Eram 22h00 quando Jorge Coelho, que jantava com um grupo de amigos num restaurante do Bairro Alto, recebeu a chamada fatal do seu assessor de imprensa, António Capinha:

- Está? Tenho más notícias: houve um acidente grave em Entre-os-Rios…

- O que aconteceu exatamente?

- Ainda não sei grandes pormenores mas sabe-se que caiu uma ponte quando por lá passava um autocarro de passageiros…

- Quero saber rapidamente a dimensão do acidente, temos de reagir já!

O ministro terminou abruptamente o jantar e ligou imediatamente a António Guterres:

- António, temos aqui um problema.

- O que foi?

- Uma ponte caiu em Entre-os-Rios. Ainda não sei muitos detalhes, mas temos de estar atentos. Estou agora a ir para o Ministério.

- Acompanha a situação e quando souberes mais detalhes liga-me.

Já passava da uma da manhã quando saiu para a rua. Tinha de pensar. Estava na iminência de tomar a decisão política mais importante da sua vida. Naquele instante era claro para si que o sonho que projetara com o seu amigo António Guterres estava prestes a terminar. Atravessou a escuridão das ruas de Oeiras. Fez um flashback da sua vida política. As memórias eram entrecortadas pelas imagens da ponte destruída.

O telefone tocou de novo. Era Capinha, com dados mais sólidos: a derrocada de um pilar da ponte Hintze Ribeiro, que unia Entre-os-Rios a Castelo de Paiva, provocara o afundamento de um autocarro de passageiros e de duas viaturas ligeiras. Havia mortos e cerca de 70 desparecidos. Uma tragédia. Nessa altura já o jantar terminara de forma abrupta. Era urgente falar de novo com o Primeiro-Ministro.

- António, isto é uma tragédia brutal. Há mortos, pá! As pessoas vinham de um passeio e a ponte ruiu. Já dei instruções aos meus dois secretários de Estado [Luís Parreirão e José Junqueiro] para seguirem para lá.

- Fizeste bem, eles que nos mantenham informados.

- E eu acho que temos de retirar consequências políticas disto, pá!

Pela primeira vez naquela noite utilizaria uma expressão que repetiria à exaustão:

- A culpa não pode morrer solteira.

O ministro do Equipamento Social conhecia bem a ponte Hintze Ribeiro. Tinha lá estado quatro dias antes, quando, aproveitando uma visita a um amigo de Penafiel – Agostinho Gonçalves, socialista e ex-presidente da autarquia -, aproveitou para ir verificar in loco os problemas que sabia existirem no pavimento.

As notícias continuavam a chegar. Mais mortes confirmadas. Ainda mais corpos por encontrar. Sentado sozinho no seu gabinete, pensava nas famílias das vítimas. Como explicar uma fatalidade daquela dimensão? O que poderia ele fazer para atenuar a dor de mulheres que ficaram sem maridos, de crianças que ficaram sem pais? Perdera o seu pai com apenas seis anos; sabia o que é crescer sem um. Tinha de tomar uma decisão radical.

Jorge Coelho
Morreram 59 pessoas na sequência da queda da ponte de Entre-os-Rios créditos: © 2016 LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A.

Foi para casa e falou com a mulher e a filha. As duas disseram-lhe o que muitos lhe tinham dito nessa noite: que a culpa não era sua. Mas apoiaram-no sem reservas na intenção de se demitir.

Já passava da uma da manhã quando saiu para a rua. Tinha de pensar. Estava na iminência de tomar a decisão política mais importante da sua vida. Naquele instante era claro para si que o sonho que projetara com o seu amigo António Guterres estava prestes a terminar. Atravessou a escuridão das ruas de Oeiras. Fez um flashback da sua vida política. As memórias eram entrecortadas pelas imagens da ponte destruída. Era um fardo demasiado pesado. Tinha de tomar uma decisão definitiva. Já em casa, ligou ao seu assessor de imprensa:

- António, quero que marques uma conferência de imprensa.

- Para quando?

- Para daqui a pouco, pode ser para as três da manhã. Não digas aos jornalistas qual é o objectivo da conferência. Diz-lhes só que vou comunicar algo de importante.

