O PSD obteve "o pior resultado de sempre" nas eleições europeias de 2019?

"O resultado que o PSD obteve no passado domingo foi um mau resultado", começou por salientar Luís Montenegro, na entrevista de ontem à noite na SIC em que anunciou a sua candidatura à liderança do partido. "E acontece na sequência de uma estratégia política que falhou, que já tinha sido evidenciado nas eleições europeias com o pior resultado de sempre do PSD em eleições para o Parlamento Europeu".

Confirma-se? Nas eleições europeias de 26 de maio de 2019, o PSD foi o segundo partido mais votado, com 727.207 votos, 21,94% do total, convertidos em seis mandatos. Desde as primeiras eleições europeias em Portugal, no ano de 1987, sempre que concorreu a solo, o PSD nunca ficou abaixo do patamar de 30% dos votos e conquistou sempre pelo menos oito mandatos.

Em 2014, porém, quando concorreu em coligação com o CDS-PP, no âmbito da Aliança Portugal, obteve 909.932 votos, 27,71% do total, convertidos em sete mandatos. Tendo em conta que, já em 2019, o CDS-PP a solo captou 205.106 votos, 6,19% do total, convertidos em um mandato, não parece ser rigoroso concluir que o PSD obteve "o pior resultado de sempre" em 2019.

Sempre que concorreu a solo, confirma-se que foi o pior resultado de sempre do PSD, mas incluindo as candidaturas em coligação deparamos com um resultado ligeiramente mais baixo em 2014, atendendo à proporção do CDS-PP nesses números (e calculando essa proporção com base no resultado do CDS-PP em 2019, o que não deixa de ser discutível). Concluindo, optamos pela classificação intermédia de impreciso, até porque Montenegro poderia estar a referir-se exclusivamente às eleições em que o PSD concorreu a solo.

Avaliação do Polígrafo: Impreciso.

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"Há 36 anos" que o PSD não tinha um resultado tão baixo em legislativas?

"E agora com um resultado que já não tínhamos há 36 anos", prosseguiu Montenegro, voltando a referir-se às eleições legislativas que se realizaram no domingo, 6 de outubro de 2019. "Portanto, um resultado muito mau, um resultado que deixa ao PSD muito pouco espaço para se afirmar como alternativa política ao Governo do Partido Socialista".

Os resultados das legislativas de 2019 ainda são parciais, faltando apurar os círculos da Europa e Fora da Europa, mas neste momento o PSD acumula 1.420.644 votos, 27,9% do total, convertidos em 77 mandatos. Há 36 anos, mais precisamente nas eleições legislativas de 1983, o PSD obteve 1.554.804 votos, 27,24% do total, convertidos em 75 mandatos.

Ora, analisando todos os resultados do PSD em eleições legislativas (pode conferir aqui os números) verificamos que atingiu outros dois mínimos históricos em 2005 - liderado por Pedro Santana Lopes, com 1.653.425 votos, 28,77% do total, 75 mandatos - e em 2009 - liderado por Manuela Ferreira Leite, com 1.654.777 votos, 29,11% do total, 81 mandatos.

Em suma, o resultado de 2005 está praticamente ao mesmo nível do resultado de 1983, pelo que Montenegro tanto poderia ter dito "há 36 anos" como "há 14 anos" que o PSD não tinha um resultado tão baixo em eleições legislativas.

Avaliação do Polígrafo: Falso.

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Rui Rio "quebrou um ciclo de duas vitórias eleitorais" do PSD?

"Agora, se o doutor Rui Rio tivesse ganho as eleições… Nós ganhámos as eleições legislativas em 2015, nós ganhámos as eleições legislativas em 2011, o doutor Rui Rio quebrou um ciclo de duas vitórias eleitorais do PSD", afirmou ontem Montenegro, justificando a decisão de se candidatar à liderança do partido, criticando e desafiando o atual presidente em funções.

Mais uma vez surgem dúvidas quanto à amplitude da declaração de Montenegro: estaria a referir-se a todas as eleições ou apenas às legislativas? É que no dia 1 de outubro de 2017 realizaram-se eleições autárquicas e a derrota do PSD foi frontalmente assumida pelo então líder Pedro Passos Coelho que, aliás, decidiu demitir-se da liderança do partido, resultando na sua sucessão por Rui Rio.

No dia 29 de setembro de 2013 também se realizaram eleições autárquicas e a derrota do PSD foi então ainda mais expressiva. De resto, nas eleições europeias de 2014, a coligação Aliança Portugal (PSD/CDS-PP) sofreu outra derrota. Ou seja, a liderança de Passos Coelho não teve um ciclo de vitórias eleitorais consecutivas, pelo contrário.

Mas no que respeita exclusivamente a eleições legislativas, sim, é verdade que o PSD foi o partido vencedor em 2011 (formando um Governo de maioria absoluta em coligação pós-eleitoral com o CDS-PP), ao passo que o resultado de 2015 é mais complexo.

Não deixa de ser legítimo considerar que o PSD e o CDS-PP (no âmbito da coligação Portugal à Frente) venceram as eleições legislativas de 2015, mas depois formaram um Governo condenado à partida e que durou apenas 27 dias até ser derrubado na Assembleia da República, com o PS a convergir com o BE, PCP e PEV para aprovar uma moção de rejeição do programa de Governo.

O facto é que a vitória aritmética da coligação Portugal à Frente nas eleições legislativas de 2015 não se traduziu na formação de um Governo viável. Pelo que também parece ser legítimo concluir que, na prática, embora tenha sido apenas o segundo partido mais votado, o PS foi em última instância o vencedor dessas eleições, pois conseguiu formar um Governo viável, baseado em acordos de incidência parlamentar bilaterais com o BE, PCP e PEV.

No mínimo, esta afirmação de Montenegro é dúbia e por isso discutível. Se se referia a todas as eleições, proferiu uma falsidade ou errou. Se se referia somente a eleições legislativas, tratou a coligação pós-eleitoral de 2011 como se fosse similar à coligação pré-eleitoral de 2015, não ressalvou que em 2015 não foi possível formar um Governo viável só com o apoio dos deputados do PSD e do CDS-PP (remetidos para a oposição ao novo Governo do PS) e não teve em conta que, entre 2015 e 2019, a maior quebra de votos e mandatos foi do CDS-PP e não do PSD.

Aliás, se o CDS-PP tivesse mantido em 2019 o nível que alcançou a solo em 2011 (653.987 votos, 11,7% do total, 24 mandatos), a soma PSD/CDS-PP voltaria a suplantar o resultado do PS, mas, tal como em 2015, seria ainda assim insuficiente para garantir uma maioria absoluta.

Avaliação do Polígrafo: Impreciso.

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