Há um paradoxo no coração da democracia. As decisões democráticas têm de assentar nos factos e são, simultaneamente, dependentes da verdade e uma procura dessa verdade. Mas as decisões democráticas também dependem do pluralismo. Não há democracia sem pluralismo de pontos de vista e ideias. E isso implica uma disputa sobre a verdade. Esta tensão tem estado sempre presente ao longo da história da democracia. São inúmeros os exemplos dos desafios que tal apresentou para a democracia. Frequentemente, foi a dificuldade em lidar com esta tensão que determinou derivas autoritárias em regimes democráticos. É bem provável que nos encontremos hoje num momento semelhante, em que, se não soubermos lidar adequadamente com as novas manifestações dessa tensão, a nossa democracia possa vir a estar em risco.

Há vários anos que escrevo sobre uma transformação política em curso e o seu impacto democrático. Trata-se de uma transformação do espaço, do tempo e do modo da política. A transformação do espaço diz respeito ao impacto da crescente interdependência entre democracias nacionais no espaço onde a política tem lugar ou deve ter lugar. Frequentemente o espaço em que muitas políticas devem ser decididas (europeu ou global) já não corresponde ao espaço da ação política (que continua a ser predominantemente nacional). A transformação do tempo corresponde à assimetria entre decisões políticas determinadas pelo curto prazo e os seus efeitos de médio ou longo prazo. Frequentemente, o que funciona no curto prazo (trazendo, portanto, benefícios eleitorais) é o oposto do que é necessário para o médio e longo prazo (trazendo, portanto, prejuízos para o bem comum). Este risco não é novo mas associado, sobretudo, aos ciclos eleitorais. Acontece que a aceleração política e mediática tem introduzido ciclos políticos ainda mais curtos e agravado este problema. Por último, a transformação no modo da política descreve a forma como novas formas de ação, comunicação e informação política têm mudado a natureza da política. Desde o crescimento da democracia direta e perda de intermediação política ao papel das redes sociais, há um conjunto de transformações em curso que têm, nomeadamente, diminuído a componente deliberativa da democracia e acentuado a sua dimensão emocional.

"Há vários anos que escrevo sobre uma transformação política em curso e o seu impacto democrático. Trata-se de uma transformação do espaço, do tempo e do modo da política."

Todas estas transformações têm impacto na relação entre a democracia e a verdade. A assimetria entre o espaço (transnacional) onde muitas políticas públicas têm de ser decididas e o espaço (nacional) onde a ação política permanece concentrada dificulta a atribuição de responsabilidade política (quem é responsável pelo quê) e permite aos atores políticos reclamar como seus os benefícios desse espaço transnacional enquanto transferem para o mesmo os custos políticos das suas decisões. Já a preferência por decisões de curto prazo, respondendo aos incentivos políticos imediatos, resulta da dificuldade dos cidadãos em integrar na sua avaliação política os impactos de médio e longo prazo das decisões políticas. É o que poderíamos designar de problema cognitivo da democracia, que apenas uma literacia política muito avançada conseguiria combater. Exigiria que os cidadãos decidissem com base numa avaliação do processo e qualidade das políticas e não nos efeitos imediatos que vêm e sentem. Essa avaliação é o que permitiria estimar, com verdade, os efeitos no médio e longo prazo dessas políticas, mas a complexidade e dificuldade técnica envolvidas num juízo substantivo desse tipo tornam-no extremamente difícil de concretizar na forma massificada que a democracia exige.

