Uma das situações que mais curiosidade provocou aos investigadores da Operação Marquês foram as transferências regulares de quantias para Sandra Santos, uma cabo-verdiana residente na Suíça que frequentemente se deslocava a Lisboa para se encontrar com José Sócrates. Na óptica de Rosário Teixeira, que liderou a investigação da Operação Marquês, as somas de dinheiro que, através de Carlos Santos Silva, José Sócrates - que hoje à tarde é ouvido pela quinta vez pelo juiz de instrução criminal Ivo Rosa - terá feito chegar a Sandra, são mais um indício revelador de um estilo de vida que alegadamente não era condizente com os rendimentos apresentados pelo ex-primeiro-ministro.

Já José Dirceu é considerado uma figura importante, uma vez que os investigadores acreditam que o brasileiro, ex-braço-direito de Lula, poderá ter sido um dos intermediários entre Sócrates e as altas esferas do poder político e económico brasileiro.

O teor destes interrogatórios consta do livro "A Sangue Frio", da autoria do diretor do Polígrafo, Fernando Esteves.

Quarta-feira, 27 de maio de 2015

– Não querem falar sobre a senhora Sandra Santos? Deve ser mais excitante...

Quem pergunta? José Sócrates. Os destinatários? Jorge Rosário Teixeira e Paulo Silva, o experiente procurador e o implacável inspetor tributário que tutelam a Operação Marquês, sentados bem à sua frente. O cenário? Uma inóspita sala de interrogatório do Campus de Justiça, em Lisboa. O ambiente? Pesado, muito pesado.

Sócrates está fulo. Nesta quarta-feira o Correio da Manhã (CM) faz a sua enésima manchete sobre a Operação Marquês. Carlos Santos Silva, seu amigo e alegado cúmplice, foi ontem libertado da cadeia pelo MP, no que foi visto como um prémio da investigação por este alegadamente ter colaborado com as autoridades.

Na mesma edição do matutino, é dado destaque de capa a outra notícia: «Orgias em Lisboa – Mulher chantageada por sexo em grupo.» Aparentemente, Maria, 33 anos, teria sido filmada a fazer sexo com vários homens ao mesmo tempo. E agora via-se numa situação difícil: os seus alegados companheiros ameaçavam mostrar as imagens das acrobacias eróticas à sua família, ao namorado e aos amigos. Uma humilhação comparável à que Sócrates terá sentido quando, no interrogatório que lhe foi feito por Carlos Alexandre e Rosário Teixeira na fatídica noite em que foi preso, o tema Sandra Santos – uma cabo-verdiana de 40 anos, residente na Suíça, para quem, durante vários anos, Sócrates transferiu muitos de euros – foi abordado de uma forma que considera ultrajante. Nessa noite, o MP deixou bem clara a importância processual da personagem mais misteriosa do caso: se Sócrates vivesse apenas dos seus rendimentos declarados, não teria capacidade para, ao longo de vários anos, entregar mais de 100 mil euros a alguém que, acreditam os investigadores, terá mantido com ele uma relação que vai para lá daquilo a que se convencionou chamar de amizade.

Impávido, Paulo Silva devolve a José Sócrates a questão da alegadaexcitação que o tema lhe provocará...

– Não sei, o senhor engenheiro dirá.

Sócrates impacienta-se.

– Não sabe? Sabe, sabe! Sabe, sabe!!! (...) A Sandra Santos é amiga do Carlos Santos Silva. Amiga do Carlos Santos Silva!

Paulo Silva mantém a calma.

– Sim, e então?

E então???!!! Sócrates volta ao ataque.

– Mas isto entra-vos por um ouvido a sai-lhes por outro, não interessa nada! (...) Sabe porquê? Sabe porquê? Porque vocês em todos os vossos escritos o que vocês insinuam é que eu, é que o Carlos pagava deslocações para favores sexuais. Isso, pá, oh, por amor de Deus, pá! Por amor de Deus!

Se Sócrates vivesse apenas dos seus rendimentos declarados, não teria capacidade para, ao longo de vários anos, entregar mais de 100 mil euros a alguém que, acreditam os investigadores, terá mantido com ele uma relação que vai para lá daquilo a que se convencionou chamar de amizade.
O ex-primeiro-ministro está imparável. Continua.

– Não é o que está aí insinuado? Insinuado e de que forma, pá, escanda- losa! Não é verdade! A Sandra é amiga do Carlos Santos Silva, eu acho aliás que a conheci através do Carlos Santos Silva há mais de, sei lá, vinte anos! A Sandra, há uns anos atrás, teve vários desgostos na vida dela, ficou sem emprego, teve um filho, tentou suicidar-se e pediu-nos ajuda, muita vez pedia-me a mim como pedia ao Carlos, vocês têm esses relatos todos na devassidão que fizeram da minha vida, têm esses relatos! Claro que eu não lhe podia pagar porque não tenho dinheiro. O Carlos é que pagava sempre porque tem dinheiro, mas pagava porque queria pagar.

