Agosto de 2013

A jornalista Maria Henrique Espada digita no seu iPhone 4 o número de José Sócrates. Está na redação da Sábado em dia de fecho e teve acesso a uma informação interessante: o ex-primeiro-ministro, atualmente a residir em Paris, prepara-se para lançar um livro. Não é, tudo o indica, um opúsculo qualquer: trata-se de um ensaio sobre a tortura, um tema pouco vulgar. Jornalista experiente, com muitos contactos no Partido Socialista, Maria rapidamente confirma que, em jantares de amigos, Sócrates tem distribuído democraticamente o seu entusiasmo com o projeto. Falta apenas ouvir o autor. É o que faz. Do outro lado da linha, surpresa total: afinal toda a gente está equivocada. Livro sobre tortura? Sócrates não sabe de nada e tem raiva de quem sabe...

– Peçolhe que não escreva isso, porque estará a enganar e a induzir em erro os leitores da sua revista, estará a darlhes uma informação errada. Isso não é verdade.

Perante um desmentido tão inequívoco, a jornalista guarda a informação na gaveta e não pensa mais no assunto. Até que, cerca de um mês depois, tropeça, com algum choque, numa notícia que o Expresso traz na primeira página: «José Sócrates lança livro sobre tortura». No texto interior, o ex-primeiro-ministro explica ao autor da peça que «a tortura não é um assunto do passado». Pelo contrário: «É um tema muito discutido hoje em dia. Será que uma boa ação, um bem maior, justifica a tortura? É um dos assuntos mais discutidos na filosofia atual, por exemplo nos Estados Unidos.»

Maria sente-se enganada, claro. Durante o fim-de-semana, nem a acalmia que normalmente lhe provoca a imagem das ovelhas a pastar em frente à sua casa situada a cerca de 30 quilómetros de Lisboa lhe apaga a vontade de chamar o ex-primeiro-ministro à pedra. Na manhã de segunda-feira, quando chega à redação, comenta o assunto com os seus colegas da secção de política. Todos são unânimes: Sócrates deve-lhe uma explicação. Era o que Maria queria ouvir. Volta a digitar o número do ex-primeiro-ministro. Assim que Sócrates atende, a jornalista exprime-lhe educadamente a sua perplexidade. Sócrates fica incomodado.

– Não lhe admito isso, que me peça explicações (...) está equivocada...

Maria Henrique Espada insiste na manifestação do seu incómodo. Quer deixar bem claro a José Sócrates que não sabe a que está ele habituado na relação com os seus colegas de profissão, mas que ela, Maria, está longe de conviver pacificamente com mentiras vindas de quem quer que seja – políticos incluídos. O socialista reage com ironia.

– Que interessante, um jornalista a pedirme explicações, costuma ser ao contrário. Enfim, se quiser perceber podemos conversar...

Sim, Maria quer perceber. E, como acredita na natureza humana, tem uma esperança – milimétrica, é certo – de que o ex-primeiro-ministro possua uma boa explicação para lhe dar.

– Recordome vagamente desse telefonema. Quando me ligou eu disse que não e tinha boas razões para dizer que não. Eu aproveitei uma imprecisão da sua parte para dizer que não...

Maria fica confusa. Uma imprecisão? Que imprecisão?! Assim de repente, a notícia que o Expresso escreveu é, no essencial, a que ela mesma teria redigido. Mas Sócrates clarifica.

– Você disse que a minha tese era sobre tortura e não é, a minha tese é sobre tortura em determinadas circunstâncias, embora, é claro, eu não tenha na altura acrescentado esta informação.

Maria não quer acreditar em tamanha desfaçatez. Basicamente, o que aconteceu foi que o agora mestre em ciência política pela Science Po decidiu que o Expresso, pela sua história e prestígio, é o jornal indicado para dar em primeira mão a notícia sobre o seu livro. E não está disposto a perder o controlo dos acontecimentos só porque algum dos seus amigos fala demais.

Para desespero de Sócrates, a notícia [da publicação do seu livro] é mesmo publicada na página do Económico na internet. Quando a lê, fica possesso, indomável, feroz. Liga a Guilherme Dray, que fora incapaz de o ajudar e que agora tem de o ouvir.

