​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​Numa semana em que Portugal atingiu temperaturas acima dos 40.º em diversas regiões, em que a mortalidade associada aos grupos de risco e vulneráveis aumentou, em que uma vaga que calor atingiu o território português, não houve alma que não falasse das possíveis causas deste terrível cenário – as alterações climáticas.

Não é nenhuma novidade o tema das alterações climáticas e das suas consequências. Não há político ou gestor empresarial que não use um slogan de campanha ou publicitário dedicado a este tema, e não há comentador televisivo que não arrisque abordar o fenómeno para explicar estas elevadas temperaturas.

Estes fenómenos e as respetivas consequências extremas, como as que temos sentido nos últimos dias, têm-se repetido por toda a região mediterrânea e Europa central, prevendo que este venha a ser um dos verões mais quentes de sempre, e nesse sentido todos são unânimes em reforçar que este é um “novo normal” e que teremos de nos adaptar a esta nova realidade.

É neste cenário que surge à discussão o tema do novo Aeroporto Internacional de Lisboa, uma obra que aguarda definição há quase 50 anos com os argumentos ambientais e da necessidade de melhorar a segurança, que aproveitou os cenários de confusão no aeroporto de Lisboa para mostrar a necessidade urgente de uma nova infraestrutura. Mas estas enchentes têm sido uma constante em muitas outras cidades europeias, ou mesmo mundiais, o que tem afetado as férias de muitos turistas, tendo levado inclusive a que o aeroporto de Heathrow tenha pedido às companhias aéreas para pararem de vender bilhetes para este Verão.

Estes fenómenos e as respetivas consequências extremas, como as que temos sentido nos últimos dias, têm-se repetido por toda a região mediterrânea e Europa central, prevendo que este venha a ser um dos verões mais quentes de sempre, e nesse sentido todos são unânimes em reforçar que este é um “novo normal” e que teremos de nos adaptar a esta nova realidade.

Face a este problema, as Nações Unidas definiram a Agenda 2030, constituída pelos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), definindo os constrangimentos sociais e ambientais que têm que ser trabalhados em nome da sustentabilidade global. O Turismo é um desses constrangimentos e um dos setores que tem contribuído, direta e indiretamente, para todos os ODS, tendo sido incluído sobretudo no Objetivo 8 (crescimento económico sustentável), no Objetivo 12 (consumo e produção sustentáveis) e no Objetivo 14 (uso sustentável dos oceanos e recursos marinhos).

As Políticas Ambientais Europeias têm seguido a mesma direção da ONU com a apresentação do Pacto Ecológico Europeu que pretende adaptar os Estados-Membros a uma economia mais moderna, eficiente, resiliente e competitiva, respeitando os limites da sustentabilidade, com o comprometimento e envolvimento de todos os setores de atividade, incluindo o Turismo.

A sustentabilidade deste setor é um caminho incontornável. Aqui o objetivo da sustentabilidade tem sido já assumido por muitos agentes turísticos, devido às preocupações e exigências dos turistas, que já consideram a integração da responsabilidade ambiental e social para os seus espaços e serviços, tendo em conta as necessidades dos visitantes, beneficiando as comunidades locais com a minimização dos impactes ambientais, económicos e sociais no presente e no futuro.

Se as enchentes nos aeroportos de Lisboa são partilhadas pelos outros aeroportos internacionais, se os fenómenos climáticos extremos têm sido uma constante a nível mundial, se enfrentamos todos um “novo normal”, se estas razões levaram a que algumas cidades europeias, como Amesterdão ou Veneza, estejam a equacionar rever o modelo turístico aplicando taxas diárias para reduzir o turismo de massa, como é que Portugal neste “novo” normal teima em colocar em prática um projeto completamente desenquadrado com o paradigma ambiental, social e financeiro do país.

Se estas razões levaram a que algumas cidades europeias, como Amesterdão ou Veneza, estejam a equacionar rever o modelo turístico aplicando taxas diárias para reduzir o turismo de massa, como é que Portugal neste “novo” normal teima em colocar em prática um projeto completamente desenquadrado com o paradigma ambiental, social e financeiro do país.

A Estratégia Nacional de Adaptação às Alterações Climáticas 2020 (ENAAC), agora prorrogada até 31 de dezembro 2025, estabelece objetivos e o modelo para a implementação de soluções para a adaptação de diferentes setores aos efeitos das alterações climáticas, onde se inclui os transportes. A mobilidade tem sido responsável por 24,5% das emissões de Gases com Efeito de Estufa (GEE), pelo que a aposta na eletrificação e na ferrovia têm sido medidas apontadas como soluções. Mas onde estão as respostas? Não existe nenhuma ligação direta da capital portuguesa por ferrovia para outra capital europeia (Madrid ou Paris) o que, pela nossa geografia, deixa-nos completamente isolados como se fossemos uma ilha. Daqui, ou saímos de avião ou de automóvel, colocando de lado qualquer hipótese de escolhermos uma solução mais sustentável.

Por outro lado, se a ONU e a Comissão Europeia apontam para um turismo sustentável, se Portugal assina por baixo estes programas e diz que vai adequar este setor com as melhores práticas disponíveis, em questões como o uso adequado dos recursos naturais e ambientais, o respeito pela autenticidade sociocultural das comunidades locais, potenciar a sustentabilidade económica das diferentes atividades turísticas e assegurar que estas atividades são economicamente viáveis a​ longo prazo, como anuncia a construção de um aeroporto de raiz, sabendo que esta infraestrutura nova nunca será uma medida sustentável.

Ainda que os efeitos da pandemia pareçam estar longe ou mesmo terminado, o período de conflito armado na Europa, e a crise climática irão trazer constrangimentos a diversos setores, entre os quais o turismo. No entanto, se as tendências atuais e as previsões se mantiverem, irá demorar anos até que esta atividade se renove.

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EMIFUND

Este artigo foi desenvolvido no âmbito do European Media and Information Fund, uma iniciativa da Fundação Calouste Gulbenkian e do European University Institute.

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