O juiz de instrução Ivo Rosa interroga hoje o ex-Primeiro-Ministro no âmbito do Processo Marquês. Acusado de corrupção passiva, branqueamento de capitais, fraude fiscal qualificada e falsificação de documento, Sócrates já declarou publicamente o seu respeito por Ivo Rosa - exatamente o contrário do que afirma recorrentemente sobre Rosário Teixeira e Carlos Alexandre, a dupla que conduziu o seu interrogatório - e o de Carlos Santos Silva - na sequência da sua detenção. 

Um dos focos nucleares do processo é a relação financeira entre José Sócrates e o seu amigo. Desde o primeiro dia que os investigadores do processo, bem como o juiz de Instrução Carlos Alexandre, não acreditam na alegada generosidade de Santos Silva - em vez disso, defendem que este era seu testa-de-ferro. Essa convicção transparece com nitidez do conteúdo dos interrogatórios realizados na fase inicial do processo. Os bastidores desses interrogatórios - que tiveram vários momentos explosivos - são descritos ao detalhe no livro "A Sangue Frio", da autoria do diretor do Polígrafo, Fernando Esteves. Fique com algumas passagens reveladoras.

O PRIMEIRO INTERROGATÓRIO A SANTOS SILVA E A JOSÉ SÓCRATES: MUITA FALTA DE MEMÓRIA

"Ao longo destes últimos anos tenho passado por dificuldades financeiras"

No Tribunal Central de Instrução Criminal (TCIC), Rosário Teixeira não tem tempo a perder com esterilidades inconsequentes. Quer saber tudo sobre o trânsito de centenas de milhares de euros em dinheiro vivo entre Carlos Santos Silva e José Sócrates, sobre os alegados empréstimos milionários que terão financiado a vida faustosa do socialista em Paris. Carlos Santos Silva, o interrogado, nitidamente agitado, gagueja, atrapalha-se e, entre sorrisos nervosos, tenta responder como pode.

- Havia... portanto... essa minha disponibilidade, digamos, até final de 2014, de um montante dessa ordem de grandeza, dos 500 mil euros e... portanto... se eu já tinha manifestado... digamos... esta minha disponibilidade até ao fim de 2014...

Rosário tenta fixar datas – pode ser útil mais à frente na investigação.

- ...ai disse-lhe que até ao final de 2014 o podia ajudar?

- Sim. E com um montante desta ordem de grandeza.

- Qual ordem de grandeza?

- Eu falei nisso. Já ultrapassou, aliás.

- 20 mil? Não estou a perceber.

- 500 mil. Já ultrapassou, que eu já tenho registados 510 nos meus apontamentos.

O procurador do Ministério Público mostra interesse pelos apontamentos. Sem efeito: Santos Silva destruiu-os. Não há, pois, qualquer registo das somas que emprestou a José Sócrates. E isso é um grande, um enorme problema, a que se acrescenta outro, provavelmente ainda mais relevante: Rosário Teixeira está a experimentar sérias dificuldades em acreditar no que escuta. Neste momento já está bem claro na sua cabeça que há ali muitas coisas por explicar – uma convicção que, juntamente com Carlos Alexandre, reforça no interrogatório a José Sócrates realizado logo na sequência da sua detenção no aeroporto de Lisboa:

- Sabe de onde vinham essas posses [de Carlos Santos Silva]? Pode dizer alguma coisa a respeito disso?

A pergunta do juiz mais famoso do sistema judicial português não surpreende o ex-primeiro-ministro, mas a resposta é evasiva. Sentado na cadeira, com os olhos castanhos intensamente fixados nos de Carlos Alexandre, José Sócrates ensaia uma resposta.

O procurador do Ministério Público mostra interesse pelos apontamentos. Sem efeito: Santos Silva destruiu-os. Não há, pois, qualquer registo das somas que emprestou a José Sócrates. E isso é um grande, um enorme problema.

- Eu, a única coisa que conhecia, para ser completamente aberto e honesto como devo ser... não apenas responder com verdade, mas com franqueza, era que o engenheiro Carlos Santos Silva era um homem com posses, ligado desde sempre a empresas na área da consultadoria dos projetos na área da construção civil (...) Eu vivo do meu trabalho e sempre vivi. Nunca tive meios de fortuna e vivi sempre com a ajuda da minha mãe e a primeira consequência que eu queria tirar daqui é que lamento que algumas dificuldades financeiras que eu tenho possam ser aproveitadas contra mim e contra a minha honestidade. Lamento muito que isso seja feito. Quero contestar que o Carlos Santos Silva me tenha entregue através de outras pessoas as quantias que aqui estão porque são exageradíssimas. Mas devo dizer-lhe que é verdade que o Carlos Santos Silva de onde a onde me emprestava dinheiro. É mesmo assim. Porque eu tenho pouco e sei que ele é um homem de posses e de vez em quando pedia-lhe dinheiro.

