locais.

E o talento, era algum?

Não, não era, mas nós apercebemo-nos, por exemplo, que, ao contrário do futebol, de que eu sempre gostei mas não fui convocado uma única vez... cheguei a ir treinar ao Sintrense e ao Arsenal 72, que é um clube pequenino ali em Mem Martins, e nos treinos o treinador ia escolhendo os que queria que ficassem. Eu ficava para o fim, uma coisa terrível.E mesmo quando depois fiquei, nunca fui convocado. Não fiz um jogo.

Eu ia de bicicleta para todo o lado. A bicicleta fazia-me sentir como se tivesse de superar sempre mais obstáculos. Achava que tornar aquilo profissional era conseguir ser alguém numa terra onde as pessoas sentiam que era difícil sair dali, passar um certo escalão social. Eu queria muito.

Qual era a sua posição?

Era defesa-direito. Percebi logo que para o futebol não tinha jeito, mas em relação ao ciclismo sempre achei que tinha potencial e que tinha alguma capacidade. Porém, depois cresci um pouco, fui para o seminário e entendi que tinha que estudar. Foi com pena, mas sou amante de ciclismo, continuo a ver as principais provas a nível nacional e internacional. Portanto, tive um crescimento normal nos subúrbios. Estudei na escola de Ouressa, uma escola muito problemática pela frequência que tinha e pela conflitualidade. Mas foi a melhor escola da minha vida. Com o devido respeito, se eu tivesse crescido em Alvalade, na Lapa ou no Estoril não era a pessoa que sou hoje.

Disse-me que o seu pai era comerciante. O que vendia?

Peças de bicicleta, motas, etc. Era quase freelancer, um pequeno empresário que comprava e vendia peças. A minha mãe era administrativa, trabalhava aqui numa empresa em Lisboa.

Ainda estão os dois vivos?

Sim.

Com o devido respeito, se eu tivesse crescido aqui em Alvalade ou na Lapa ou no Estoril não era a pessoa que sou hoje.

Como estão a acompanhar a sua vida atual? Reveem-se em tudo o que diz?

Não. Mas sempre tivemos uma família muito viva no debate político. O meu irmão é muito mais de esquerda do que eu, o meu pai é mais alinhado à direita, a minha mãe mais moderada.

André Ventura

Discutia-se política à mesa?

Sim, muito por culpa do meu pai. Ele foi combatente no Ultramar, tinha posições muito vincadas e isso foi importante para mim. Acho que ganhei consciência política.

O seu pai era um saudosista do Antigo Regime?

Não, até porque sofreu as agruras da guerra. Sentiu que foi maltratado pelo Antigo Regime, mas também pelo novo. Com ele conheci pessoas comuns que nos transmitiam o que se tinha passado e a forma como o Estado os tratara depois do conflito. Pessoas que tiveram de se fazer à vida, trabalhando em restaurantes, em cafés. O Estado esqueceu-se deles. É uma injustiça tremenda.

Quis ser ciclista, mas também quis ser padre. Como é que a fé aparece na sua vida?

Não fui batizado em criança. Os meus pais acharam que eu devia ter liberdade de escolha religiosa. Nunca fui muito religioso até aos 13, 14 anos. Foi já quando estava numa fase mais adiantada que me tornei religioso. Mas tornei-me muito religioso.

Porquê?

Hoje tento olhar para trás e também não consigo explicar muito bem. Mas isto é autêntico: eu fui à igreja por minha iniciativa. Queria saber porque sentia este apelo dentro de mim. Fui à igreja do Algueirão, uma igreja com muita gente, muito complicada nas dinâmicas internas pelo tipo de pessoas que a frequenta. Depois batizei-me, crismei-me e, como estava muito imbuído de fé, fui para o seminário.

Com que idade?

Com 17 anos.

Foi lá que fez o 12º ano de acesso à universidade?

Sim.

Reza todos os dias?

Sim, todos os dias.

André Ventura
Fotos: Pedro Mensurado

Quanto tempo?

O tempo necessário. Rezo de manhã e à noite e por vezes durante o dia.

Vai à missa?

Sim. Há semanas em que não vou, mas tento ir todas as semanas. Esta semana, por exemplo, tive um comício e não fui. Na próxima tenho outro, mas tentarei ir a algum sítio próximo de onde estiver.

Tem confessado muitos pecados?

Alguns.

Mais agora que é político?

Não, mas também peco e peço desculpa todos os dias a Deus pelos erros que cometo. Há momentos em que erramos. Faço televisão há muito tempo e às vezes erro e digo coisas que não devo dizer. Cá fora procuro sempre falar com as pessoas e digo-lhes: “Eh pá, desculpa, excedi-me.”

A sua postura bélica, radical, não contraria de forma flagrante o universo da Igreja Católica, quer no plano dos princípios, quer no plano da ação?