– Obrigadinho por tudo! A partir daqui, puta que pariu o teu patrão, aquele filho da puta!

Sócrates ainda mal resolveu o Mariahenriqueespadagate quando o seu telefone toca de novo. Desta vez é uma jornalista do Diário Económico. Quer confirmar uma informação que o seu diretor, António Costa, acaba de lhe passar sobre a data (23 de outubro) e o local (Museu da Eletricidade, em Lisboa) em que o seu livro será apresentado publicamente. Uma vez mais, o socialista fica doido de raiva. Quer ser ele a decidir onde, quando e como revelará essa informação. Reincide na mentira. Diz à repórter que o seu diretor é parvo, que a informação é falsa e que não tem qualquer decisão tomada. Problema: a jornalista volta a falar com António Costa e este renova-lhe a fiabilidade da informação. Mais: diz-lhe que é mesmo para publicar – Sócrates não terá direito a concessões especiais. A redatora liga ao ex-PM e explica-lhe que vai avançar. Sócrates fica perdido. Na sua cabeça, está claramente a ser alvo de um boicote. No que depender dele, aquela notícia não pode nem vai sair. Ainda tem algum tempo para o evitar. Pega no telefone e marca o número de Guilherme Dray, seu ex-chefe de gabinete em São Bento e atual alto quadro da Ongoing. Pede-lhe que fale com Nuno Vasconcellos, dono da empresa que, entre outros negócios, detém o Diário Económico. O político está certo de que, se a ordem vier de cima, António Costa meterá a viola no saco e esquecerá o tema.

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O livro de José Sócrates foi um dos mais vendidos de 2013

Para seu desespero, a notícia é mesmo publicada na página do Económico na internet. Quando a lê, fica possesso, indomável, feroz. Liga a Guilherme Dray, que fora incapaz de o ajudar e que agora tem de o ouvir.

– Obrigadinho por tudo! A partir daqui, puta que pariu o teu patrão, aquele filho da puta!

Guilherme já viu este filme. As explosões de ira de Sócrates em São Bento eram um clássico. Tenta acalmar o amigo e, pelo caminho, proteger Vasconcellos, que nem saberá do que se passou. Mas Sócrates não tem contemplações. Pede-lhe que diga ao seu patrão que corta relações com todos.

– Anda a enganarme há três anos e sempre esse filho da puta a dar facadas! (...) Já chega, não quero mais conversa, há pequenas coisas que dizem tudo sobre essa canalha!

São 19h03 quando o telefone de Guilherme Dray recebe nova chamada de José Sócrates. O ex-PM pôs, entretanto, a mão na consciência e percebeu que não fora especialmente simpático.

– Desculpa, fizeste o que pudeste, eu é que me enfureço com estes filhos da puta, que deviam ter gerido a notícia!

Claramente mais calmo, Sócrates pede a Guilherme que não se zangue consigo.

– Tens sido um bom amigo e gosto muito de ti.

Dia três. São 11h50 quando Sócrates pega no telefone. É preciso fazer novo ponto de situação com Carlos. O amigo está no El Corte Inglés, em Lisboa. Sócrates está preocupado com o ritmo a que as compras evoluem. Quer mais, melhor e mais depressa. Pergunta a Carlos se tem mais pessoas que possam ajudar. Carlos começa a detalhar as que já tem no terreno, mas Sócrates põe-lhe um travão.

– Não te estiques ao telefone a falar disto.

Carlos tranquiliza-o.

– Com a malta que está no terreno falo em código.

Objetivo: 24102013

Por estes dias, Sócrates está em alerta máximo. Só pensa no livro. Na distribuição do livro. Nos convites para a apresentação do livro. Na promoção do livro. E, mais importante que tudo o resto, na venda da obra, não pelo dinheiro que esta lhe possa render, mas pelo prestígio que significará a liderança dos tops de vendas. Para si, não é opção chegar ao dia da apresentação sem que A Confiança no Mundo não figure no primeiro lugar em livrarias como a Fnac ou a Bertrand. E sabe como fazer com que isso aconteça.