Operação Fizz: Juiz Carlos Alexandre após audição no Campus de Justiça
O juiz de instrução Carlos Alexandre acompanhou o processo até à acusação do Ministério Público créditos: JOÃO RELVAS/LUSA

- Dinheiro esse que devolveu...

- Não, não, é que ainda não devolvi nada...

- Não devolveu nada...

- Não devolvi nada, mas... não devolvi nada, não... vamos lá ver... algumas coisas fui devolvendo ao longo da vida, mas sei que tenho para com ele uma dívida que procurarei pagar. No final de 2012, 2013, tive dificuldades financeiras porque tenho várias... foi uma grande ajuda e eu já pensei até, para ser honesto... aliás, o que tenho pensado para devolver  dinheiro que o Carlos me emprestou... em penhorar de novo a minha casa. A minha mãe tem insistido para que eu não o fizesse porque ela também tem intenções de me fazer uma doação de casa que ela tem, enfim, mas é uma coisa em que ando a pensar. Mas é verdade que ao longo destes últimos anos tenho passado pelas dificuldades financeiras que, pela leitura que faço daqui, os senhores bem conhecem.

Sócrates: "Quero contestar que o Carlos Santos Silva me tenha entregue através de outras pessoas as quantias que aqui estão porque são exageradíssimas. Mas devo dizer-lhe que é verdade que o Carlos Santos Silva de onde a onde me emprestava dinheiro. É mesmo assim. Porque eu tenho pouco e sei que ele é um homem de posses e de vez em quando pedia-lhe dinheiro."

Sim, claro que conhecem. Há muito que Rosário Teixeira investiga a relação financeira pouco ortodoxa entre os dois amigos. E agora tem uma oportunidade única para a clarificar. Alexandre lança uma casca de banana para os pés de Sócrates...

- Se pudesse quantificar esses empréstimos, como diz, do senhor engenheiro Silva, computaria isso mais ou menos em que termos?

... e o ex-PM escorrega...

- Pois, isso é muito difícil de dizer, mas eu tenho uma ideia... quer dizer... mas nada que se pareça...

- ... está bem, mas que ideia é que tem?

- Que ideia é que tenho...

- Grosso modo...

Para Sócrates tudo aquilo é mesquinho: o juiz, o procurador, as dúvidas, as interrogações sobre o vil metal. Há uma muralha imensa que o separa das pessoas que tem à frente. Mas tem de prosseguir.

- ... grosso modo... sabe, senhor juiz, eu quero responder a tudo, não quero que fique nenhuma pergunta por responder, mas eu posso dizer-lhe o seguinte... quer dizer, eu fui confrontado com isto ontem...

- Eu sei, eu sei...

- ... e talvez eu pudesse responder... porque eu próprio tenho de fazer...

Sócrates está confuso, quer ganhar tempo­ – tempo que Alexandre não quer dar-lhe. Tem de o fazer falar,  de o obrigar a fazer já, agora, neste instante, uma viagem pelo seu passado recente sem que saia do lugar.

- ... mas tem um apanhado dessas importâncias que lhe foram entregues?

- Quer dizer, tenho uma ideia, mas eu gostaria de eu próprio verificar com os meus papéis, com as minhas faturações, para confirmar porque há aqui muitas coisa que, desculpe, isto não é verdadeiro! Mas eu não sei dizer o que não é verdadeiro e o que é verdadeiro.

Pois. E é essa incapacidade o seu problema maior naquele instante. Porque Rosário e Alexandre não acreditam na virgindade plácida exibida por Sócrates, esmagado por uma circunstância e um cenário que há escassos dias seriam de uma irrealidade profunda.

Sócrates: "Eu, a única coisa que conhecia, para ser completamente aberto e honesto como devo ser... não apenas responder com verdade, mas com franqueza, era que o engenheiro Carlos Santos Silva era um homem com posses, ligado desde sempre a empresas na área da consultadoria dos projetos na área da construção civil (...) Eu vivo do meu trabalho e sempre vivi."

