Não é novidade para ninguém que as democracias liberais estão em avançado estado de degradação. Os sinais são numerosos e chegam de todo o lado. Dos Estados Unidos, onde à frente da maior e mais pujante democracia do mundo está um populista com uma perigosa interpretação do “menos mau dos sistemas”. De França, onde um partido de extrema-direita obteve um resultado histórico nas últimas presidenciais. De Espanha, com o Podemos e o Vox de Santiago Abascal. Da Grécia, com o Syriza. De Itália. Da Alemanha, Áustria e Suécia. E do Brasil, claro, agora com o furacão Bolsonaro que, ao contrário do que muitos dizem, foi eleito por ser a negação de um sistema corrupto e não pelo seu alegado flirt com ideias fascistas.

São conhecidas as razões para o surgimento destes fenómenos marginais que ameaçam a democracia. Os mais decisivos são a crise económica, a desconfiança em relação ao establishment e, num plano diverso, a agressão continuada dos valores que alicerçam as sociedades modernas – e entre eles a liberdade ocupa uma posição nuclear.

Quando se fala de liberdade, fala-se fundamentalmente de liberdade de expressão, a maior das bandeiras da democracia. Ora, aquilo que deveria ser a garantia de que o sistema perdura no tempo é neste momento o seu adversário mais desafiante. Porque a máxima liberdade originou, num mundo que mudou tanto nos últimos 10 anos, a irresponsabilidade máxima.

Há apenas uma década, o acesso ao espaço público era um exclusivo de uma casta. Hoje, com o advento pleno da era digital, qualquer cidadão pode emitir opiniões que, dependendo da sua qualidade e vigor viral, rapidamente atingem milhares, senão milhões, de pessoas, fixando tendências de pensamento e patamares de discussão pública.

Este fenómeno é bom (a abertura do espaço público a todos é um ganho), mas também é mau, porque com a massificação das redes sociais também se massificou a disseminação de rumores, mentiras ou meias verdades cuja difusão é claramente uma ameaça à sociedade dos direitos, deveres e garantias tal qual a conhecemos. Rumores, mentiras e meias verdades que frequentemente são colocados a circular por spin doctors profissionais, devidamente pagos para o efeito.

"A máxima liberdade originou, num mundo que mudou tanto nos últimos 10 anos, a máxima irresponsabilidade."

Hoje é na internet, sobretudo nas redes sociais, que quase tudo acontece no campo da fixação dos factos e no domínio do agenda setting. Donald Trump é o primeiro presidente da era Twitter. Grande parte da sua comunicação política é feita solitariamente através das redes sociais. Ao provar que não precisa dos media mainstream para tomar conta da maior democracia do mundo, Trump tornou-se na face visível de um mundo em processo acelerado de mudança. Um mundo em que os tweets de 280 caracteres se impõem aos factos. Um mundo em que a espuma dificulta o acesso à profundidade.

Perante isto, o que fazer? Fingir que não se está a passar nada, enfiar a cabeça na areia e esperar pacientemente que os políticos encontrem soluções para resolver uma questão desta magnitude? Pura fantasia. Os amantes da liberdade e da verdade têm de ir a jogo, de colocar a cabeça à superfície e de, com os mesmos instrumentos utilizados pelos adversários da democracia para propagar as suas ideias, impor os seus argumentos. A solução não é cortar a liberdade – é, pelo contrário, mais liberdade, mais palavras, mais pensamento, mais informação.

É nesse contexto que surge o Polígrafo, um jornal de fact-checking que visa verificar as afirmações que os protagonistas emitem no espaço público. Porque é que isto é importante? Porque a maior razão do afastamento dos cidadãos em relação aos que os representam é o eterno problema de estes prometerem uma coisa em campanha eleitoral e depois fazerem o seu contrário­ quando assumem o poder -  e só um jornalismo mais vigilante pode contribuir para que esta relação não se esboroe irreversivelmente.