Paulo Silva não confirma nem desmente. Para já.

– Certo...

– Não, não, não é isso que vocês dizem! Vocês dizem é que não, não, ela vinha para se encontrar consigo, favores sexuais, não é, e o Carlos pagava!

O desmentido finalmente surge através do inspetor tributário.

– O senhor engenheiro é que está a dizer isso...

Sócrates não recua.

– Desculpe, isso é o que vocês afirmam! Quando eu digo vocês...

A conversa torna-se confusa, desconexa, com diálogos cruzados. A tensão é notória. Rosário Teixeira:

– O que está aqui em causa é...

Sócrates:

– É, senhor procurador, não sei se o senhor afirma...

Paulo Silva:

– Eu não afirmo isso.

Sócrates de novo:

– Que é utilizado aquele dinheiro segundo eu percebi, se eu não percebi bem...

Rosário:

– Percebeu bem, que lhe pagavam as viagens...

Sócrates:

– Ah pois, pois. E ela vinha-se encontrar consigo. Não senhor procurador, não vinha. Ela vinha para visitar a família, para estar com os amigos, e pediu-nos ajuda – a mim e ao Carlos.

Rosário tenta detalhar...

– E é por isso que ela...

... mas Sócrates não está para isso. Fim de conversa.

– Eh pá, a mesquinhez a que vocês chegam nas imputações! Ai, senhor procurador... bom, mas enfim, eu prometo agora calar-me. Mais alguma pergunta?

Silêncio.

369 dias antes...

São 8h41m. De telemóvel na mão, Sandra está ansiosa, aflita, atormentada – angustiada. Precisa de dinheiro com urgência. Vive em Martigny – uma comuna com uma superfície de 24,97 km2 e uma população de 16 143 habitantes – com Luís, o seu pequeno filho de dois anos, e há muito que enfrenta grandes dificuldades em fazer face às despesas. Com- binara com José Sócrates uma visita rápida a Portugal, mas não irá para o aeroporto sem que antes lhe seja feito um depósito monetário. Pega no telefone e começa a escrever um SMS para Carlos Santos Silva, o homem que, sempre a pedido de José Sócrates, habitualmente a socorre nos momentos de desespero financeiro – e este é claramente um deles.

"Em todos os vossos escritos o que vocês insinuam é que eu, é que o Carlos pagava deslocações para favores sexuais. Isso, pá, oh, por amor de Deus, pá! Por amor de Deus!"

– Olá, bom dia! O nosso amigo [José Sócrates] gostaria que viesse hoje [para Portugal] mas a Lígia não encontrou voo... Mas falamos e se tu puderes encontrar um voo para o dia 30 [estamos no dia 24] até ao dia 3, desculpa mas se poderes enviar antes do dia 30, 3000 [euros] por favor. Obrigado.

Sandra olha para o telemóvel. Passaram 21 minutos desde que enviou a mensagem. O silêncio de Carlos agita-a. Tem de insistir.

– Achas que vai ser possível? Por favor responde... Bjos.

O dia passa sem que receba um sinal. Pensa no pior. Que Carlos não quer saber dela para nada. Que está a ser chata. Que será difícil ter uma resposta em tempo útil. São 20h44 quando faz nova investida.

– Por favor Carlos diz se esta ok para ti, por favor.

Nada. Zero. Passam mais 12 minutos. Talvez Sandra não saiba, mas este não é um bom dia para obter respostas de um amante de futebol, como é manifestamente o caso de Carlos – é noite de final da Liga dos Campeões. Dois portugueses – Ronaldo de um lado, pelo Real Madrid, e Tiago do outro, pelo Atlético de Madrid – jogam o encontro mais importante da época desportiva precisamente em Lisboa, no Estádio da Luz. Insiste de novo.

– Estas farto de mim... Compreendo, mas por favor diz que se podes ou nao, responde por favor, bjos.

Mais 28 minutos. A aflição dá lugar ao desespero.

– Estás chateado comigo?

O dia termina sem que Carlos dê sinal de vida. Mas Sandra está longe de desistir. Precisa de dinheiro – e não vai parar enquanto o problema não estiver resolvido. Por isso ainda não são 10 da manhã do dia 25 quando manda a primeira SMS a Carlos. Mas nada; mais um dia sem resposta. São 23h06 quando faz uma derradeira tentativa.

– Por favor responde diz qualquer coisa por favor.