A dupla tem à sua frente, em cima da mesa despida da sala em que decorre o interrogatório, indícios que considera incontestáveis. Todos apontam no mesmo sentido: que no início de 2011 Santos Silva e José Sócrates decidiram implementar um plano cujo objectivo último era fazer chegar ao ex-PM em forma de dinheiro vivo elevadas quantias pecuniárias alegadamente resultantes de atos de corrupção de  Sócrates no exercício de funções públicas.

Ao todo, o MP acredita que Sócrates, através de Santos Silva, terá “faturado” várias dezenas de milhões de euros, depositados em contas offshore sediadas na suíça. Da Suíça, o dinheiro teria retornado a Portugal ao abrigo do RERT, o regime extraordinário de regularização tributária criado pelo governo de José Sócrates com o objectivo de facilitar a entrada em Portugal, com grandes vantagens fiscais, de capitais depositados no estrangeiro.

Sócrates pedia, Santos Silva arranjava e fazia-lho chegar quer pessoalmente, em encontros em casa do seu amigo, quer através de envelopes entregues a João Perna, o motorista de Sócrates. Os “livros” e “fotocópias” serviam para quase tudo: para pagar roupa, salários, rendas, condomínios, viagens de dezenas de milhares de euros e até presentes de Natal.

A partir do momento em que o dinheiro – que nunca esteve em contas cujo último beneficiário fosse José Sócrates - entrou em Portugal e, à imagem do que sucedera na Suíça, foi depositado em nome de Carlos Santos Silva, alegado  “testa de ferro” de Sócrates, o seu trânsito foi imparável. Envelopes com milhares de euros circularam pelas ruas de Lisboa. Ao todo, terão sido entregues a José Sócrates 1,1 milhões de euros em dinheiro vivo. Ainda segundo a narrativa do Ministério Público, o esquema era sempre o mesmo: Sócrates pedia, Santos Silva arranjava e fazia-lho chegar quer pessoalmente, em encontros em casa do seu amigo, quer através de envelopes entregues a João Perna, o motorista de Sócrates. Os “livros” e “fotocópias” serviam para quase tudo: para pagar roupa, salários, rendas, condomínios, viagens de dezenas de milhares de euros e até presentes de Natal. Para reforçar a sua tese, o Ministério Público sublinha que, nos telefonemas em que solicitava o envio de quantias monetárias, o ex-primeiro-ministro não pedia – ordenava.

José Sócrates
José Sócrates na noite em que saiu do Estabelecimento Prisional de Évora, onde esteve preso preventivamente créditos: JOÃO RELVAS/LUSA

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O APARTAMENTO EM PARIS DE SANTOS SILVA QUE O MP DIZ SER DE SÓCRATES

"Pai, o problema é que... se não dá para falar destas merdas ao telemóvel porque é que não fazes aquilo em pessoa?"

Agosto de 2012

Carlos Santos Silva adquire um apartamento de luxo em Paris situado na Avenue President Wilson, nº 15. Preço: cerca de 2,8 milhões de euros. Apenas um mês depois, Sócrates que tinha ido viver para a capital francesa na sequência da derrota eleitoral contra Pedro Passos Coelho, deixa a sua casa do bairro 16 e muda-se para o imóvel, que habita entre Setembro de 2012 e Julho de 2013, altura em que, já depois de um investimento de 73.698 euros na compra de mobiliário, se decide que a casa precisa de umas obras. Mas o que parece ser uma decisão pacífica revelar-se-á um autêntico inferno por causa dos atrasos constantes do gabinete de arquitetura contratado (e ao qual seria pago um total de 480 mil euros).

Sofia Fava, ex-mulher de Sócrates, é obrigada a ir morar com Duda, o filho de ambos, para um aparthotel, deixando as suas roupas e restantes pertences na President Wilson. Por causa disso, as suas conversas com Sócrates tornam-se cada vez mais azedas. A sua ex-mulher não percebe porque demoram tanto as obras, está farta da rotina do hotel – e já não aguenta as reclamações de Duda que, face à impotência exibida pela mãe, decide ligar ao pai.

Quinta-feira, 12 de Dezembro de 2013

São 17h48 quando o telefone de José Sócrates toca. Do outro lado da linha está Duda. Que não tem coisas agradáveis para lhe dizer.