"Pretendemos que em cada um dos leitores  esteja um fact-checker em potência, que nos enviem por mensagem (968213823) sugestões para verificações de factos. Os que o fizerem – e serão muitos, seguramente -  terão direito a receber o “seu” fact-check, depois de devidamente confirmado pela equipa do Polígrafo, 15 minutos antes de ele ser colocado em linha."

Se Trump é o primeiro presidente da era Twitter, Bolsonaro é o primeiro presidente - WhatsApp. Os dois reinventaram a comunicação política. A partir de agora – nomeadamente depois da experiência brasileira, onde sites de fact-checking como a Agência Lupa ou o Aos Fatos fizeram um trabalho notável na desconstrução de falsidades colocadas a circular à velocidade da luz via WhatsApp – sabemos que a comunicação entre políticos e eleitores nunca mais será a mesma. Será tendencialmente direta – uma característica comum aos movimentos populistas que vão pululando um pouco por todo o mundo.

É por reconhecer o poder único de uma linha como o WhatsApp que o Polígrafo fará dela o instrumento privilegiado de comunicação com os seus leitores. Pretendemos que em cada um deles esteja um fact-checker em potência, que nos enviem sugestões para verificações de factos. Os que o fizerem – e serão muitos, seguramente -  terão direito a receber o “seu” fact-check, depois de devidamente confirmado pela equipa do Polígrafo, 15 minutos antes de ele ser colocado em linha. O mesmo sucederá com uma linha de Telegram (968213936) criada para o mesmo efeito.

O que pretendemos é aproximar os leitores, dar-lhes poder, abrir muitas janelas para que entrem em nossa casa pela que lhes for mais confortável, sentido-se parte de uma comunidade que, acredito, será cada vez mais pujante, até se tornar incontornável para políticos, comentadores, influenciadores e demais protagonistas no espaço público. Todos, sem excepção, terão de elevar o nível do seu discurso público. Haverá menos falsidades a circular, o valor da verdade será revigorado e o ar tornar-se-á mais respirável. Quando, numa conversa de café, dois amigos divergirem sobre um tema, ambicionamos substituir o Google como agente de “tira-teimas”. Em vez de fazerem uma pesquisa em que lhe surge no ecrã do telemóvel uma coisa e o seu contrário sobre o mesmo assunto, os amigos terão acesso a informação verificada que permitirá que apenas um tenha razão. O objectivo último é tornarmo-nos um "Google da verdade", um espaço onde as pessoas sabem que não encontrarão opiniões – encontrarão factos, sempre baseados em fonte documental. Entre publicar uma grande notícia sustentada em fontes anónimas ou não a publicar, o Polígrafo nunca hesitará em deixar a “cacha” cair.

Outro detalhe importante: o Polígrafo não analisa notícias de outros jornais. O trabalho dos nossos colegas, sendo muito relevante, não é o nosso core business. Escolhemos avaliar e classificar, de acordo com uma escala, as declarações dos protagonistas das notícias, porque são eles os agentes proativos na difusão de inverdades no espaço público.

"O objectivo último é tornarmo-nos um "Google da verdade", um espaço onde as pessoas sabem que não encontrarão opiniões – encontrarão factos, sempre baseados em fonte documental."

Para fazer este trabalho, planeamos recorrer a soluções inovadoras quer no plano editorial, quer no plano tecnológico. O jornalismo de fact-checking é, nos dias que correm, a área jornalística mais fervilhante e criativa ao nível da criação de instrumentos de inteligência artificial destinados a encurtar a distância entre a emissão de uma falsidade e a sua desconstrução. Ao permitirem, quase em tempo real, avaliar de forma rigorosa a veracidade de uma informação, os robots – sim, é disso que falamos - trazem rapidez e eficácia ao processo, permitindo-nos sonhar que um dia talvez a máxima atribuída a Mark Twain, segundo a qual mais depressa uma mentira dá a volta ao mundo do que a verdade calça os sapatos par a apanhar, deixe de fazer o sentido que hoje faz. O Polígrafo participará seguramente nessa caminhada – e desejamos intensamente que todos e cada um dos nossos leitores nos acompanhem. Vamos a isso?

Notificações

Na sua rede favorita

Siga-nos na sua rede favorita.
International Fact-Checking Network