No dia seguinte, Portugal acorda com as primeiras páginas dos jornais centradas nos resultados das eleições europeias realizadas no dia anterior. António José Seguro obtém uma vitória frágil – 31,4% contra 22,7% do PSD liderado por Pedro Passos Coelho. O PS profundo está em êxtase controlado – a vitória curta é a oportunidade ideal para fazer cair um líder que, apesar de o país estar a arder nas chamas da austeridade imposta pela execução, pelo Governo de Passos Coelho, da ditadura financeira imposta pela troika constituída pelo FMI, pelo BCE e pela Comissão Europeia, não conseguiu o resultado absolutamente contundente que se impunha.

Entre os mais exultantes com a vitória de Pirro está António Costa, o presidente da autarquia lisboeta que, comentando o resultado, fez lembrar o que disse António Guterres em 1991 imediatamente depois de um falhanço eleitoral de Sampaio e horas antes de decidir assaltar-lhe a liderança: «Estou em choque.» Costa não está em choque, mas para bom entendedor meia palavra basta para lançar a corrida à chefia do PS: «À derrota histórica da direita não correspondeu uma vitória histórica do PS.» Os dados estão lançados.

A dois mil quilómetros de distância, bem distante das facas longas que lenta, dolorosa e fatalmente atravessam as costas desprotegidas de Seguro, Sandra espera – e desespera. Até que Carlos decide finalmente responder. São 9h58 quando lhe envia uma SMS.

– Ok, vou tratar da viagem, depois envio o código, o Luís também vem?

Passam sete minutos.

– Sim. Podes me ajudar financeiramente? Por favor?

Perante a ausência de resposta imediata, Sandra insiste apenas quatro minutos depois.

– Não tenho como apanhar os transportes até Geneve... Juro-te pelo meu filho estou mesmo na M...

Os segundos passam: um... dois... cinco... 16... 21... 28 – e a resposta mais desejada surge apenas com duas letras.

– Ok.

Está tudo certo, então. Sandra pode deslocar-se a Lisboa para, quatro dias depois, no dia 30, se encontrar com José Sócrates. O ex-primeiro-ministro solicitara a sua presença a Lígia Correia, sua ex-assessora no Governo e no PS, uma das suas mais fiéis amigas e habitual organizadora dos encontros entre o socialista e a sua amiga. Problema: Sócrates não a avisara de que precisamente no dia 30 o seu filho mais velho, José Miguel, se graduaria em Paris – e ele tinha obviamente de lá estar. Mas é isso um impedimento incontornável à companhia de Sandra? Claro que não. Paris também tem aeroportos. E restaurantes. E hotéis.

São 18h57 de quarta-feira, 28, quando Sócrates digita o número de Lígia. Afinal quer que Sandra vá ter com ele à cidade-luz. Sim, a Paris. A formatura de José Miguel está agendada para as 19h; duas ou três horas depois deve estar despachado, garante. E pede a Lígia que também esteja presente. Esperá-las-á no Hotel Bel Ami, um cinco estrelas moderno localizado num dos bairros mais chiques da cidade: Saint Germain des Prés.

Está tudo certo, então. Sandra pode deslocar-se a Lisboa para, quatro dias depois, no dia 30, se encontrar com José Sócrates. O ex-primeiro-ministro solicitara a sua presença a Lígia Correia, sua ex-assessora no Governo e no PS, uma das suas mais fiéis amigas e habitual organizadora dos encontros entre o socialista e a sua amiga.

Lígia não está convencida. Suspeita que a viagem de Sandra para Lisboa já está paga. E considera um desperdício de dinheiro comprar um bilhete de um dia para o outro, sem ter garantias de que Sandra, desorganizada compulsiva, apanharia o avião – já correra mal noutras ocasiões. Desliga. Tenta perceber se o bilhete para Lisboa está efetivamente pago. Está. Telefona a Sócrates. Concordam que é melhor manter o plano inicial: Sandra seguirá para Lisboa como combinado. O encontro terá de esperar uns dias.

Entretanto, Carlos e Sandra continuam a brincar ao jogo do gato e do rato. Ela procura vorazmente uma injeção de capital sem a qual não se deslocará ao encontro de Sócrates; ele esconde-se como pode. No dia 28, a amiga pergunta-lhe se já fez a transferência prometida. Carlos foge em frente: claro que sim; que verifique no dia seguinte, que o dinheiro já deverá estar na sua conta. Na realidade não moveu uma palha até este momento. Só depois da conversa, pelas 11h40 do dia 29, é que Carlos pega no telefone para dar a ordem de transferência à sua gestora de conta do Banco Espírito Santo (BES).