- Pai, o problema é que... se não dá para falar destas merdas ao telemóvel porque é que não fazes aquilo em pessoa? Pai, já estou farto de estar a viver num...

Sócrates tenta pôr um pouco de água na fervura.

- Eu sei, eu sei. Mas agora está quase.

Eduardo insiste. Tem dúvidas sobre as intenções do pai relativamente ao futuro da casa.

- Porque depois, o que é que vai acontecer lá?

O ex-PM é apanhado de surpresa.

- O que é que vai acontecer?? Então, vocês mudam-se para lá, pá! Não estou a perceber... qual é a tua pergunta? A casa está quase pronta!

Eduardo está longe de acreditar nisso.

- Pai, está quase pronta para ser vendida... Ou pelo menos foi isso que tu me disseste. Mas já ouvi tantas teorias diferentes, não sei... pronto, não posso falar coisas assim ao telemóvel, por isso não vou falar.

Sócrates irrita-se. Está farto de tanta pressão. Anda há meses a tentar, sem sucesso, resolver o assunto. Se há culpados, ele não é seguramente um deles. Não vai deixar que o continuem a massacrar.

- Desculpa lá, mas o que é que eu te disse?; que ia ser vendida? Quem é que te disse isso?? Desculpa lá, não percebo! Já te disse que vocês vão para lá assim que estiver pronto, pá! Mas o que é que eu tenho de dizer mais, pá?! O que é que eu tenho de dizer mais???? Já pedi desculpa, pensei que aquilo demorasse menos. Passa-me aí à mãe, por favor...

Sofia Fava pega no telefone. Mais calmo, Sócrates pede-lhe para ir ver pessoalmente a evolução da obra. Ela resiste.

- Eu vou lá ver, mas o dono da obra é que devia ir lá ver porque não vai ser só mais uma semana. Aquilo está exatamente como estava quando tu lá estiveste.

- O dono da obra já falou para lá! Eu próprio falei, está bem? O que eu teço é para ires lá ver amanhã, se faz favor. Eu contava ir aí esta semana mas estou doente. Ninguém compreende isso também? Estou doente, pá! Tenho estado com febre.

- Mas não és tu quem tem de vir.

- Sou eu que tenho de lá ir, sou eu, pá. Aqui têm feito o que puderam. Eu tenho de ir lá também. Mas infelizmente não posso, por isso estou a pedir: vai lá tu e tem uma conversa com ele dizendo que tem de ter isso pronto antes de tu te vires embora. Queres que marque lá com o arquiteto para amanhã?

Sofia resiste de novo...

- Eu acho que o dono é que devia falar com o arquiteto, não sou eu.

... e Sócrates explode definitivamente.

- Já falou!!!!! Porra!!!!! Quantas vezes é que eu tenho de te dizer?????!!!!!

- Não é falar, é ir lá.

- Não posso ir lá! (...) Tu não sabes o que são obras? As coisas nunca são de acordo como planeado!

A chamada termina tensa. Sócrates tem de resolver aquilo de uma vez por todas, de exigir a Carlos Santos Silva que encoste o arquiteto à parede, que o ameace, que faça o que quiser, mas que acabe com aquele pesadelo. São 18h03 quando marca o número do amigo.

- Tenho lá a malta à beira de um ataque de nervos com aquela merda [casa em Paris].

Carlos sente-se incapaz de resolver o assunto, não consegue falar com o arquiteto, que não lhe atende as chamadas, mas que vai atender. E atende mesmo, uma vez que passadas duas horas Santos Silva liga de volta a Sócrates, com a garantia de que até dia “18 ou 20” a obra estaria pronta.

Há muito que os dois amigos falavam sobre a remodelação do apartamento. Numa das conversas telefónicas mais valorizadas pelo Ministério Público no âmbito da Operação Marquês, a dupla discute detalhes sobre o chão. Santos Silva quer orientações.

- Olha, lá o senhor...

- ... sim...

- Aquela cor que... tu... que foi escolhida para o chão, na opinião dele devia ser um bocadinho mais clara.

- Está bem.

- Aquilo que tu escolheste é muito escuro. O que é que lhe digo?

- Está bem, então... que faça.

- Mas ele tem de decidir como é que tu queres não é?

- Sim. Mas que faça rápido, não é?

- Sim, sim, sim, ok...

- Porra. Foda-se! Já estamos no...

- Vou ligar-lhe.

- Pois, diz-lhe já, pá!

- Ele já pôs a dúvida há dois ou três dias, eu é que não...

