O ano de 2020 fica marcado por duas pandemias que se disseminaram em simultâneo: por um lado, a da Covid-19, que nos obrigou a fechar em casa, a redefinir rotinas de trabalho, a recriar a forma como nos relacionamos com o outro e, nos casos mais extremos, a conviver com a partida súbita de entes queridos; por outro, a chamada infodémia, a pandemia de desinformação resultante das milhares de mentiras colocadas a circular sobre o novo coronavírus desde que foi reportado o primeiro caso, ocorrido na província chinesa de Wuhan.

O Polígrafo considerou esta segunda pandemia como a Mentira Nacional de 2020, depois de em 2019 ter eleito a acusação a António Costa segundo a qual o Primeiro-Ministro estaria de férias durante os fogos de Pedrógão Grande como a maior falsidade do ano.

Sobretudo nas redes sociais, o fenómeno alastrou-se de forma descontrolada. Em Portugal e no mundo. Numa base de dados mundial coordenada pela International Fact-Checking Network (uma aliança global que reúne, no Poynter Institute, mais de 90 organizações que se dedicam à verificação de factos) já foram assinaladas mais de 8 mil mentiras ou manipulações acerca do tema – e a tendência, agora que chegaram as vacinas, aponta claramente para um crescimento exponencial. Ainda durante este ano, o Polígrafo juntou-se a outros projetos internacionais de jornalismo colaborativo a propósito da Covid-19, como foram os casos do Latam-Chequea, constituído por fact-checkers provenientes do universo latino e do Corona Verificado, constituído por projetos de fact-checking em língua portuguesa.

Além disso, o Polígrafo participou, a 4 de agosto, no lançamento  da versão em português do "chatbot" da IFCN para o WhatsApp, desenvolvido para enfrentar o desafio da desinformação, especialmente durante a pandemia de Covid-19.

A imaginação dos promotores de desinformação revelou-se particularmente fértil. Repentinamente, ficámos a saber que os golfinhos haviam invadido as águas de Veneza, alegadamente pelo facto de estas, em resultado do confinamento da população italiana, terem ficado subitamente despoluídas. Também nos espantámos com imagens impressionantes – quase sempre falsas ou manipuladas – de médicos exaustos a dormir em corredores de hospitais, de cadáveres abandonados nas ruas, de valas comuns supostamente abertas para albergar milhares de mortos. Objectivo: disseminar o temor junto de uma população perdida entre o que as autoridades de saúde lhe diziam (por vezes de forma desorganizada e contraditória) e o que as redes sociais lhe mostravam.

Entre a realidade e a ficção, o medo foi o combustível necessário para que as falsidades e as teorias da conspiração galopassem à velocidade da luz: seriam verdadeiras as campanhas de angariação de fundos organizadas pelo WhatsApp para ajudar os profissionais de saúde? Seria sensato comer em restaurantes chineses, tendo em conta a origem do vírus? E as piscinas, que segurança ofereceriam a quem as frequentasse? As vacinas, serão fiáveis? Devemos vacinar as nossas crianças ou corremos o risco de morrer da cura em vez da doença?

Por fim, a dúvida das dúvidas: não será o inferno que vivemos a maior das conspirações da História, minuciosamente urdida pelos maiores magnatas mundiais, como o multimilionário norte-americano Bill Gates, para enriquecer e controlar a humanidade? Acredite, há muitos milhares de pessoas que o garantem – e que investiram o último ano das suas vidas a convencer outros milhares, através intermináveis cadeias de partilhas nas redes sociais, de que assim é.

Nós, no Polígrafo, sabemos que não é assim. Porque entre a realidade e a fantasia optamos sempre pelo factos.

 

Fique com uma seleção de seis mentiras e manipulações que identificámos em Portugal a propósito da pandemia do século.

