Este domingo, 9 de novembro, foi publicada uma notícia da agência Lusa que indicou que Gouveia e Melo teria decidido entrar na corrida à Presidência da República depois de ler um artigo do semanário “Expresso” que dizia que Marcelo Rebelo de Sousa queria travar a candidatura do almirante a Belém através da sua recondução como chefe do Estado-Maior da Armada.
Em causa estariam declarações do candidato presidencial no livro “Gouveia e Melo – As Razões”, elaborado com base em entrevistas à jornalista Valentina Marcelino.
O que foi dito no livro?
A 10 de novembro, foram publicadas na página oficial da candidatura presidencial do almirante as três páginas nas quais se encontram as declarações de Gouveia e Melo envoltas em polémica.
Questionado sobre a sua decisão de deixar a Marinha para entrar no mundo político, Henrique Gouveia e Melo explicou que “algures em setembro de 2024” avisou o Conselho do Almirantado “que não estaria disponível para continuar” se a sua presença não fosse “realmente decisiva para uma mudança no rearmamento e na forma como o poder político olhava para a Marinha”. O almirante afirmou também que sempre achou “que só devia desempenhar funções quando essas funções pudessem fazer a diferença” e que “não iria impedir a progressão de um outro camarada só para ficar mais dois anos como um príncipe no palácio, a cortar fitas”.
“A conclusão a que cheguei foi que as pessoas queriam que eu ficasse pelos piores motivos. O poder político, apesar da guerra e de todos os problemas, não estava verdadeiramente interessado em mudar nada nas Forças Armadas nem na defesa – como, aliás, parece ainda não estar, apesar de muita retórica. Falam, falam, falam… mas depois não concretizam nada. E eu apercebi-me disso. Foi nesse período que saiu o artigo no ‘Expresso’ a dizer que eu estava a chantagear o Governo…”
Depois de ter mencionado o artigo do jornal, Gouveia e Melo é questionado sobre se este marcou “o momento exato” em que decidiu candidatar-se. “Foi esse artigo que me fez definir o rumo. Porque quando o li, fiquei mesmo danado. Não sei quem é que inspirou o título com a palavra ‘chantagear’, mas não gostei.”
Em rigor, a palavra “chantagear” não está no título do artigo em causa. No versão do site do jornal, o título é “Almirante quer mais dois submarinos para ficar na Armada e desistir de Belém”. Na formulação que se encontra na versão impressa do semanário lê-se: “Almirante aceita ficar e desistir de Belém se Governo comprar mais dois submarinos.”
O almirante acrescentou ainda nunca ter exigido nada ao ministro da tutela para continuar e nunca ter feito “qualquer chantagem” ou colocado condições. “Porém, de facto o Governo – e também o Senhor Presidente da República – não pareciam interessados em nada da defesa, para além de fazerem umas correções nos ordenados dos militares. Assim, deduzi que o que pretendiam era que eu ficasse amarrado à Marinha com o eventual ‘prémio’ de, no fim, poder ser CEMGFA [Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas] e atingir o topo da carreira militar.”
No livro “As Razões”, Gouveia e Melo considerou ainda que “queriam” dar-lhe “importância”, mas sem o poder “para poder fazer nada”. “Foi aí que decidi: vou entrar no campo das verdadeiras decisões, a política. Achei que havia um certo autismo aos ventos de mudança e um alheamento perigoso do que se aproximava, principalmente com a indeterminação da possível reeleição de Trump, somada a tudo o que se estava a passar na cena internacional. Pensei, ‘se os senhores não estão sequer preocupados, ficar não faz sentido, o meu contributo só poderá ser útil cá fora, precisamente no meio político’.”
O artigo do “Expresso” que é mencionado no livro
O artigo que terá feito Gouveia e Melo “definir o rumo” e que o deixou “danado” foi um artigo de 3 de outubro de 2024 intitulado “Almirante quer mais dois submarinos para ficar na Armada e desistir de Belém”.
No entanto, importa notar que a informação sobre Marcelo não consta do título nem da “chantagem” mencionada por Gouveia e Melo. Trata-se de uma interpretação com base numa numa nota incluída no livro, em que se lê o primeiro parágrafo completo da notícia: “O Presidente da República gostava de reconduzir o almirante Gouveia e Melo por mais dois anos no cargo de chefe do Estado- -Maior da Armada (CEMA) – para lhe travar uma candidatura presidencial –, mas o militar, que continua a liderar as sondagens para Belém, só aceitará ficar à frente da Marinha se tiver garantias de que o Governo vai aumentar o investimento de forma significativa na força naval portuguesa, apurou o ‘Expresso’. Caso não tenha essa segurança até ao fim do mandato, que termina a 27 de dezembro, Gouveia e Melo seguirá para a vida civil e deverá ponderar se avança ou não para uma candidatura presidencial, possibilidade que tem mantido em aberto.”
É também com esta nota que a Lusa justifica tal interpretação e rejeita o desmentido do Almirante.
Gouveia e Melo rejeita ter desistido da candidatura por causa de Marcelo
Posteriormente à publicação do artigo da Lusa, a candidatura de Henrique Gouveia e Melo divulgou no site oficial um comunicado na qual considerou a notícia “falsa e enferma de uma falta de rigor inaceitável”.
“O almirante Henrique Gouveia e Melo não se refere, em momento algum, durante a entrevista, concedida à jornalista Valentina Marcelino, realizada para o livro ‘As Razões’ como tendo sido o Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa, ou qualquer declaração sua, a motivação para se candidatar à Presidência da República”, lê-se no comunicado.
Pouco tempo depois, a Direção de Informação da Lusa emitiu uma nota na qual afirmou que “no livro, Gouveia e Melo diz expressamente que foi um artigo publicado no ‘Expresso’, a 03 de outubro de 2024, sob o título ‘Almirante quer mais dois submarinos para ficar na Armada e desistir de Belém’, que o levou a ‘definir o rumo’ ou seja, a avançar com a candidatura”. Na mesma nota, são citadas as declarações de Gouveia e Melo e a nota de rodapé referente ao artigo do semanário.
“Na sua notícia sobre a publicação do livro, baseada num extrato que lhe foi enviada pela editora, a Lusa interpretou estas informações escrevendo: ‘O almirante Gouveia e Melo revela que só decidiu avançar para Belém quando leu uma notícia no “Expresso” de que Marcelo Rebelo de Sousa pretendia travar a sua candidatura presidencial através da sua recondução como chefe da Armada’. Cumprindo todas as regras deontológicas, a Lusa escreveu as informações contidas no próprio livro, interpretando-as com honestidade e rigor, tal como determina o Código Deontológico do Jornalista.”
Em entrevistas à CNN e à RTP, Gouveia e Melo voltou a rejeitar que Marcelo tivesse tido um “papel decisivo” na decisão de se candidatar.