Sócrates combina com o seu amigo Carlos Santos Silva a montagem de uma estratégia a nível nacional. O plano: construir uma rede com representantes em vários pontos do país que, na semana anterior ao lançamento (o livro vai para as bancas uma semana antes da apresentação pública) o adquiram em massa. O objetivo: chegar ao evento já com uma aura de grande sucesso e, na segunda-feira seguinte (o lançamento seria numa quinta-feira), quando os tops de vendas forem divulgados, figurar no primeiro lugar. Tudo o que for menos que isso é um fracasso. Os próximos dias serão, portanto, de brasa.

Sextafeira, 18 de outubro de 2013

Seis dias para a apresentação. O livro chega hoje às livrarias. Não há tempo a perder, a operação tem de ir para o terreno. São 11h34 quando Sócrates e Carlos Santos Silva falam ao telefone. O ex-PM quer saber se já há movimentações. Nada. Carlos mandou um emissário passar pelos pontos de venda e as prateleiras ainda estão vazias. Há que aguardar.

No final da tarde, é Carlos quem contacta o amigo para lhe dar conta da situação.

– Na mais moderna, na F [Santos Silva refere-se em código à Fnac] só na segundafeira.

Não pode ser. Sócrates, entretanto, já falou durante a tarde com José Araújo, o seu editor, que lhe garantiu que os livros estão para chegar a qualquer momento à Fnac. Tem de se ir para o terreno em força. Apenas uma hora e meia depois, Santos Silva liga de novo a Sócrates. O ex-PM está ansioso.

– Está tudo a avançar?
– Sim, mas há gajos que começam a sorrir e a perguntar se querem cinco...

Habituados a ter as caixas de pagamento vazias por causa da crise que o mercado editorial atravessa há vários anos, os empregados das livrarias estão a estranhar a compra em massa de um só livro, claro. Fazem perguntas. Era expetável. Sócrates pede cuidado, não vá um jornalista do CM estar pelas redondezas.

Sábado, 19 de outubro de 2013

14h18. Dia dois da operação. Rui Mão de Ferro, um dos membros da equipa, liga a Carlos Santos Silva. Este não perde tempo.

– Como vai a caçada? 
Rui faz o relato do que caçou até agora e pede mais instruções. Santos

Silva recomenda-lhe ir ao Centro Comercial Colombo.

– Tem aquelas caixas onde podes passar 10 de cada vez sem ninguém ver. Depois passas daí a meia hora e fazes a mesma coisa.

As coisas estão a avançar bem. Prova disso é a chamada que José Sócrates recebe, pelas 19h56. É José Araújo a dar notícias: a Fnac acaba de solicitar uma segunda edição. E, face a este ritmo de vendas, a editora já equaciona uma terceira.

Domingo, 20 de outubro de 2013

Dia três. São 11h50 quando Sócrates pega no telefone. É preciso fazer novo ponto de situação com Carlos. O amigo está no El Corte Inglés, em Lisboa. Sócrates está preocupado com o ritmo a que as compras evoluem. Quer mais, melhor e mais depressa. Pergunta a Carlos se tem mais pessoas que possam ajudar. Carlos começa a detalhar as que já tem no terreno, mas Sócrates põe-lhe um travão.

– Não te estiques ao telefone a falar disto.

Carlos tranquiliza-o.

– Com a malta que está no terreno falo em código.

Segundafeira, 21 de outubro de 2013

Dia quatro. Logo pelas 11h00 da manhã, nova conversa rápida. Sócrates:

– É preciso continuar a operação nesta semana. Vais fazer isso?

Claro que vai.

Terçafeira, 22 de outubro de 2013

Dia cinco. Sócrates e Santos Silva falam pelas 22h39. O telefonema, com a duração de 1m36s, tem um único objetivo. Sócrates:

– Está em força?
– Está a um ritmo de 50% dos outros dias. – Tem de se acelerar.

Quintafeira, 24 de outubro de 2013

Chega o grande dia. A Confiança no Mundo é mesmo apresentado em grande estilo no Museu da Eletricidade. Na mesa principal, lado a lado com José Sócrates, estão duas das maiores figuras do socialismo internacional: Mário Soares e Lula da Silva. O ex-presidente do Brasil, que assina o pre- fácio, veio de propósito a Portugal para participar na cerimónia. Com sala cheia e figuras tão notáveis, Sócrates dificilmente poderia estar mais feliz.