É já com mais 3 000 euros na conta que Sandra Santos se dirige 24 horas depois para a porta de saída do aeroporto da Portela. Portugal está a ferro e fogo. E não é seguramente por causa do calor que se faz sentir – para este dia o Instituto de Meteorologia prevê uma temperatura mínima de 14o e uma máxima de 20o. O que verdadeiramente faz explodir os níveis térmicos da nação para níveis estratosféricos é a ansiedade provocada pela eventualidade de Cristiano Ronaldo não conseguir recuperar totalmente a tempo de dar o seu contributo à seleção nacional no Mundial de futebol que daí a duas semanas terá lugar no Brasil. O avançado português chegou ontem a Óbidos à concentração da equipa e, ao contrário do que claramente sucede com o Lamborghiniem que se fez transportar, está longe de exibir a cavalagem suficiente para participar em pleno nos jogos de preparação que se avizinham, a começar pelo confronto com a Grécia, agendado para amanhã, dia 31. Uma lástima.

Passam três dias e a temperatura decresce: Cristiano Ronaldo dá finalmente sinais de vitalidade; na primeira página dos diários, CR7 garante que a falta de comparência no início do Mundial não é uma opção: «Jogo de certeza contra a Alemanha.» Também Sandra não faltará ao encontro com José Sócrates, agendado para hoje algures em Lisboa. E assim foi. Dois dias depois, já de malas acabadas de desfazer na Suíça, são 18h17 quando carrega na tecla enviar do seu telemóvel.

– Obrigado por tudo! Bjos.

O destinatário? José Sócrates.

*****

A conexão brasileira

Quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Estamos já na reta final do interrogatório a Ricardo Salgado, conduzido por Rosário Teixeira e pelo inspetor tributário Paulo Silva. Passaram várias horas desde que o ex-líder do GES começou a falar, todas elas intensas. Já se debateu a corrupção, o aliciamento, a guerra e a traição. Mas ainda não se discutiu o papel que José Dirceu, ex-ministro da Casa Civil do antigo Presidente do Brasil, Lula da Silva – que Sócrates já qualificou publicamente como o seu melhor amigo na política – terá desempenhado em toda a trama da PT. Também Dirceu terá sido pago pelo GES para, alegadamente, obter a simpatia das autoridades brasileiras relativamente ao interesse de Ricardo Salgado entrar, através da PT, no capital da Oi/Telemar. Em causa estariam decisões de organismos como as entidades reguladoras do setor e do banco público BNDES.

Rosário Teixeira olha para Ricardo Salgado. Na expectativa de que os problemas de memória que o ex-banqueiro evidenciou durante quase todo o interrogatório não se voltem a fazer sentir, lança a primeira pergunta sobre a conexão brasileira.

– A partir de 2011, o senhor, através da ES Finantial, faz um pagamento a uma sociedade de advogados, Abrantes Serra, de uma avença mensal de 30 mil euros, mais IVA, que acaba por ser, verificámos nós, em termos de pagamentos, para o senhor José Dirceu. Sabe quem é este senhor?

– Sei.

– Nunca o conheceu pessoalmente?

– Conheci sim. Foi o braço direito do Lula na primeira fase do governo brasileiro.

– Conheceu-o cá ou lá?

– Conheci-o cá.

É nesta altura que Salgado decide fazer uma revelação aos investigadores.

– O sr. procurador deve-se recordar do período do célebre careca [Marcos Valério, publicitário angariador de dinheiro do Partido dos Trabalhadores, de Lula, que acabou condenado a uma pena de prisão no âmbito do caso Mensalão], o homem da mala que veio a Lisboa. Foi ao BES, à PT e depois à EDP. Andava a procurar levantar dinheiro. Eu disse-lhe que não tínhamos hipótese nenhuma e que não fazia sentido nenhum contribuir para o Partido dos Trabalhadores. Era uma figura meia estranha... Veio a revelar-se que era do pior que há naquele grupo. Aconselhei-o a falar com o meu primo Ricardo Espírito Santo, lá no Brasil, o que ele fez. Entretanto, acontece a queda do Dirceu, começam as investigações e há um mandato para fazer um inquérito em Portugal, no qual eu fui responder. Eu, o António Mexia e o Miguel Horta e Costa, que estava na PT na altura. Para saber se tínhamos dado dinheiro para o tal sujeito, o careca. E que poderia ser para o Dirceu. E nós dissemos que não tínhamos feito pagamento nenhum, que não havia absolutamente nada. E que não havia relação com o José Dirceu. E encontro o José Dirceu numa cerimónia na Expo e ele veio agradecer-me pelo depoimento que eu tinha feito. Eu nem sequer o vi lá no julgamento. E foi assim que o conheci.

De seguida, Salgado passa a Abrantes Serra. E ensaia uma explicação para os pagamentos.