Eu divido em duas dimensões: há a parte política, e aí reconheço que a igreja tem uma posição mais conservadora e institucional do que a minha - e talvez por isso as elites religiosas não estejam propriamente do meu lado e existam católicos que até apelam ao não voto em mim, como se o Chega! tivesse uma mensagem anticlerical e anticristã. Depois há a outra, que é a parte da mensagem. Eu conheço bem as escrituras, o Antigo e o Novo Testamento, e há uma coisa que sei: que São Paulo era radical também. Ele costumava dizer que aos mornos Deus vomita-os. Com isto quero dizer que podemos ser radicais no discurso e na ação. Portugal já precisava de algum radicalismo positivo.

Também peco e peço desculpa todos os dias a Deus pelos erros que cometo.

Como era a vida no seminário?

Era dura. Tínhamos de nos levantar muito cedo. Tínhamos orações de manhã, à tarde e à noite. E ainda tínhamos de integrar os trabalhos do dia-a-dia. Depois havia a questão de não podermos ter grande contacto com o exterior. Não se podia ter telemóvel. Ligava uma vez por semana aos meus pais através de telefone fixo. E depois havia aquela parte emotiva e sexual, que era muito importante. Acabei por sair porque me apaixonei por uma colega de escola. Achei que tinha de ser sério e assumi.

Depois do liceu, a universidade. Sei que foi um bom aluno.

Fui, acabei o curso com media de 19 valores mas desvalorizo muito isso...

Eu conheço bem as escrituras, o Antigo e o Novo Testamento, e há uma coisa que sei: que São Paulo era radical também. Ele costumava dizer que aos mornos Deus vomita-os. Com isto quero dizer que podemos ser radicais no discurso e na ação. Portugal já precisava de algum radicalismo positivo.

...não me parece nada que desvalorize. Está sempre a dizê-lo.

Mas desvalorizo. Não é assim tão importante. Se fosse hoje, fazia o curso de outra forma, com menos obsessão pelos resultados e com mais vivência. Vivi muito pouco aquela parte académica, aquele ambiente, a amizade e camaradagem que as universidades criam.

Queria ser o melhor aluno?

Queria. Obsessivamente. E quando quero ser o melhor numa coisa entrego-me completamente. Passava dias e noites a estudar. E depois o Direito tem livros enormes. Queria consumi-los a todos e não ter uma falha em parte nenhuma.

Tem mau perder?

Tenho, mas mais comigo próprio.

Achava que não ser o melhor aluno era uma derrota?

Sim. Acho que fui até hoje dos melhores alunos que a universidade teve.

Depois, acaba o curso e vai para a Universidade de Cork?

Não. Ainda estive cerca de um ano numa sociedade de advogados, mas não gostei das pessoas, do ambiente, do estágio... Depois tive uma bolsa da Fundação para a Ciência e Tecnologia em 2008 e decidi fazer o doutoramento.

Percebeu logo que o seu futuro passaria pela vida académica?

No escritório de advogados não tinha o desafio intelectual de que precisava. Também queria ter uma experiência fora, na Inglaterra, na Irlanda ou nos Estados Unidos.

Como correram as coisas na Irlanda?

Bem. A começar porque foi lá que conheci a primeira mulher com quem vivi em união de facto. Uma irlandesa. Era muito interessante porque levou-me a falar quase inglês nativo e também me obrigou a conhecer melhor a cultura irlandesa. Os irlandeses têm uma cultura muito própria, com algumas semelhanças em relação a Portugal. Vivem ao lado de um colosso – a Inglaterra – e nós vivemos ao lado de Espanha. Apesar disso não perderam a identidade. Os irlandeses às 5 da tarde estão num pub. Não é que eu não beba, às vezes até bebo mais do que devia. Mas aquilo era tudo muito à volta da mesa e da bebida. Não me revia nessa cultura. Às duas da manhã às vezes havia um ambiente de verdadeira guerra civil (risos).

Recorda-se da primeira aula que deu?

Sim. Foi num mestrado sobre investigação criminal. Devia ter 26, 27 anos, ainda antes de ir para a Irlanda.

Quando conheceu a sua mulher atual?

Quando já estava em Lisboa. Tinha vindo a Lisboa e estava na igreja de São Nicolau, onde vivi durante todo o curso de Direito. A igreja tinha ao lado uma pastelaria e os pais da minha mulher eram os proprietários. Devo tê-la conhecido por volta de 2010. Não começámos logo a sair. Só nos casámos em 2016.

Os irlandeses às 5 da tarde estão num pub. Não é que eu não beba, às vezes até bebo mais do que devia. Mas aquilo era tudo muito à volta da mesa e da bebida. Não me revia nessa cultura. Às duas da manhã às vezes havia um ambiente de verdadeira guerra civil (risos).

Quando regressou da Irlanda foi viver de novo para a igreja de São Nicolau?

Sim. Só depois é que, como achei que devia ter autonomia, vivi em Alfama e a seguir mudei-me para o Parque das Nações.

André Ventura

Tem filhos?

Não.

Por opção?

Ainda não aconteceu, mas espero ter. É algo que é importante.

Como é que a sua mulher lida com a sua nova vida?