Depois dos discursos de Soares e de Lula, Sócrates pega nos seus apontamentos. Faz uma intervenção forte, sólida, estruturada. Preparara-a intensamente, como sempre sucede. Nota-se que está à vontade com o tema. Leu muito sobre o assunto durante a sua estadia em Paris. Quando chega a hora dos agradecimentos, não se esquece de ninguém importante – isto se não considerarmos relevante a figura que o MP considera ser o real autor do livro que daí a apenas três dias efetivamente ocupará o primeiro lugar do top: Domingos Farinho, um professor de Direito que se encontra perdido algures entre as muitas centenas de pessoas presentes, algumas delas fora da sala, a assistir através de um ecrã gigante, por manifesta falta de espaço na sala principal.

Através da audição de conversas entre José Sócrates e Domingos Farinho, bem como da análise de fluxos financeiros entre as esferas dos dois homens, Rosário Teixeira concluiu que o segundo era muito mais do que um amigo com quem o ex-PM falava sobre livros por puro deleite intelectual. Para o líder da Operação Marquês, Domingos é o ghost writer em quem Sócrates depositou grandemente a responsabilidade de o fazer existir em dois cenários para si fundamentais nesta fase da vida: na universidade, através da redação da sua tese de mestrado; e nas bancas das livrarias, através da adaptação daquele trabalho académico para um livro que viria a vender cerca de 17 mil exemplares. Ao todo, estima o MP, Sócrates terá investido perto de 170 000 € na aquisição de cerca de 10 mil exemplares.

domingos farinho
Domingos Farinho é suspeito de ter sido o verdadeiro autor de A Confiança no Mundo

O dia em que um cachucho lhe salvou a vida

Para Domingos, na altura com 36 anos, colaborar com Sócrates era um privilégio muito particular – mais uma das coisas boas que a vida lhe dera desde que, numa viagem tumultuosa ao Brasil, quase a perdera, na sequência de um episódio digno de um filme policial e amplamente noticiado na imprensa da época.

Estávamos no ano 2000. Domingos terminara recentemente a licenciatura em Direito com média de 16, uma nota invulgarmente elevada para os padrões da Faculdade de Direito de Lisboa. Os pais decidiram premiá-lo com umas férias no Brasil, onde aproveitaram para visitar uns familiares no Recife.

O cinema é uma das paixões do alegado ghost writer do ex-PM. O seu realizador de eleição é o polaco Krzysztof Kieslowski, autor de Vermelho, o seu filme favorito, que dá o nome ao seu blogue pessoal. Depois de Vermelho, o seu ranking prossegue com Blade Runner, de Ridley Scott, The Thin Red Line, de Terence Malick, e A Guerra das Estrelas, de George Lucas.

Foi precisamente numa dessas visitas que as coisas se descontrolaram. Juntamente com a sua mãe, Domingos foi a casa de uma prima que se encontrava em pleno processo de separação de um ex-polícia. Este, ao ver o jovem abandonar sozinho a casa da sua antiga companheira, não controlou um ataque de ciúmes e interpelou-o na rua. Domingos reagiu mal. A conversa transformou-se em discussão – e esta quase resultou em execução, quando o companheiro despeitado decidiu sacar de uma arma, apontá-la ao português e desferir seis tiros na sua direção – e é neste particular momento que a história se aproxima da transcendentalidade: Domingos terá sido salvo pelo seu anel – um cachucho enorme ornamentado com um símbolo da mitologia grega –, que, ao fazer ricochete, desviou uma bala fatal. Inanimado, a sangrar abundantemente, o jovem foi resgatado do chão e rapidamente transportado ao hospital. As lesões eram graves. Não conseguia respirar autonomamente – os pulmões tinham sido atingidos.