– O Abrantes Serra é diferente. Porque faz parte de um escritório que tem um correspondente no Brasil, onde julgo que também está o Dirceu ou assim, mas nós tínhamos um problema para resolver lá há muitos anos. Uma propriedade, a Cobrap, que tinha sido invadida ainda nos anos 70 e 80 por uma turma de índios. Fica hoje no Estado dos Tocantins, naquela altura estado de Goiás. Foi invadida e ocuparam 50% da propriedade, depois aquelas invasões degeneraram nos Sem Terra. Então, nós pusemos um processo ao Estado brasileiro e tínhamos a receber um montante considerável, entre os 30 e os 50 milhões de dólares, pelos 5% da propriedade ocupada. Quando vim para Portugal, conheci o Abrantes Serra, que era advogado do escritório a quem eu pedira que desse sequência à nossa análise. E foi assim que eu estabeleci uma avença ao Abrantes Serra, para nos poder apoiar nesse trabalho, que nunca resultou em nada...

– Tem outra vez estas coincidências que correspondem ao tempo que o Dr. Dirceu esteve cá em Portugal. E que até reuniu com o Henrique Granadeiro...

– Eu isso não sei. Essa relação do Dirceu na PT não conheço...

– Tem ideia se isto era assim de pedir um apoio ao Dr. Abrantes Serra, certamente terá sido feito um contrato. Havia um contrato?

– Havia, claro. Mas não sei onde está. Deve lá estar no arquivo do BES. Provavelmente... Mas isto não era dinheiro para o José Dirceu.

– Na prática foi, na prática, depois, foi, senhor doutor...

– Mas como é que o senhor procurador pode garantir isso?

– Posso porque este seu pagamento feito por esta empresa ES Finantial é, durante muitos anos, a única receita numa determinada conta bancária. A qual servia para pagar viagens e outras despesas do Dr. José Dirceu.

– Mas os nossos pagamentos eram entregues ao Abrantes Serra...

– Eram feitos para uma conta bancária, que era utilizada no interesse do senhor Dirceu.

Salgado não contesta. Mas também não admite que sabia do que quer que fosse. Está inocente – ou, pelo menos, é essa a verdade que quer fazer passar.

– Senhor procurador, aceito que está a dizer, naturalmente. Não tenho razões para estar a pôr isso em causa. Mas eu não sabia! O Abrantes Serra tinha de exercer a sua atividade jurídica através dos seus correspondentes brasileiros, não sei se o Dirceu era o advogado de serviço no Brasil. E ele ia-me fazendo relatórios do processo, ia-me animando, dizendo que o processo estava a evoluir favoravelmente, mas que ia demorar tempo ainda.

Paulo Silva volta à conversa.

– Como é que conheceu o Dr. Abrantes Serra?

– Como é que eu conheci o Abrantes Serra? Como é que se chamava o presidente daquela empresa que sucedeu ao BPN?

Rosário faz um esforço de memória...

– Parvalorem?

– Era a outra..

– Galileu?

– Quem era o presidente?

Paulo Silva recorda-se bem: Fernando Lima.

– Isso! O Dr. Lima, uma figura ilustre da Maçonaria portuguesa, era o líder da Maçonaria portuguesa. Foi através do Lima. Julgo que lhe devo ter perguntado se havia forma de podermos ter uma assessoria jurídica nesse sentido.

– E o senhor doutor não tem outros elementos? Até com o seu primo lá no Brasil? Para procurar outros advogados?

– Tudo aquilo no Brasil desapareceu...

***

No Brasil é assim: quando um pobre rouba, ele vai para a cadeia; quando um rico rouba, ele vira ministro. O autor da afirmação? Lula da Silva. A data? 14 de fevereiro de 1988. Nessa altura, o esquerdista barbudo não passava disso mesmo: de um radical com impressionante massa pilosa, mas com currículo modesto no que respeita a cargos ao mais alto nível. Deputado federal pelo Partido dos Trabalhadores, Lula referia-se ao que acreditava ser a impunidade absoluta dos membros do governo brasileiro, sobre quem pendiam suspeitas de corrupção e nepotismo. Hoje, passados quase 30 anos sobre aquela afirmação, tudo mudou: Lula já ocupou a presidência do Brasil, já saiu da política e sobreviveu a um cancro. Falta-lhe agora sobreviver também à justiça brasileira – fortemente apostada em provar que o ex-Presidente é a figura maior de uma gigantesca teia de corrupção que envolve as principais figuras do Partido dos Trabalhadores – e provar que a sua frase de há três décadas não é suscetível de se aplicar ao seu caso pessoal.

