As pessoas que têm plena confiança nas suas capacidades em detetar desinformação online poderão ser um dos alvos fáceis das fake news. As conclusões são de um estudo intitulado: "Overconfidence in news judgments is associated with false news susceptibility", publicado na Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), revista cientifica norte-americana.

No estudo, participaram 8.285 norte-americanos aos quais foi pedido que classificassem, como desinformação ou não, um conjunto de manchetes partilhadas no Facebook. De seguida, os participantes teriam de avaliar as suas capacidades em distinguir o conteúdo de notícias falsas em relação a informação credível.

Ao tratar os dados que mediam o comportamento online dos entrevistados, os investigadores concluíram que aqueles com uma perceção inflacionada da sua capacidade em identificar desinformação foram também aqueles que mais falharam nesse mesmo reconhecimento de conteúdo falso. Os participantes mais confiantes tiveram maior dificuldade em distinguir afirmações verdadeiras e falsas sobre eventos atuais e relataram maior tendência para compartilhar conteúdo falso, especialmente quando alinhado com a sua ideologia política.

De acordo com parte do estudo revelada até ao momento, "três em cada quatro americanos sobrestima a sua capacidade relativa à distinção entre manchetes de notícias legítimas e falsas", sendo que os participantes do estudo se avaliaram 22 percentis acima da média.

Os participantes mais confiantes tiveram maior dificuldade em distinguir afirmações verdadeiras e falsas sobre eventos atuais e relataram maior tendência para compartilhar conteúdo falso, especialmente quando alinhado com a sua ideologia política.

"Mostramos que indivíduos com excesso de confiança têm maior probabilidade de visitar sites não confiáveis e de não distinguir com sucesso entre afirmações verdadeiras e falsas sobre eventos atuais nas perguntas da pesquisa, bem como relatam maior disposição para reagir ou compartilhar conteúdo falso nas redes sociais, especialmente quando este for politicamente compatível", indica-se ainda.

A conclusão do estudo é clara: "Os indivíduos com menor capacidade para identificar o conteúdo de uma notícia falsa são também os menos cientes de suas próprias limitações e, portanto, mais suscetíveis a acreditar e divulgá-lo ainda mais."

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Benjamin Lyons, professor na Universidade de Utah, em Salt Lake City, e principal autor do estudo afirmou ao The Guardian que "é comum, em qualquer domínio, em média, as pessoas apresentarem excesso de confiança". No entanto, mostrou-se espantado com a percentagem apurada neste estudo: "70% das pessoas a exibirem excesso de confiança [em relação a desinformação] é um número tão grande".

Tal como referido por Lyons ao jornal britânico, fatores como o género também influenciam a probabilidade de desenvolver excesso de confiança e, em consequência, uma maior vulnerabilidade ao conteúdo falso na internet. "Os homens entrevistados revelaram maior excesso de confiança, sendo este um dado consistente em literatura relacionada com a avaliação de confiança, os homens tendem sempre a ter maior confiança", afirma o autor do estudo.

"Os homens entrevistados revelaram maior excesso de confiança, sendo este um dado consistente em literatura relacionada com a avaliação de confiança, os homens tendem sempre a ter maior confiança".

Apesar de o estudo não provar que o excesso de confiança causa diretamente a difusão de notícias falsas, a discrepância entre a perceção da capacidade de uma pessoa para detetar a desinformação e a sua competência real pode desempenhar um papel crucial na difusão de informações falsas.

Sugere-se também que aqueles que são humildes, ou seja, pessoas que tendem a envolver-se em auto-monitorização, a ter comportamentos reflexivos e a pensar mais nos sites que visitam e nos conteúdos que partilham são, provavelmente, menos suscetíveis à desinformação.

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