A "grande vitória" proclamada à meia-noite

Logo na madrugada de 4 de novembro, poucas horas após o encerramento das urnas de voto nos EUA, Donald Trump abriu as hostilidades com um tweet publicado às 0h45m (5h45m no fuso horário de Portugal), anunciando convictamente: "Vou fazer uma declaração esta noite! Uma grande vitória!"

A corrida eleitoral não estava, de todo, decidida, com resultados provisórios muito próximos entre os dois candidatos em estados-chave e um grande número de votos ainda por contabilizar. Sobretudo votos por correio em que a tendência seria mais favorável ao rival Joe Biden, na medida em que os eleitores do Partido Democrata teriam uma maior propensão a não se deslocarem até às urnas de voto no dia da eleição, por causa do risco de contágio inerente à pandemia em curso.

Nas semanas que antecederam a eleição, aliás, muitos comentadores políticos norte-americanos já tinham antecipado a demora no apuramento dos resultados, prevendo que a contabilização dos votos por correio poderia vir a prolongar-se por vários dias. Trump já tinha lançado uma série de suspeitas em torno dessa forma de voto, alertando para a iminência de uma "fraude maciça", embora sem qualquer fundamento concreto.

À medida que os votos foram sendo contados nos dias seguintes à eleição, a "grande vitória" proclamada desde logo por Trump na madrugada de 4 de novembro esfumou-se por entre a realidade dos números oficiais. E acabou derrotado por Biden no Colégio Eleitoral (306 vs. 232 votos) e no voto popular (81.283.485 vs. 74.223.744 votos) por largas margens.

"Eles estão a tentar roubar a eleição"

Cerca de quatro minutos depois, Trump voltou à carga no Twitter, alertando: "Estamos a liderar em grande, mas eles estão a tentar roubar a eleição. Nós nunca vamos deixá-los fazer isso. Os votos não podem ser recebidos depois de as urnas terem fechado!"

Este tweet foi imediatamente sinalizado pelo Twitter como difusor de "informações incorretas sobre as eleições", desde logo porque na altura em que foi publicado não se verificava a propalada liderança de Trump na contagem dos votos. Aliás, o facto é que nunca chegou a liderar a contagem ao nível do Colégio Eleitoral, ao longo de todo o processo de apuramento.

Quanto à alegada recepção ou contagem de votos depois de as urnas terem fechado, essa acusação também não tinha fundamento, na medida em que os estados cumpriram os regulamentos e não aceitaram votos inválidos. Importa aqui salientar que, em alguns estados, a lei permite receber votos por correio depois do encerramento das urnas desde que tenham data de envio até ao dia da eleição.

Conjunto de 130 mil votos em Michigan desviado para Biden

Cerca de duas horas antes de ter anunciado a sua "grande vitória", Trump já tinha partilhado no Twitter uma publicação em que se alegava que "um conjunto de 130 mil votos em Michigan foram 100% para Biden".

Estava em causa a denúncia de uma suposta "fraude eleitoral" em Michigan, EUA, através do misterioso surgimento (durante a madrugada) de 130 mil votos (alegadamente provenientes de um só condado) que teriam sido todos atribuídos a Biden.

Os mapas que aparecem na publicação com a suposta escalada abrupta dos votos em Biden no Michigan são produzidos pela Decision Desk HQ, um serviço de dados e análises eleitorais. "Foi um simples erro a partir de um arquivo criado pelo Estado que nós inserimos", esclareceu Drew McCoy, porta-voz da Decision Desk HQ, em declarações ao Politifact. O mesmo McCoy também assegurou que a Decision Desk HQ não altera os dados fornecidos pelos Estados.

"O Estado apercebeu-se do erro e produziu uma contagem atualizada. Assim que o fizeram, nós atualizámos a contagem de acordo [com esses dados]. Isto acontece em noites eleitorais e esperamos que outros tabuladores no Michigan tenham deparado com este erro e corrigido em tempo real, como nós fizemos", afirmou McCoy.