A seu lado, em 1988, já se encontrava José Dirceu, o único político brasileiro que dentro do partido chegou perto dos níveis de popularidade de Lula, o líder histórico da esquerda radical brasileira. Rodrigo Rangel, um dos mais destacados repórteres da revista brasileira Veja e responsável por algumas das investigações mais importantes sobre os escândalos em que Lula da Silva e restantes altas figuras do Partido dos Trabalhadores se viram envolvidos na últma década, sublinha que «José Dirceu sempre foi uma das grandes figuras do Partido dos Trabalhadores. Tanto era assim que, após a eleição de Lula da Silva, ele foi escolhido como o ministro mais poderoso do governo. Comandou a Casa Civil. Dentro do partido, era dos poucos capazes de fazer sombra a Lula e era tido como um possível sucessor natural do Presidente.O próprio Lula tinha consciência disso e, nos bastidores, cuidava para, digamos, limitar o poder de Dirceu (na verdade, Lula nunca permitiu que crescesse dentro do Partido dos Trabalhadores alguém capaz de colocar em risco sua liderança).»

No Brasil é assim: quando um pobre rouba, ele vai para a cadeia; quando um rico rouba, ele vira ministro. O autor da afirmação? Lula da Silva. A data? 14 de fevereiro de 1988. Nessa altura, o esquerdista barbudo não passava disso mesmo: de um radical com impressionante massa pilosa, mas com currículo modesto no que respeita a cargos ao mais alto nível.

Hoje José Dirceu caiu em desgraça – foi condenado duas vezes a mais de 31 anos de prisão pelo envolvimento em crimes investigados pela Operação Lava Jato e preso em agosto de 2015 em Curitiba, no Estado do Paraná – mas até há alguns anos era visto como um príncipe da política brasileira, um herói romântico com uma história de vida suscetível de inspirar guiões de cinema e séries de televisão.

Revolucionário precoce, estava no interior de São Paulo, num congresso secreto da União Nacional dos Estudantes, a que presidia, quando foi preso pela polícia militar. Tinha 24 anos. Depois de passar por quatro prisões diferentes em apenas 11 meses, o resistente à ditadura acabou, juntamente com outros 15 presos políticos, trocado pelo embaixador americano Charles Elbrick, sequestrado em 1969 no Rio de Janeiro. Os sequestradores, ligados ao Movimento Revolucionário 8 de Outubro e à Ação Libertadora Nacional, exigiram que Dirceu e os outros presos fossem levados para outro país. Primeiro, foi para o México. Pouco tempo depois foi recambiado para Cuba, onde estudou, trabalhou, recebeu treino militar e travou amizade com os aliados de Fidel Castro.

Em 1975, com 29 anos, decidiu voltar ao Brasil. Problema: tinham-lhe retirado a nacionalidade aquando da expatriação – ou seja, continuava clandestino. Solução que encontrou: criar uma nova identidade. José Dirceu de Oliveira Silva passou então a responder pelo nome de Carlos Henrique Gouveia de Melo, um cidadão comum, habitante em Cruzeiro do Oeste, no interior do Paraná. Obcecado em não ser reconhecido, Dirceu submeteu-se a uma cirurgia plástica para mudar as feições. Entre outras coisas, colocou uma prótese no nariz, esticou o rosto e retocou os olhos. Para além disso, passou a usar óculos, mudou o corte de cabelo e deixou crescer o bigode. Ficou irreconhecível.

Para completar o disfarce, faltava-lhe apenas constituir família. Fê-lo com Clara Becker, com quem teve um filho, Zeca. Nenhum deles soube que aquela não era a verdadeira cara de Carlos até 1979, já Dirceu saíra de casa. Clara não queria acreditar: «Foi um choque tremendo, eu disse para ele não aparecer mais na minha frente.»

Na cidade paranaense, o radical anticapitalista Dirceu estabeleceu-se como um comerciante de sucesso: depois de abrir uma alfaiataria, lançou a Butique Magazine do Homem. Um ano e meio mais tarde, já tinha a sua própria confecção para comercializar calças masculinas da marca Bang para outras regiões do país. A aprovação da Lei da Amnistia, em 1979, foi o pretexto de que precisava para se reinventar de novo. Podia voltar a a ser José; Carlos estava oficialmente morto.

Obcecado em não ser reconhecido, Dirceu submeteu-se a uma cirurgia plástica para mudar as feições. Entre outras coisas, colocou uma prótese no nariz, esticou o rosto e retocou os olhos. Além disso, passou a usar óculos, mudou o corte de cabelo e deixou crescer o bigode. Ficou irreconhecível.

De regresso a São Paulo, onde conheceu Lula da Silva, José Dirceu recomeçou do zero. Voltou ao curso de Direito, casou de novo – com a psicóloga Ângela Saragosa – e em 1986 foi eleito deputado estadual, a que se seguiu, em 1990, a eleição como deputado federal. Foi candidato a governador de São Paulo em 1994 e novamente eleito deputado federal em 1998.