Mal. Eu comecei a fazer televisão no final de 2014 e ela começou a lidar mal com a exposição, sobretudo porque era muito ligada ao futebol e ela não gosta de futebol. As pessoas às vezes insultavam-nos na rua e isso era desagradável. Depois houve a passagem para a política e a candidatura à câmara de Loures, onde a  questão dos ciganos lhe custou muito.

Ela acompanha-o nas suas ideias políticas?

Acompanha. Não em todas. Por exemplo, não concorda com a castração química de pedófilos, mas acho que é uma votante do Chega!.

Nunca lhe aconselhou menos radicalismo nas suas intervenções?

Sim. Diz-me que tenho de ter mais calma, que as coisas têm de ser feitas mais devagar. Mas ela sabe que sou assim e que dificilmente dá para ser diferente.

Quando foi para comentador desportivo da CMTV pensou nisso como a porta de entrada para a vida pública?

Nunca. Eu gosto de ser comentador. Serei toda a vida, assim haja espaço e tempo para isso. Gosto de comentar, de discutir. A participação em debates é parte deste meu espírito. É a minha forma de me expressar.

Não começou logo a comentar desporto, pois não?

Não. Comecei a fazer o “Rua Segura”, sobre justiça e criminalidade, e só depois passei para o futebol. Mas já tinha estado na Benfica TV, onde fazia o programa “Contas Certas, Dúvidas Desfeitas”. Agora, na CMTV, faço justiça e futebol.

Às vezes, no início, dava a ideia de que falava sobre tudo e sobre nada.

Sim, já me disseram isso. Mas eu sou assim. Se for jantar consigo falamos sobre tudo e eu vou querer falar sobre tudo. Não é que seja especialista em tudo, mas tento preparar-me muito para falar. Quem me conhece sabe que não há assunto sobre o qual eu não tenha opinião.

Tem a noção de que algumas pessoas o encaram como vendedor de banha da cobra?

Sim , tenho essa noção. Ninguém sabe de todos os assuntos. Se estou a falar sobre futebol e 10 minutos depois estou a falar de economia é evidente que as pessoas podem pensar. Ninguém tem um cérebro que lhe permita estar em todos os assuntos com profundidade,mas eu acho que também é reconhecido o esforço que faço para ser profundo em todos os assuntos em que pego. Procuro estar o mais informado possível.

Como é que a crítica literária recebeu os seus dois romances, “Montenegro” e “A Última Madrugada do Islão”?

Com um misto de desinteresse e reação negativa.

Não é que seja especialista em tudo, mas tento preparar-me muito para falar. Quem me conhece sabe que não há assunto sobre o qual eu não tenha opinião.

E como é que alguém que quer ser o melhor em tudo lida com isso?

Mal, porque acho que os meus livros estão bons. Foram dois ensaios, espero fazer mais romances quando isto da política passar e me permitir ter outro tempo. Gosto de escrever, da criatividade, da originalidade, de fazer coisas diferentes, mas [a experiência como romancista]não foi significativa nem em vendas nem em impacto público. Um dos livros, “A Última Madrugada do Islão”, era mais polémico - é um livro muito interessante, que faz a história de um jovem que vivia nos subúrbios de uma grande cidade europeia e que se tinha convertido ao islamismo. Mas ainda escreverei um grande romance que será um grande sucesso.

Ambiciona ganhar o Nobel, como acontece com outras personalidades da vida pública nacional?

(risos) Isso não. Mas desde que seja reconhecido pelos portugueses como tendo escrito um bom livro já fico feliz.

Gosto de escrever, da criatividade, da originalidade, de fazer coisas diferentes, mas [a experiência como romancista]não foi significativa nem em vendas nem em impacto público.

O que lhe dizem as pessoas quando o abordam na rua?

- "Força, faça o possível por desmascarar o sistema."

E ameaças, sente?

Muitas, através de carta, nas redes sociais, telefonemas. Aumentou exponencialmente. Eu e o partido estamos preocupados. Mas tenho de dizer que as autoridades têm sido excecionais.

As ameaças têm crescido de tom, sobretudo em termos de credibilidade. Mas não posso deixar de fazer a minha vida. Tenho muita fé e acredito que Deus se encarregará de não deixar que aconteça alguma coisa – ou se acontecer é porque também era essa a sua vontade.

Tem proteção policial?

Não.

Em que medida é que esta exposição condiciona o seu quotidiano?

Muito.

O que deixou de fazer?

Quase tudo. Tento não ir a locais onde esteja muita gente, por exemplo.

Pensa duas vezes antes de ir à Cova da Moura.

Sim. Ou a Chelas (risos). Mas mesmo centros comerciais com muita gente evito. Até porque qualquer agressão teria um significado político e não quero que me acusem de provocar esse tipo de situação. A PSP é sempre avisada antecipadamente dos sítios onde vou. As ameaças têm crescido de tom, sobretudo em termos de credibilidade. Mas não posso deixar de fazer a minha vida. Tenho muita fé e acredito que Deus se encarregará de não deixar que aconteça alguma coisa – ou se acontecer é porque também era essa a sua vontade.

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