É, no entanto, quanto às transformações no modo e meios da política que mais se fala hoje do problema da verdade na democracia, em particular em relação com o papel das novas redes sociais e a dimensão do fenómeno das fake news. Quando a internet surgiu foi vista como um instrumento de reforço da democracia: facilitava o acesso a informação e a mobilização e participação dos cidadãos; aumentava o pluralismo; e permitiria mesmo ultrapassar as barreiras de censura nacional onde existissem. Hoje sabemos que esta promessa democrática não foi totalmente cumprida e que a internet também trouxe consigo novos riscos democráticos. Hoje é, em grande medida, possível a um Estado autoritário selecionar o que circula na internet como acessível aos seus cidadãos, permitindo fazer da mesma um instrumento de controlo não democrático. Mas também nas democracias a internet trouxe três desafios: primeiro, porque, sendo verdade que permite uma maior e  mais fácil cooperação entre cidadãos também promove uma maior fragmentação e radicalização do espaço público  (só ouvimos aqueles que pensam como nós, selecionados pelos algoritmos de acordo com as nossas preferências e reforçando os nossos preconceitos); segundo, porque facilita a amplificação e disseminação de factos falsos; terceiro, porque tem contribuindo para a crise dos media tradicionais e promovido, paradoxalmente, uma concentração do acesso à informação através de dois ou três meios (como o Facebook ou Google) sem verdadeiros processos editoriais.

"Hoje é, em grande medida, possível a um Estado autoritário selecionar o que circula na internet como acessível aos seus cidadãos, permitindo fazer da mesma um instrumento de controlo não democrático."

Estes riscos não nos devem fazer esquecer as enormes vantagens democráticas que a internet também traz. Nem nos devem induzir no erro de pensar que a falta de verdade na política é um fenómeno novo. O que muda com a internet é a natureza do nosso espaço público: a sua escala e a natureza diferente do nosso relacionamento nesse espaço. O desafio que temos? Criar processos e mecanismos editoriais sérios, credíveis e pluralistas nesse espaço público. Sendo que isso não se fará deixando a determinação do que é verdade ou falso a um governo ou uma única empresa (como o Facebook ou Google). Não nos podemos esquecer que a própria determinação do que é verdade ou falso é contestado. Aqueles que criam fake news estão entre aqueles que mais usam a expressão fake news (incluindo para se referir aos media tradicionais). Neste contexto, o que precisamos é de mais instrumentos a que os cidadãos possam recorrer para avaliar a credibilidade da informação e discurso que circulam dentro e fora da internet. E os mesmos meios tecnológicos que trazem riscos também oferecem potencialidades para os combater e melhorar a democracia. Há razões para otimismo a esse respeito. Projectos de fact checking como este são uma. E, em breve, a introdução da inteligência artificial nesta área vai permitir, nalguns contextos, o controlo quase imediato de certas afirmações (sendo que é, igualmente, importante ter consciência dos limites do fact checking e da necessidade de o complementar por processos de contextualização quando o problema, por vezes, não é se algo é verdade ou mentira mas sim se uma verdade fora de contexto nos pode induzir numa mentira). Também já temos hoje aplicações informáticas desenvolvidas por órgãos de comunicação social de referência que, uma vez instaladas, nos alertam para a falta de credibilidade de um determinado site. E a internet também está a promover um número crescente de processos de investigação colaborativa entre diferentes media, sendo vários os casos recentes de jornalismo de investigação resultantes desta nova dinâmica. Todos estes exemplos não visam ignorar os riscos em que a democracia hoje incorre. Pretendem apenas ilustrar que não são esses riscos, mas sim a forma como lidarmos com eles, que determinará o futuro da democracia. Temos de encontrar formas alternativas de editar este novo espaço público que, tal como conseguimos no passado, protejam a verdade através do pluralismo e não contra ele.

"Neste contexto, o que precisamos é de mais instrumentos a que os cidadãos possam recorrer para avaliar a credibilidade da informação e discurso que circulam dentro e fora da internet. E os mesmos meios tecnológicos que trazem riscos também oferecem potencialidades para os combater e melhorar a democracia. Há razões para otimismo a esse respeito. Projectos de fact checking como este são uma."

Num contexto em que a informação que nos chega é tanta e, por vezes, tão contraditória os cidadãos irão procurar cada vez mais pontos de orientação e de referência sobre essa informação. No fundo, temos de apostar na concorrência pela credibilidade entre diferentes processos editoriais. É esse mesmo pluralismo que irá combater o que é falso e não qualquer processo de censura centralizado num governo ou numa empresa. É isso que a história da democracia e do seu paradoxo nos ensina.

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