Saltando uns anos no tempo, em 2003, já depois de liderar o Partido dos Trabalhadores no pós-Lula, Dirceu chegou ao governo. E não foi para um cargo qualquer: o seu camarada Lula da Silva atribuiu-lhe a pasta mais influente – a de chefe da Casa Civil. Nessa época, Rodrigo Rangel já acompanhava o seu percurso: «Tornou-se homem-forte do governo. Mas, ironicamente, foi a mão-forte com que exercia o poder como ministro mais poderoso do governo que começou a provocar sua ruína. Aliados incomodados com a sua arrogância no exercício do poder denunciaram a existência do mensalão. E, logo em seguida, veio a queda – e, depois, a prisão como um dos chefes do Mensalão.»

Terá sido durante aquele escândalo de corrupção no Congresso Nacional do Brasil, entre 2005 e 2006, que José Dirceu estreitou as suas relações com a elite política e empresarial portuguesa. Rodrigo Rangel recorda esses tempos: «Em algumas oportunidades, mostramos em reportagens as conexões de José Dirceu e de outros hierarcas do Partido dos Trabalhadores com Portugal. [No Mensalão] apareceram as primeiras ligações, quando, conforme ficou consignado no processo julgado pela Suprema Corte brasileira, operadores do esquema de corrupção viajaram a Portugal em busca de recursos para abastecer a engrenagem montada para comprar apoio político para o governo Lula da Silva no Parlamento. Na sequência vieram outros indícios dessa conexão portuguesa. As empresas do entorno de José Dirceu chegaram, inclusive, a ter ligações societárias com portugueses – incluindo um escritório de advocacia com sede em Lisboa.»

O escritório de que fala o jornalista da Veja é o Lima, Serra, Fernandes & Associados, que tem como sócios Fernando Lima, grão-mestre do Grande Oriente Lusitano, e João Abrantes Serra. E é através dele que José Dirceu entra na Operação Marquês, uma vez que Rosário Teixeira acredita que José Dirceu terá sido nuclear, através da sua influência política, para a concretização de alguns dos negócios entre empresas portuguesas e brasileiras que terão estado na origem dos milhões alegadamente recebidos por José Sócrates.

Segundo o MP, tudo começou em 2007, quando João Abrantes Serra acordou com José Dirceu e o seu irmão, Luís Oliveira e Silva, a concertação de esforços no sentido de, através do estabelecimento de contactos em Portugal e no Brasil, pressionar entidades políticas e a administração de empresas públicas para a obtenção de decisões favoráveis a interesses empresariais portugueses e brasileiros. Entre essas decisões encontravam-se as relativas aos investimentos milionários da PT no Brasil, onde estava então em curso uma operação que visava utilizar a sociedade Telemar para adquirir a Brasil Telecom.

O escritório de que fala o jornalista da Veja é o Lima, Serra, Fernandes & Associados, que tem como sócios Fernando Lima, grão-mestre do Grande Oriente Lusitano, e João Abrantes Serra. E é através dele que José Dirceu entra na Operação Marquês, uma vez que Rosário Teixeira acredita que José Dirceu terá sido nuclear, através da sua influência política, para a concretização de alguns dos negócios entre empresas portuguesas e brasileiras que terão estado na origem dos milhões alegadamente recebidos por José Sócrates.

Nesse negócio estavam envolvidos os grupos empresariais Andrade Gutierrez e La Fonte, que vieram a deter uma posição de controlo sobre a empresa Oi, saída desse acordo entre a Telemar e a Brasil Telecom.

Para consumar o desenvolvimento técnico e gerar ganhos e meios financeiros que permitissem suportar os encargos gerados com o financiamento obtido à custa de fundos públicos brasileiros, era crucial conseguir em Portugal uma decisão, por parte da administração executiva da PT e do governo de José Sócrates, que fosse favorável à participação da PT no capital da Oi – o que viria a acontecer.

Na narrativa do MP, José Dirceu terá sido a figura escolhida para garantir que o negócio avançaria. E este não terá poupado esforços para o concretizar. Nesse sentido, João Abrantes Serra9 terá sido absolutamente central. O advogado ter-se-á disponibilizado a ajudar Dirceu a estabelecer contactos em Portugal, bem como a montar um esquema discreto para disfarçar a remuneração dos seus serviços de lobista. Solução encontrada: justificar os pagamentos através da assinatura de contratos de prestação de serviços entre o escritório de Abrantes Serra e várias sociedades em Portugal que representavam os interessados no negócio. Contratos de fachada a que não terão correspondido os serviços neles descritos. Os ganhos obtidos através desses pretensos acordos de prestação de serviços seriam depois encaminhados ou repartidos com José Dirceu, direta ou indiretamente, através de Luís Oliveira e Silva.