- Eh pá, está bem, mas então responde já, que eu quero lá ir...

- Então fica a outra cor e ele que te faça isso.

- Sim, que faça o que ele quer, mas que faça depressa.

- Está bem. Está tranquilo.

- Mas não e muito mais claro, pois não?

- Não. Ele até mandou uma foto.

- Está bom.

- Ok, vou já tratar disso.

No interrogatório a José Sócrates aquando da detenção, o juiz Carlos Alexandre confrontou-o com o áudio deste diálogo...

- Senhor engenheiro, não posso deduzir desta conversa que aquilo que lhe é pedido não é uma sugestão, é um consentimento?

... mas Sócrates valeu-se da retórica, uma das suas qualidades mais unânimes.

- Não. Não, não pode. Porque... o que me é pedido é a minha concordância para uma alteração de uma sugestão que eu próprio tinha dado. E talvez ele até pensasse que... que eu tenho melhor gosto. E é muito importante que se perceba o seguinte: há muitas pessoas que por gentileza... referem... o verbo... poder, em vez de dever. Este é talvez um dos casos. Quando o engenheiro Carlos Santos Silva me pergunta se pode alterar, no fundo o que ele está a perguntar é se deve alterar. É uma forma de nos dirigirmos às pessoas, muitas vezes por gentileza. Perguntamos: “Posso alterar?” no sentido seguinte: “Achas que devo alterá-lo? Estou a fazer mal ao dar-lhe autorização para essa alteração?”

A explicação não comoveu Carlos Alexandre, que na sequência do interrogatório escreveu o que se segue: “Apesar de estar registado em nome de Carlos Silva, o referido apartamento sempre foi, na realidade, apenas ocupado por José Pinto de Sousa, que ocasionalmente o decidia emprestar a terceiros, que decidiu a realização das obras no mesmo e escolheu as alterações a serem feitas e que decidiu ainda colocar o mesmo em venda, quando a imprensa portuguesa começou a suscitar suspeitas sobre as suas relações com o Carlos Silva.”

A explicação não comoveu Carlos Alexandre, que na sequência do interrogatório escreveu o que se segue: “Apesar de estar registado em nome de Carlos Silva, o referido apartamento sempre foi, na realidade, apenas ocupado por José Pinto de Sousa.

Em entrevista escrita que concedeu à SIC no pós-detenção, Sócrates revelou alguns detalhes sobre as suas opções: “Em 2011, depois de sair do Governo, aluguei um apartamento em Paris, onde vivi um ano. Só mais tarde, a partir de meados de 2012, e por cerca de 10 meses, habitei num outro apartamento, o tão falado "apartamento de luxo" de que é proprietário o meu amigo Engº Carlos Santos Silva. Residi aí apenas enquanto não começaram as obras de restauro que ele tinha planeado para recolocar esse apartamento no mercado (como de facto fez, a partir de finais de 2013). Assim, quando as obras começaram (Verão de 2013), saí desse apartamento, tendo a minha família passado a viver num aparthotel, durante cerca de 4 meses (Setembro a Dezembro de 2013). Depois, desde Janeiro de 2014, aluguei um novo apartamento, onde vivi, e viveu também a minha família, ao longo do último ano. No momento em que escrevo, ainda estou a pagar essa renda (sendo que o contrato termina em 31 de Dezembro de 2014) (…) Toda a tese da investigação sobre as casas de Paris, além de falsa, é um verdadeiro monumento ao absurdo. Vejamos: através do meu amigo, eu teria comprado um apartamento de luxo para morar durante o meu curso em Paris; por razões que a razão desconhece, em vez de escolher um apartamento pronto a habitar, fui logo escolher um apartamento que precisava de obras; e quando terminaram as obras, em vez de ir morar para lá, "à grande e à francesa", acabei afinal por ir morar para outro lado, um apartamento mais pequeno que aluguei e tive de pagar! Creio que todos já terão compreendido o óbvio: nada disto faz sequer sentido.”