Foi um dos posts mais partilhados no Facebook durante vários dias: supostamente Marcelo Rebelo de Sousa teria movido influências políticas durante o passado mês de Janeiro no sentido de, face à pandemia de Covid-19 que então abundantemente se expandia na China, trazer as suas netas em segurança para Portugal - e que para isso não terá olhado a meios, concorrendo-se do Falcon que está à disposição do Estado português. A única verdade neste rumor é que de facto o Presidente da República tem família a vivei em território chinês.

A verdade é que as fotografias eram mesmo autênticas, mas não foram captadas em Portugal e circulavam nas redes sociais pelo menos desde o início do ano. Através de uma pesquisa na aplicação TinEye, e tendo acesso às imagens em maior escala, o Polígrafo concluiu que pelo menos duas das fotografias que ilustram a publicação sob análise foram captadas na China.

mentira do ano

Numa entrevista à TVI no dia 9 de novembro, o primeiro-ministro António Costa, questionado sobre falhas na capacidade de antecipação e planeamento, respondeu que "ninguém previu que esta segunda vaga surgisse tão cedo. Toda a gente a antecipava na passagem do Outono para o Inverno, ninguém pensava que chegasse tão cedo". Facilmente se provou que se tratava de uma declaração baseada em factos falsos: quer o aviso do diretor regional para a Europa da OMS (a 15 de maio), quer a previsão do grupo de peritos da DGS (a 11 de julho), apontavam claramente para o Outono como referência temporal para que a segunda vaga se instalasse.

mentira do ano

Uma foto provocatória causou particular agitação nas redes sociais, onde foi exaustivamente partilhada nos últimos dias. Na imagem podem ver-se aquilo que parecem ser quatro profissionais de saúde a posar com o dedo do meio erguido apontando para a câmara em jeito de provocação.

A acompanhar a imagem pouco ortodoxa, está o texto que se segue: “Mensagem da equipa de serviço na urgência dos HUC [Hospitais da Universidade de Coimbra] para a Ministra da Saúde e Directora Geral de Saúde. Vamos fazer chegar esta mensagem às destinatárias.” O Polígrafo investigou a origem da fotografia e concluiu que se trata de uma imagem verdadeira, mas totalmente descontextualizada. Estamos perante uma manipulação clara de uma foto existente, tendo sido registada a 17 de março passado num hospital francês por um grupo de técnicas de saúde.

mentira do ano

A notícia chegou a muitos portugueses pelo WhatsApp, através de uma imagem que parece um recorte de uma notícia, extraído de um site.Depois do título e de uma fotografia do jogador da Juventus de Turim, um texto curto e objetivo: "Os hotéis de Cristiano Ronaldo vão tornar-se hospitais a partir da próxima semana onde os infetados com Covid-19 em Portugal poderão ser atendidos totalmente grátis. O internacional português vai ainda suportar todos os custos com os médicos e trabalhadores".

A informação disseminou-se pelas redes sociais portuguesas e espanholas - e até jornais desportivos de referência, como o espanhol Marca, noticiaram a alegada decisão do futebolista português. Problema: era tudo falso. O jornal "Marca" retirou a notícia do seu site e a plataforma Arena Desportiva, que avançou com a informação,  pediu desculpas públicas.

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A mensagem começou a circular nas redes sociais, através de grupos de WhatsApp, na segunda semana de março, e alega mostrar um texto, em verso, do escritor francês Michel de Nostredame (Nostradamus), datado do ano de 1555: "E no ano dos gémeos (20 20) / surgirá uma rainha (corona-corona) / desde o oriente (China) / que estenderá a sua praga (vírus) / vinda dos seres da noite (morcegos) / à terra das sete colinas (Itália) / transformando o pó (morte) / aos homens do crepúsculo (anciões) / para culminar na sombra da ruína (fim da economia mundial)"

O Polígrafo procurou estes versos na obra de Nostradamus, não os tendo encontrado. O mesmo já sucedera com outras plataformas de fact-checking internacionais, como a espanhola "Maldito Bulo", que chegou à mesma conclusão, garantindo aliás que a palavra "praga" não consta de nenhuma das profecias ou demais textos publicados por Nostradamus.

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