Na realidade tratou-se apenas de um erro de digitação ou processamento de dados, aliás prontamente corrigido. Acresce que os mapas com a evolução da contagem nem sequer são oficiais ou de entidades responsáveis pela contagem dos votos.

"É claro que vencemos na Geórgia"

Na conferência de imprensa que protagonizou na madrugada de 4 de novembro, entre outras alegações falsas ou infundadas, Trump sublinhou que "é claro que vencemos na Geórgia. Estamos à frente por 2,5% ou 117 mil votos, faltando apurar somente 7% dos votos. Eles nunca nos vão alcançar. Eles não podem alcançar-nos".

É verdade que Trump chegou a liderar a contagem dos votos na Geórgia, aliás um Estado que tinha votado sempre maioritariamente no candidato do Partido Republicano desde 1996, pelo que nem sequer constituía uma surpresa. Mas a corrida estava ainda bastante renhida quando Trump apontou para uma vitória garantida e, nos dias seguintes, inverteu-se mesmo a favor do rival Biden.

No final, o candidato do Partido Democrata venceu com 49,5% dos votos (2.473.633 no total), muito próximo de Trump que obteve 49,3% dos votos (2.461.854 no total). Foi um dos cincos estados que viraram de "vermelho" (cor do Partido Republicano) para "azul" (cor do Partido Democrata) entre 2016 e 2020, por uma margem escassa, cerca de 12 mil votos, numa eleição em que Jo Jorgensen, candidata do Partido Libertário, obteve 1,2% dos votos (62.229 no total) na Geórgia.

"Milhões de boletins de voto foram alterados"

Nas semanas que se seguiram à eleição, Trump nunca cessou de lançar falsas acusações de fraude e demais irregularidades. No dia 16 de novembro, por exemplo, novamente no Twitter, denunciou que "milhões de boletins de voto foram alterados pelos democratas" e que houve quem votasse "depois de a eleição ter terminado".

Mais uma vez, acusações sem fundamento ou provas concretas. É unânime a constatação entre a imprensa de referência dos EUA e todas as plataformas de verificação de factos que não existe qualquer indício de que boletins de voto tenham sido adulterados pelo Partido Democrata, ou outro eventual interveniente, muito menos à escala de milhões.

Também não há registo de pessoas que tenham votado depois de a eleição ter terminado. O que aconteceu foi que, tal como em eleições anteriores nos EUA, alguns estados aceitaram boletins de voto por correio que foram recebidos após o dia da eleição, mas apenas os que tinham sido remetidos antes ou até ao dia da eleição, de acordo com os regulamentos em vigor.

A viciação da contagem eletrónica de votos

Em diversas ocasiões, Trump também baseou as suas acusações de "fraude eleitoral" numa suposta viciação da contagem eletrónica de votos pela empresa Dominion Voting System, teoria da conspiração que tem sido muito difundida nas redes sociais ao longo dos últimos meses.

Mas o facto é que não há indícios de fraude ou quaisquer problemas com o sistema de contagem eletrónica de votos, como foi confirmado pela generalidade da imprensa norte-americana.

"Não houve falhas no software da Dominion e os boletins de voto foram tabulados com precisão. Os resultados são 100% auditáveis", garantiu a empresa visada em comunicado, logo após as eleições. "Não existem relatos credíveis ou evidências de problemas com o software", acrescentou.

A própria Agência de Cibersegurança e Segurança de Infraestruturas (CISA) dos EUA assegurou, no dia 12 de novembro, que "não há evidências de que qualquer sistema de voto tenha apagado ou perdido votos, alterado votos, ou tenha sido de algum modo comprometido".

As múltiplas acusações infundadas e fake news em torno da Dominion Voting System já foram refutadas ou desmistificadas em artigos de verificação de factos.

Siga-nos na sua rede favorita.
International Fact-Checking Network