Teria Jair Bolsonaro ganho a Presidência sem o formidável trabalho e dinheiro investidos por adeptos seus na intox política mais radical de que há memória na História brasileira?

Talvez sim. O desgaste do PT (demonizado e acossado por terra, mar e ar) que era alto, subiu ainda mais durante o Verão em vez de descer.

A primeira volta dissipou  a  ilusão de que Lula, embora  encarcerado em Curitiba,  estaria  à frente na preferência dos eleitores e aconteceria  uma milagrosa transfusão de votos para o candidato Haddad, “que era Lula” (o que não o ajudou).

[Bolsonaro] "Entra no Guiness como o candidato que venceu sem  ter de percorrer  o seu  país de lés a lés: bastou-lhe viajar entre hospital e casa, e dar a volta ao mundo das redes sociais."

Não houve transfusão. Pior ainda: Bolsonaro ganhou a dianteira na primeira volta  não por ser bom argumentador e vencer debates: conseguiu a façanha de não ir a nenhum. Com isso evitou o embaraço de explicar o programa,  que não tinha.

Entra no Guiness como o candidato que venceu sem  ter de percorrer  o seu  país de lés a lés: bastou-lhe viajar entre hospital e casa, e dar a volta ao mundo das redes sociais.

Apostou  na violência verbal e colheu resultados. Quando em 8 de Outubro Haddad propôs um pacto para combate às notícias falsas Bolsanaro  recusou declarando: "Meu compromisso é com a minha pátria, não com corruptos na cadeia", chamando a Haddad “pau mandado” e subindo de tom. O segredo do êxito foi esse: subir de tom interminavelmente.

"Importa também  compreender  o poder imenso da comunicação em grupos fechados, cifrada e grátis, gerida  por humanos ou bots. A era dos grandes duelos televisivos entre chefes já não é o que era."

A bipolarização entre posições extremadas empurrou para a abstenção milhões de eleitores moderados, que não se reconheceram em nenhum dos pólos e vociferações respectivas. As forças do centro-direita viram sumir os seus eleitores tradicionais. Grandes figuras da democracia declararam-se neutrais acrescentando perplexidade ao  barulhão político cheio de boatos e confusões que em vez de debate regrado na praça pública dominou toda a campanha.

Que lições tirar?

Acima de tudo importa não tomar por caboclos idiotas milhões de brasileiros, insinuando que deveriam aprender connosco as boas maneiras eleitorais.

Na verdade, somos nós que temos que aprender com eles.

A justiça eleitoral brasileira tentou erguer uma barreira anti-fake news: promoveu um pacto entre partidos para uma campanha limpa, fez contactos com as plataformas digitais mundiais, houve  intervenção célere do Tribunal Superior Eleitoral para remover conteúdos ilegais (não se fala disso por cá).

A barreira  não resistiu a um tsunami. Importa perceber como ele se gerou e apurar o que falhou.

Importa também  compreender  o poder imenso da comunicação em grupos fechados, cifrada e grátis, gerida  por humanos ou bots. A era dos grandes duelos televisivos entre chefes já não é o que era.

O mundo já  tinha um Presidente-Twitter. Agora vem aí um Presidente-WhatsApp. Que mais nos irá acontecer?