Carlos Santos Silva nunca falou publicamente sobre o tema. Mas Paula Lourenço, a sua advogada, na resposta à indiciação do Ministério Público, é bastante contundente: “O apartamento não foi pago com fundos de contas do ora recorrente, precisamente com fundos que resultaram da transferência da conta da Suíça ao abrigo do RERT 2?” Mais: “Há alguma ilegalidade na cedência para habitação temporária de um amigo? E qual seria o problema se o ora recorrente tivesse efetivamente comprado o apartamento com o único propósito de permitir ao amigo uma habitação condigna enquanto este permanecesse em Paris?” E conclui: “[Carlos Santos Silva] tem o direito de exigir que o modo como honra as suas amizades e ajuda os seus amigos seja pelo menos respeitado, mesmo que incompreendido, porque o ato de ajudar os amigos não está tipificado como crime na lei portuguesa e os tribunais estão ainda sujeitos ao princípio da legalidade. Só o ato contrário à lei é crime, e ajudar os amigos, com mais ou menos generosidade, não é contrário à lei e é um ato aprovado pela moral.”

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O SEGUNDO INTERROGATÓRIO: AS VIAGENS E A VIDA DE LUXO. SÓCRATES AO ATAQUE

"Mas será que isso vale alguma coisa para a sua cabecinha? Duvido."

Quando abandonara a cadeia de Évora em direção ao Departamento Central de Investigação e Ação Penal, Sócrates avisara os colegas de cárcere: depois de falar com Rosário Teixeira não restaria pedra sobre pedra – e não restou mesmo. A conversa tem momentos frios (poucos); mornos (alguns) e muitos fervilhantes. Um dos mais escaldantes acontece quando é abordada a fortuna gasta por Sócrates e Santos Silva em viagens com namoradas, família e amigos. Rosário Teixeira acredita que quem paga é Sócrates, mas a verdade é que as faturas se encontram em nome de Carlos Santos Silva.

- (...) Alguma vez o senhor Santos Silva lhe ofereceu a si uma viagem ou a parte da sua família?

Sócrates não nega. Mas também não vê onde está o problema. Parte para cima de Rosário Teixeira.

- Não posso dizer que nunca tenha acontecido, pelo contrário, acho que eu disse no primeiro interrogatório, por exemplo, no ano passado, 2014 [em que os amigos se deslocaram à ilha espanhola de Formentera], que foi o Carlos Santos Silva que pagou a casa. Valerá a pena dizer que eu paguei todos os jantares? Mas o senhor procurador não lhe interessa nada disto, pois não? Ainda pode, ainda aparecerá no Correio da Manhã a dizer ‘ai, ele até se desculpou com os jantares’(...) isto é tão difícil de aceitar, deixa-me... deixa-me... deixa-me uma impressão horrível sobre o nosso Estado de Direito, é que o MP não tenha vergonha de fazer imputações que ofendem o Estado de Direito, um órgão de soberania, o primeiro-ministro, o ministro, vários júris, sem nenhuma base!

Quando abandonara a cadeia de Évora em direção ao Departamento Central de Investigação e Ação Penal, Sócrates avisara os colegas de cárcere: depois de falar com Rosário Teixeira não restaria pedra sobre pedra – e não restou mesmo. A conversa tem momentos frios (poucos); mornos (alguns) e muitos fervilhantes.

Na verdade, há uma base para as desconfianças de Rosário Teixeira acerca da viagem a Formentera: a fatura de 18 mil euros que foi debitada a Carlos Santos Silva e as escutas realizadas ao seu telefone antes do período de férias, em que surge em diálogos cruzados com Fernanda Câncio, Santos Silva e Nazaré Soares, funcionária da agência de viagens Top Atlântico. Numa delas, realizada a 4 de Julho, a jornalista Fernanda Câncio afirma “estar cheia de dores de cabeça” de tanto procurar por locais. Pergunta a Sócrates se quer ir para a Turquia, procura soluções na Itália, recusa a hipótese Marrocos sugerida pelo namorado... até que Sócrates propõe Formentera – e encarrega o amigo Carlos de tratar do assunto.

Mas há mais. Rosário coloca outra viagem em cima da mesa: a que Sócrates realizou a Veneza na passagem de ano de 2009 para 2010 na companhia de vários familiares.

- Olhe, até tem uma referência boa, infelizmente, porque o falecimento do seu irmão em 2011 será uma boa referência. Ou seja, nessa viagem foi a Tânia, Gouveia, António Sousa, o seu irmão falecido, Ana Maria, Constança, João Vitorino, Eduardo Sousa, José Miguel Sousa e o senhor engenheiro José Sócrates. Esta viagem, recorda-se dela?

Depois de inicialmente negar, o ex-PM acaba por avivar a memória quando o inspetor Paulo Silva acrescenta um dado: Sócrates não só estivera em Veneza em 2009, como também o fizera em 2008.