Demoraria vários dias a acordar depois da noite traumática, mas não perdeu muito tempo até começar a fazer piadas sobre o assunto na presença dos amigos mais próximos, como contou ao Observador o humorista Luís Filipe Borges, seu ex-colega de faculdade: «Estávamos a ver o filme Snatch – Porcos e Diamantes, que estreou nesse ano de 2000. A dada altura, o personagem Tony Dente de Bala é baleado seis vezes por outro gangster asiático. Tony acaba por salvar-se porque uma das balas que era dirigida à cara acaba por ficar alojada entre os dentes da frente – daí o nome do personagem. Tal como o resto do filme, essa cena é muito cómica, apesar de ser igualmente muito sangrenta. Em vez de se assustar, o que seria normal depois de tudo o que tinha acontecido pouco tempo antes, o Domingos riu imenso com essa cena (...) Depois do que aconteceu no Brasil, o Domingos continuou a ter a mesma alegria de sempre mas passou a dar ainda mais valor à vida.»

Os investigadores da Operação Marquês descobriram que durante oito meses Domingos Farinho recebeu 4000 € mensais de uma empresa em nome de Rui Mão de Ferro, arguido no processo e sócio de Carlos Santos Silva em várias sociedades. O contrato de «prestação de serviços de apoio e assessoria na área jurídica», estabelecido entre Farinho e a RMF Consulting, vigorou entre 1 de janeiro de 2013 e 31 de agosto daquele ano. Contas totais: cerca de 40 000 € pela alegada redação de A Confiança no Mundo

O cinema é uma das paixões do alegado ghost writer do ex-PM. O seu realizador de eleição é o polaco Krzysztof Kieslowski, autor de Vermelho, o seu filme favorito, que dá o nome ao seu blogue pessoal. Depois de Vermelho, o seu ranking prossegue com Blade Runner, de Ridley Scott, The Thin Red Line, de Terence Malick, e A Guerra das Estrelas, de George Lucas. Ainda hoje guarda os três primeiros episódios da saga de Han Solo e Darth Vader em caixas com capas da TV Guia.3 Além do cinema, gosta de banda desenhada (de que tem uma apreciável coleção), de corrida – atleta de cidade, corre meias maratonas – e de poesia, quer na qualidade de apreciador, quer na de autor. Uma das últimas vezes em que assinou um poema aconteceu aquando da morte de Herberto Hélder, um dos seus poetas de eleição:

«(...) E quando Herberto Helder nos diz olha: eu queria saber em que parte
se morre, para ter uma

flor e com ela atravessar
vozes leves e ardentes e crimes sem roupa, não é ele que quer atravessar as

vozes leves
A poesia, toda ela,
é uma criatura sem criador que lhe chame sua foi inventada por um duende qualquer.»

O caminho em direção a Sócrates

Desde a tragédia brasileira, a sua carreira tem vindo sempre em crescendo. Fez o estágio de advocacia, mas a prioridade era a vida académica. Rapidamente iniciou o mestrado em ciências jurídico-políticas, que terminou com uma média de 17 valores. Seguiu-se o doutoramento. Entretanto, já dava aulas como assistente. O seu reconhecido mérito valeu-lhe uma chamada para trabalhar no gabinete de Rui Pereira, seu ex-professor e na altura secretário de Estado da Administração Interna de António Guterres.

Ganhou o gosto pelos corredores do poder. Seguiu-se, já no governo Sócrates, o gabinete do influente secretário de Estado Adjunto do primeiro-ministro, Filipe Baptista, o que lhe proporcionou o convívio direto com José Sócrates, por cuja figura política se deixou entusiasmar. Tornou-se um indefetível do ideal socrático. Os seus laços – e os da sua família – começaram a estreitar-se. De Filipe Baptista transitou para o gabinete de Almeida Ribeiro, uma das eminências pardas do então líder do Executivo. O ex-espião tinha qualidades que lhe agradavam: cultura, muita capacidade de análise política e grande discrição. Foi, depois disso, nomeado para o Gabinete de Resolução Alternativa de Conflitos pelo Ministério da Justiça (onde promoveu a criação de uma banda desenhada com uma história inspirada em cada um dos serviços que dirigia, tendo contratado oito artistas e encontrado um mecenas para viabilizar o projeto).

