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2025: licença para mentir

Artigo de Opinião | A mentira não dominou 2025 por ter eliminado o contraditório. A mentira dominou o ano por ter aprendido a sobreviver-lhe (quase?) intacta. Donald Trump disse em tempos que podia disparar sobre alguém na Quinta Avenida sem perder votos. Provavelmente nem o próprio antecipava o grau de exatidão dessa afirmação. Ao longo de 2025, a mentira encontrou terreno fértil nas plataformas digitais menos responsáveis, na inteligência artificial ainda sem enquadramento regulatório eficaz, nos políticos cada vez mais confortáveis com a distorção dos factos e nas sociedades saturadas de não saber em quem confiar no meio de tanto ruído.

Apesar da astúcia de Timothy Dalton enquanto James Bond em 1989, tenho a certeza de que o espião ainda não estaria preocupado com a democratização da desinformação, além da que já existia no mundo da espionagem. Estavamos ainda muito longe de imaginar o que viria a ser o nosso admirável mundo novo em 2025.

Passados 36 anos desde a estreia de “James Bond: Licença para Matar”, chegamos ao ano em que foi dada licença para mentir. O jornal de fact-checking americano PolitiFact abdicou, pela primeira vez, de escolher uma “mentira do ano” para declarar em alternativa que 2025 foi mesmo o Year of the Lies. Esta atribuição é sintomática de uma realidade em que deixou de ser possível isolar uma única grande mentira num ano em que a falsidade se tornou contínua e sistemática, desde a publicação mais amadora até aos discursos oficiais dos políticos mais poderosos.

A mentira não dominou 2025 por ter eliminado o contraditório. A mentira dominou o ano por ter aprendido a sobreviver-lhe (quase?) intacta. Donald Trump disse em tempos que podia disparar sobre alguém na Quinta Avenida sem perder votos. Provavelmente nem o próprio antecipava o grau de exatidão dessa afirmação. Ao longo de 2025, a mentira encontrou terreno fértil nas plataformas digitais menos responsáveis, na inteligência artificial ainda sem enquadramento regulatório eficaz, nos políticos cada vez mais confortáveis com a distorção dos factos e nas sociedades saturadas de não saber em quem confiar no meio de tanto ruído.

O gesto que melhor simboliza esse ponto de viragem nas big tech teve data marcada. A 7 de janeiro de 2025, Mark Zuckerberg anunciou o fim do programa de fact-checking da Meta nos Estados Unidos. Num vídeo publicado nas redes sociais, acusou, sem dados concretos, os verificadores de factos de enviesamento político e afirmou que os sistemas de moderação estavam a promover censura online, apesar de ser público que as organizações de fact-checking nunca tiveram (nem quiseram ter) poder para remover conteúdos das plataformas da Meta. O anúncio foi apresentado como uma defesa da liberdade de expressão, mas o seu efeito prático foi o de silenciar a contextualização, produzida por profissionais independentes, de milhões de publicações online. No mínimo, irónico, certo?

Pela primeira vez, uma das maiores empresas tecnológicas do mundo assumiu, sem ambiguidades, que a integridade da informação deixava de ser uma prioridade. Felizmente, essa decisão não teve, à data de hoje, o mesmo impacto na Europa.

O recuo não se limitou à Meta. Em 2025, a Google abandonou o programa ClaimReview, que permitia integrar verificações de factos nos resultados de pesquisa, e encerrou parcerias com fact-checkers como os britânicos do Full Fact. O YouTube anunciou “segundas oportunidades” para criadores anteriormente banidos por violações graves das regras de conduta da plataforma.

Estes exemplos representam uma nova ordem mundial onde as grandes tecnológicas emergem como entidades mais poderosas e influentes do que algumas nações. Como sublinham Silverman e Mantzarlis neste texto, as plataformas escolheram este caminho de forma premeditada, num contexto político cúmplice e num ambiente regulatório fragmentado, sobretudo nos Estados Unidos.

A inteligência artificial funcionou como acelerador desse processo. Em 2025, a IA não inventou a desinformação, mas conferiu-lhe velocidade. Bastam poucas centenas de vídeos gerados por IA com figuras como Donald Trump e Elon Musk para se somarem centenas de milhões de visualizações. Muitos até podem não violar regras explícitas, não incitar diretamente à violência, não promover ódio. Podem-se ficar apenas na bitola da geração de confusão. A fronteira entre sátira, erro e fraude tornou-se deliberadamente obscura.

Em Portugal, o panorama geral não foi diferente. O ano ficou marcado por narrativas falsas onde a imigração foi o macro tema dominante. Dados inflacionados, alegados privilégios no acesso ao SNS e associações diretas entre imigração e criminalidade circularam ao longo do ano, apesar de contrariadas por estatísticas oficiais e verificações de factos. Mas houve um acontecimento singular e que mereceu o destaque do Polígrafo enquanto “mentira nacional do ano”. A teoria da conspiração “made in Portugal” sobre a influência russa no apagão ibérico de abril.

Mentira Nacional do Ano: A teoria da conspiração “made in Portugal” sobre a influência russa no apagão de abril

Claro que nada disto surgiu do nada nem tão pouco descobrimos a pólvora em 2025. Para efeitos ilustrativos, podemos recuar até 2016, quando o Diário de Notícias declarou “pós-verdade” como palavra do ano, num contexto marcado pelo Brexit e pela primeira eleição de Trump. Falava-se então de um desvio perigoso, de uma exceção histórica. Em 2016, a mentira ainda exigia disfarce. Em 2025, já o dispensa.

É por isso que, ao olhar para o novo ano e para o trabalho que cabe aos jornalistas sobre esta matéria, o combate à desinformação não deve continuar somente assente na lógica reativa do fact-checking clássico. Verificar depois da mentira circular vai continuar a ser necessário, mas raramente suficiente. Quando a correção chega, a falsidade já percorreu o seu caminho e já moldou algumas perceções.

É aqui que entra o conceito de prebunking. Em vez de refutar uma alegação concreta, esta metodologia antecipa os mecanismos utilizados para desinformar. Antes da exposição, explica como funcionam as narrativas manipuladoras, as distorções estatísticas mais comuns, os falsos dilemas ou os conteúdos gerados artificialmente para parecerem autênticos. Esta abordagem de verificação de factos funciona como uma espécie de vacina, na medida em que se acredita que, se as pessoas forem previamente alertadas para as técnicas de manipulação, tornar-se-ão menos suscetíveis, mesmo quando confrontadas mais tarde com conteúdos enganadores.

A inteligência artificial pode reforçar esta abordagem precisamente onde a desinformação hoje ganha vantagem, na escala e na velocidade. Utilizada com critérios claros e transparência, a IA pode ser uma grande (e inevitável) aliada.

Nada disto substitui o investimento em literacia mediática. A capacidade de pensar criticamente, contextualizar dados e reconhecer metodologias claras deixou de ser um apêndice educativo para passar a ser uma competência cívica básica.

O caminho que se impõe agora é o da adaptação consequente a um ambiente mais complexo. O Polígrafo está a seguir esse caminho, através do seu trabalho diário, e de projetos como o “Pinóquio na Escola” ou a “European Teen Fact-Checking Network”, combinando jornalismo, verificação de factos e literacia mediática. Nunca mais será fácil caminhar no ecossistema informativo global, mas em 2026 haverá mais 365 dias para fazer a diferença.

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