Para consumar o desenvolvimento técnico e gerar ganhos e meios financeiros que permitissem suportar os encargos gerados com o financiamento obtido à custa de fundos públicos brasileiros, era crucial conseguir em Portugal uma decisão, por parte da administração executiva da PT e do governo de José Sócrates, que fosse favorável à participação da PT no capital da Oi – o que viria a acontecer. Na narrativa do MP, José Dirceu terá sido a figura escolhida para garantir que o negócio avançaria.

O primeiro dos pretensos contratos terá sido acordado verbalmente, ainda em 2007, com Henrique Granadeiro, então presidente não executivo do Conselho de Administração da PT, que era favorável ao investimento no Brasil, mas numa empresa alternativa à Vivo, já então participada pela PT em conjunto com a operadora espanhola Telefonica.

Através desse acordo, que nunca foi formalizado, Abrantes Serra fez emitir, em nome da sociedade de advogados que partilhava com o grão-mestre da maçonaria, faturas à PT, que só entre julho de 2007 e junho de 2008 totalizaram 511 mil euros, já com impostos pagos. Desse valor, Abrantes Serra terá feito chegar cerca de 217 mil euros a José Dirceu.

Também no âmbito do mesmo acordo, foi estabalecido entre Abrantes Mendes e Dirceu um pretenso contrato de prestação de serviços com a sociedade Zagope, do grupo Andrade Gutierrez (acionista de referência da Oi). Faturação entre 2008 e 2009: 141 mil euros, que foram parar integralmente ao bolso de José Dirceu.

As parcerias não se ficaram por aqui: um terceiro contrato foi estabelecido com a Espírito Santo Financial, que acabou por resultar, desde março de 2011, no pagamento mensal de uma avença de 36,9 mil euros, a dividir por Abrantes Serra e Dirceu em partes iguais. Contas feitas, até julho de 2014 cada um ficou com cerca de 585 mil euros. Pecúlio final para José Dirceu: cerca de 945 mil euros.

Para fazer chegar discretamente esta quantia ao ex-político brasileiro, terão sido utilizados vários estratagemas:

  • A atribuição a José Dirceu de um cartão de crédito associado a uma conta do Banco Comercial Português controlada por Abrantes Serra;
  • O pagamento de despesas diversas de José Dirceu relativas a hotéis ou ao aluguer de carros;
  • O pagamento, a uma imobiliária, de despesas relacionadas com uma casa alegadamente sua;
  • A transferência de fundos para a Valore Moçambique, uma sociedade de que Evanise Santos, mulher de Dirceu, é acionista;
  • O pagamento de faturas emitidas em nome da sociedade brasileira JD Assessoria e Consultoria, de José Dirceu.

Além destas formas de pagamento, foram ainda realizadas transferências para contas indicadas por Dirceu no Brasil no valor de, pelo menos, 120 mil euros.

Uma das operações que permitem levantar o véu sobre o complexo novelo de ligações que se estabelecem à volta dos grandes negócios envolveu a venda à Telefónica de 50% da Vivo, que estava nas mãos da PT, o que deu aos espanhóis o controlo da operadora brasileira de telecomunicações. Uma transação gigantesca de 7,5 mil milhões de euros, que teve como contrapartida a entrada da operadora Oi na PT, e que só se terá realizado por influência direta de José Sócrates, que terá imposto à PT como condição de venda da Vivo a entrada no capital da brasileira Oi. Entre 2007 e 2008, a Lima, Serra, Fernandes & Associados foi avençada da PT no dossier Vivo. Já a espanhola Telefónica contratou o gabinete Oliveira e Silva & Associados, do irmão de Dirceu, que trabalhava para os vários lados.

"Criou-se, enquanto Lula presidia o Brasil e Sócrates era primeiro-ministro de Portugal, uma estreita conexão entre empresários politicamente alinhados a eles de um lado e de outro", diz Rodrigo Rangel, um dos mais destacados jornalistas brasileiros.

Rodrigo Rangel não se espanta com os alegados esquemas denunciados pelas autoridades portuguesas: «Durante o governo de Lula da Silva, era evidente a proximidade com José Sócrates, até pelas raízes de ambos os lados na esquerda. Sempre se suspeitou que dessa ligação política estivessem a sair também negócios abençoados pelos então poderosos brasileiros, de um lado, e pelos então poderosos portugueses, de outro. Criou-se, enquanto Lula presidia o Brasil e Sócrates era primeiro-ministro de Portugal, uma estreita conexão entre empresários politicamente alinhados a eles de um lado e de outro. Agora, com o avanço das grandes investigações em curso nos dois países, começamos a conhecer e a entender melhor o que havia por trás dessa cooperação binacional.» E conclui: «Espera-se que, em breve, tenhamos enfim as provas definitivas do que realmente moveu o esforço de políticos dos dois países em favor não apenas desse como de outros negócios, inclusive alguns que envolvem grandes construtoras investigadas aqui no Brasil na Operação Lava-Jato.»

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