Faltava fazer o telefonema mais marcante da sua carreira – aquele em que comunicaria ao seu amigo António o fim da aventura conjunta.

- António, acabo de convocar uma conferência de imprensa para anunciar a minha demissão.

- Jorge, não tens de fazer isso. É um exagero da tua parte, garanto-te!

- Eh pá, andamos nisto os dois há vinte anos. Tenho de sair para salvar o que já construímos, temos de defender o projecto. Vou fazer isto não só por mim mas também por ti, pá, pelo projecto, por tudo.

- Mas não tem de ser assim, Jorge…

- Não há outra forma. Uma coisa desta dimensão exige uma tomada de posição radical. São muitos mortos, pá. Temos de dar o exemplo. Se não saio isto vira-se contra ti.

- Não faças nada antes de voltarmos a falar. Vou ter contigo ao Ministério.

- Não vale a pena, pá. A minha decisão está tomada.

Já a caminho da conferência de imprensa, ligou aos seus secretários de Estado, José Junqueiro e Luís Parreirão. Os dois tentaram dissuadi-lo. Sem efeito. Já passava das duas da manhã quando atravessou de novo as portas do Ministério. Ao chegar, a sua equipa esperava-o. A consternação era generalizada. Queriam estar com o chefe, prestar-lhe solidariedade e apoio. Este, pelo contrário, precisava de espaço, de respirar. Aquele era o seu momento. Pediu-lhes que o deixassem sozinho. Eram três e meia da manhã quando começou, com todas as televisões em direto, a anunciar o seu requiem.

Poucos meses antes, em Setembro de 2010, escrevera uma carta a Fernando Gomes no momento em que aquele abandonava, derrotado, a liderança do Ministério da Administração Interna, na sequência de uma série de escândalos públicos. Escreveu: "Deixa lá, Fernando, talvez o próximo a sair seja eu!..." E foi mesmo.

Começou por falar ao coração dos que mais sofriam nessa noite: “Quero apresentar as minhas sentidas condolências às famílias enlutadas...” Depois divagou sobre as vicissitudes da democracia: “O conceito que tenho do exercício do poder político faz com que a culpa não possa morrer solteira e perante uma situação como esta têm de se tirar consequências políticas…” Logo a seguir, retirou-as: “Já solicitei a minha demissão de ministro do Equipamento ao Primeiro-Ministro e considero que não tenho condições para continuar a exercer o cargo que venho exercendo até ao momento...” Terminou com algumas palavras sobre Guterres: “Lutei muito por ele e lutarei muito por ele. O país tem um grande Primeiro-Ministro, que me terá sempre a seu lado.”

Depois de ter perdido o seu braço-esquerdo – António Vitorino -, o líder do Executivo via-se assim amputado do braço que lhe restava – a partir daquele momento estava por sua conta. Finalizada a declaração, Coelho foi conduzido a casa por Rui Henrique, o seu motorista durante anos. Esperavam-no Cecília e Maria João. Não dormiu, claro. Sentou-se no sofá com o comando de televisão na mão. Foram horas de zapping, de canal em canal, sempre à procura de novidades sobre o acidente. Sentia-se derrotado. Tantos anos de luta, tantas centenas de milhares de quilómetros percorridos, tantos jantares, tantos comícios, tantos apertos de mão, tantos compromissos e tantos discursos depois, olhava para si, afundado naquele sofá, e sentia que não merecia ter acabado assim. Sim, estava de consciência tranquila; sim, tinha tomado a única decisão digna que conhecia. Mas nada apagava o facto de terminar daquela forma, vergado perante uma tragédia que não deixa ninguém ficar bem na fotografia. Poucos meses antes, em Setembro de 2010, escrevera uma carta a Fernando Gomes no momento em que aquele abandonava, derrotado, a liderança do Ministério da Administração Interna, na sequência de uma série de escândalos públicos. Escreveu: "Deixa lá, Fernando, talvez o próximo a sair seja eu!..." E foi mesmo.

Nota: O teor deste texto é baseado no livro "Jorge Coelho - O Todo-Poderoso", da autoria de Fernando Esteves, diretor do Polígrafo

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