Também a sua mulher, Jane Kirkby, se aproximou do Partido Socialista: esteve no gabinete de Manuel Salgado (entre 2007 e 2008), quando este se tornou número dois de António Costa na autarquia de Lisboa. Foi também assessora do secretário de Estado Manuel Pizarro, na Saúde (de 2008 a 2009), próximo de Sócrates. Jane é irmã de Mark Kirkby, que foi chefe de gabinete de Ferro Rodrigues quando este foi líder do PS e António Costa era o líder parlamentar. Os Bobela-Mota Kirkby são, aliás, uma família tradicional do PS, com peso na secção de Benfica, em Lisboa.

E há mais coincidências – ou percursos que se cruzam: Jane Kirkby é advogada no escritório de advogados BAS, onde o marido já foi consultor (entre julho de 2013 e março de 2015) e onde até há pouco tempo também foi consultor Diogo Lacerda Machado, amigo de António Costa.

Os investigadores da Operação Marquês descobriram que durante oito meses Domingos Farinho recebeu 4000 € mensais de uma empresa em nome de Rui Mão de Ferro, arguido no processo e sócio de Carlos Santos Silva em várias sociedades. O contrato de «prestação de serviços de apoio e assessoria na área jurídica», estabelecido entre Farinho e a RMF Consulting, vigorou entre 1 de janeiro de 2013 e 31 de agosto daquele ano. Contas totais: cerca de 40 000 € pela alegada redação de A Confiança no Mundo, que o MP não duvida ser da autoria de Domingos Farinho. Em interrogatório, o jovem docente afirmou que ajudou somente a rever a tese de mestrado de Sócrates e a selecionar bibliografia. As desconfianças do MP sobre a relação Sócrates-Farinho vão mais longe. Isto porque também se descobriu que a empresa de Rui Mão de Ferro celebrou outro contrato, desta vez com Jane Kirkby. O acordo de prestação de serviços deveria vigorar entre 1 de novembro de 2013 e 31 de outubro de 2014, e renderia a Kirkby 5000 € mensais. Montante global: 60 000 €. O MP acredita que os montantes transferidos para Jane Kirkby eram, na verdade, destinados ao pagamento dos serviços de Domingos Farinho na elaboração de mais um livro da alegada autoria de Sócrates: O Dom Profano.

Maio de 2014

José Sócrates acaba de chegar de uma longa viagem que incluiu uma semana em Cuba e outra no Brasil, quando telefona a Domingos Farinho. Começa por lhe garantir que, apesar de tanto frenesim, se encontra vivo, mas que não é por isso que o contacta. Quer convocá-lo para um encontro pessoal para fazer um ponto de situação relativamente à obra de filosofia política que ambos preparam naquele momento. Domingos está disponível, claro. Agendam um almoço para a sexta- -feira seguinte, 16 de maio. Farinho faz, porém, questão de informar desde já o ex-PM de que depois da última conversa que tiveram já tirara notas dos livros que lera. Mais: já escrevera mesmo cerca de cinco páginas.

Sócrates, interessado em dar seguimento ao sucesso comercial que obtivera com A Confiança no Mundo, considera que não há tempo a perder. Pouco antes, nesse mesmo dia, estivera ao telefone com José Araújo, com quem falara sobre a edição premium de A Confiança no Mundo, um opúsculo de capa dura que Sócrates sugeriu lançar no mercado, na expectativa de que, mesmo sendo um produto mais caro que a obra original, tivesse grande adesão dos leitores.

Até ao momento da conversa tinham sido vendidos cerca de mil exemplares, 80 deles na última semana só na Fnac, o que Sócrates considerou muito escasso comparando com a obra original lançada em outubro de 2013.

O caminho do sucesso tem, pois, de ser retomado. E Farinho é nuclear para que tal suceda. O socialista quer fazer um retiro de dois a três meses na companhia do jurista.

Na obra, Sócrates percorre a história do carisma, primeiro na teologia de S. Paulo, até à sua transformação em categoria da sociologia política na obra de Max Weber. Na nota que a editora distribui à comunicação social, o autor afirma que a razão do livro reside na desconfiança daquele sociólogo alemão sobre o «poder dos aparelhos burocráticos e a aversão ao regime de funcionários. A atual crise europeia levou-me a regressar a Weber e a este tema, cem anos depois».