- Sim, sim, sim, recordo. Mas vou-lhe dizer uma coisa que o senhor procurador ouviu e talvez você não tivesse ouvido. Eu sou amigo do Carlos Santos Silva desde os bancos do liceu, mas sou amigo do pai, sou amigo da mulher, da filha, sou amigo do primo, que foi reitor na Universidade da Covilhã. O Carlos Santos Silva trabalhou com o meu pai, ele foi engenheiro, o meu pai era arquiteto na Covilhã, trabalharam durante muitos anos juntos. O Carlos Santos Silva era talvez o melhor amigo do meu irmão. O melhor amigo do meu irmão! O melhor amigo! Por isso o que é que eu lhe posso dizer? Você está-me a dizer o quê? O que é que quer saber?

Paulo Silva parece aguentar bem a retórica catártica do preso mais conhecido do país. Prossegue.

- Sabia que em 2009/2010 que foi paga pelo senhor engenheiro Carlos Santos Silva no montante de 45 mil euros?

- Sim.

"O Carlos Santos Silva era talvez o melhor amigo do meu irmão. O melhor amigo do meu irmão! O melhor amigo! Por isso o que é que eu lhe posso dizer? Você está-me a dizer o quê? O que é que quer saber?", questiona José Sócrates.

Rosário entra na conversa.

- Essa relação de amizade explica esses pagamentos, é isso?

- Não, a relação de amizade com o meu irmão. Porque eu, eu nem me lembro de ter passado sequer um fim de ano com o meu irmão. Não me lembro. Eu lembro-me de passar um fim de ano em Veneza, sim.

Paulo Silva insiste...

- E no ano anterior também fez a Veneza, também no fim de ano, de 2008 para 2009, em que aí já foi o senhor engenheiro, os seus dois filhos e a Fernanda Câncio.

“A” Fernanda Câncio?! Sócrates fica possesso. Exalta-se. Acha que a sua ex-namorada merece outro tipo de tratamento. Torna-se implacável.

- A Fernanda Câncio? É assim que você se refere às pessoas?? A senhora Fernanda Câncio! A Fernanda Câncio...

- Eu ainda há bocado falei, referi nomes...

- A senhora Fernanda Câncio!

- Referi em, os que foram...

- A senhora Fernanda Câncio, se faz favor!

- Eu estou a ler.

- Pois, está bem.

- Peço desculpa, mas...

- ... pronto, as desculpas estão aceites.

- Não sei se é doutora. Tenho de tratar por doutora?

- Não, não. A senhora Fernanda Câncio é a única coisa que eu exijo.

"Eu fui passar férias com o Carlos Santos Silva, ele pagou a casa, eu paguei todos os jantares. Mas será que isso vale alguma coisa para a sua cabecinha? Duvido."

Ultrapassado o incidente diplomático, Sócrates reconhece que se recorda das duas viagens. Paulo Silva pergunta-lhe se se lembra também que foi Carlos Santos Silva quem as pagou.

- É possível. É possível.

- E nas duas circunstâncias a fatura estava emitida em seu nome e depois foi anulada e foi passada para o nome dele.

- Você acha isso estranho?

- Não, estou a perguntar...

- Acha isso estranho???

- ... se ele, se ele pagou...

- Ah, muito estranho... estranhíssimo, isto dá caso de prisão. Temos de o meter na prisão...

Paulo Silva não desiste. Até que Sócrates perde a paciência.

-Eu fui passar férias com o Carlos Santos Silva, ele pagou a casa, eu paguei todos os jantares. Mas será que isso vale alguma coisa para a sua cabecinha? Duvido.

As dúvidas de José Sócrates são sustentadas. De facto, o que não entra na “cabecinha” de Paulo Silva – e, já agora, nas de Rosário Teixeira ou de Carlos Alexandre – é que, no fim da linha, quem paga verdadeiramente a conta – a total, não apenas os jantares – é o próprio José Sócrates, que acreditam ser o real dono dos milhões alegadamente angariados a partir de esquemas de corrupção e devidamente escondidos em offshores em nome de Carlos Santos Silva. E por mais que os dois amigos batam desesperadamente no peito enquanto fazem juras de honestidade, a realidade profunda é que os investigadores têm escassas dúvidas de que para Sócrates e Santos Silva a honestidade é um bem escasso e, por isso, utilizado com infinita parcimónia.

 

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