José Sócrates já se pusera em campo. Cerca de duas semanas antes, telefonara para o hotel Sheraton Algarve, um empreendimento de luxo onde há muitos anos passa férias. Em conversa com uma funcionária do hotel, dissera-lhe que estava interessado em alugar um apartamento no Pine Cliffs Residences durante um ano. A sua interlocutora explicou-lhe que seria impossível ficar tanto tempo nas residências. E sugeriu-lhe uns apartamentos novos, também dentro do Pine Cliffs, mas situados na zona do restaurante japonês existente no empreendimento. Sócrates ficou de telefonar no dia seguinte.

Estas e outras conversas foram fulcrais para que o MP formasse a convicção de que, à imagem do que alegadamente acontecera com o seu primeiro livro, Sócrates montou um esquema em redor de O Dom Profano, pagando a Domingos Farinho para o apoiar na pesquisa bibliográfica e para, numa fase final, lhe escrever o ensaio de filosofia. Interrogado pelo MP sobre o assunto, Farinho garantiu que nada tem a ver com qualquer dos livros assinados por José Sócrates.

domingos farinho

Dois anos e meio depois...

O Dom Profano é apresentado publicamente. Embora composto, o Auditório I da FIL – Centro de Exposições e Congressos de Lisboa está longe de se encontrar cheio. Ao contrário do que sucedera no Museu da Eletricidade aquando do lançamento de A Confiança no Mundo, nesta sexta- -feira, 28 de outubro, não se veem grandes figuras da política nacional e internacional. Os poucos que vão não fazem questão de serem vistos. Porque quase tudo mudou na vida de Sócrates. Foi preso, é suspeito de corrupção – é, oficialmente, um ativo tóxico.

«Foi interessante e triste assistir à apresentação porque foi um barómetro daquilo em que se tornou a sua vida. Os que dantes lhe faziam juras de fidelidade eterna viraram‐lhe as costas, o que diz muito do Partido Socialista, da política e dos políticos que temos.»

«Tenho desde a adolescência uma discussão acesa com um grande amigo sobre o papel da biografia na bibliografia. Eu sou um fundamentalista do ocultismo biográfico. Apenas a obra vale (...) Tudo o resto é privacidade e/ou coscuvilhice.» O MP acredita que os dois livros assinados por José Sócrates são a prova material do pensamento de Domingos Farinho.

Na obra, Sócrates percorre a história do carisma, primeiro na teologia de S. Paulo, até à sua transformação em categoria da sociologia política na obra de Max Weber. Na nota que a editora distribui à comunicação social, o autor afirma que a razão do livro reside na desconfiança daquele sociólogo alemão sobre o «poder dos aparelhos burocráticos e a aversão ao regime de funcionários. A atual crise europeia levou-me a regressar a Weber e a este tema, cem anos depois».

E há também a questão do debate sobre a liderança, tão caro ao ex-PM: «Pensava-se que podíamos aperfeiçoar as democracias pondo de lado, com vantagem, a dimensão pessoal da política e substituindo-a pela discussão sobre ideias e programas. Qualquer valorização das questões da liderança ecoava como suspeita perante as regras da democracia. O fantasma dos totalitarismos carismáticos deixou uma longa herança.»

Não se sabe se, à imagem do que aconteceu no lançamento de A Confiança no Mundo, Domingos Farinho terá estado presente na FIL. Pode ter acontecido sem que ninguém tenha percebido. Porque Domingos é uma pessoa discreta, que cultiva um relativo desprezo pelas luzes da ribalta. Veja-se, por exemplo, o que escreveu em fevereiro de 2015 no seu blogue sobre a sacrossanta questão da autoria de livros: «Tenho desde a adolescência uma discussão acesa com um grande amigo sobre o papel da biografia na bibliografia. Eu sou um fundamentalista do ocultismo biográfico. Apenas a obra vale (...) Tudo o resto é privacidade e/ou coscuvilhice.» O MP acredita que os dois livros assinados por José Sócrates são a prova material do pensamento de Domingos Farinho.

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