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Sismo na Turquia e Síria – As principais histórias falsas que circulam nas redes sociais

Este artigo tem mais de um ano
Depois do sismo que atingiu a região da fronteira entre a Turquia e a Síria, muitas histórias começaram a ser partilhadas nas redes sociais, sob a alegação de que se passavam nestes países. Entre as publicações, há vários vídeos e fotografias que, não só não são atuais, como não foram captadas na Turquia ou na Síria. O Polígrafo identifica algumas dessas publicações e explica o verdadeiro contexto em que foram captadas.

O sismo de magnitude 7,8 atingiu, no passado dia 6 de fevereiro, a região da fronteira entre a Turquia e a Síria provocou milhares de mortos. De acordo com o balanço a 9 de fevereiro, nos dois países somam já mais de 17 mil vítimas mortais, um número que poderá continuar a aumentar nos dias seguintes.

Enquanto as equipas de salvamento lutam contra o tempo para retirar as vítimas que estão ainda presas nos escombros, nas redes sociais começaram a circular fotografias e vídeos retratando a destruição e a desgraça que assola estes dois países. Contudo, nem todos os conteúdos partilhados refletem o de facto que se está a passar na Turquia e na Síria. Alguns vídeos foram gravados anos antes do terramoto acontecer e até noutros países.

O Polígrafo identificou um conjunto de vídeos e fotografias que está a ser falsamente associados ao sismo da Turquia e da Síria e explica a verdadeira origem destas imagens.

Uma explosão numa central nuclear

Enquanto as imagens mostram uma forte explosão, na descrição pode ler-se que esta explosão ocorreu “numa central nuclear”, na sequência do “terramoto na Turquia”. A informação que é partilhada nesta publicação é, a vários níveis, falsa: nem o vídeo mostra uma central nuclear a explodir, não foi captado na sequência de um terramoto, tampouco foi captado na Turquia.

O vídeo foi filmado a 4 de agosto de 2020, em Beirute. Um edifício que funcionava como reserva de nitrato de amónio, na região portuária da capital libanesa, explodiu, provocando mais de 200 mortos e milhares de feridos. A forte explosão provocou estragos em toda a cidade.

Quer isso dizer que o que é partilhado como sendo uma central nuclear, é na verdade uma reserva de nitrato de amónio, localizada na capital do Líbano – a mais de 500 mil quilómetros de distância da Turquia.

A fachada de um edifício que cai

O vídeo causa impacto: de repente, o que aparenta ser a fachada de um prédio solta-se e cai na rua. À semelhança de outros vídeos, também este é apresentado como tendo acontecido na Turquia. Mas não é verdade.

Na verdade, este vídeo já é antigo. Foi captado em 2016, em Tóquio, no Japão, depois do forte terramoto que atingiu o arquipélago nipónico. Além de não ser atual, também não mostra a queda de uma fachada. O que caiu, na verdade, foram os andaimes que tinham sido colocados no prédio que estava a ser demolido. Esta publicação foi também verificada pelo jornalista da AFP Billy McCarthy.

A 17 de abril de 2016, o momento foi descrito num blog japonês: “Olhando através da multidão, a via rápida Kawasaki a sul da estação Seiseki-Sakuragaoka está completamente encerrada ao trânsito. A razão é que o andaime de obras no local de uma demolição de um edifício no lado sul da intersecção ‘Seiseki-Sakuragaoka Station East’ com ‘Kawasaki Kaido’ desabou e caiu devido aos fortes ventos, bloqueando a Kawasaki Kaido.”

No texto, é ainda referido que a queda do andaime “não terá causado danos aos pedestres nem aos veículos que passavam”.

Ou seja: o vídeo foi filmado no Japão e não tem qualquer relação com a Turquia ou com o sismo que aconteceu este ano.

Um edifício que aguentou a força do terramoto

O vídeo mostra, durante perto de dois minutos, o momento em que ocorre um sismo. Apesar da descrição alegar que foi gravado há poucos dias, durante o terramoto que atingiu a Turquia e a Síria, essa informação é falsa. Nem o vídeo é atual, nem mostra um edifício “bem construído” na Turquia.

Através da busca pelas imagens, é possível encontrar um vídeo que inclui as mesmas imagens, mas que tem uma maior duração. O conteúdo foi publicado, há três anos, no YouTube e está identificado como o “grande terramoto no leste do Japão a 11 de março de 2011”, captado no “aeroporto de Sendai-Surging”, localizado no nordeste do país.

O vídeo original, que tem um total de sete minutos, inclui ainda imagens do momento em que o tsunami invade a pista do aeroporto. O sismo de 2011 no Japão, com magnitude de 9,0, foi um dos mais intensos dos últimos 20 anos.

Ou seja, o vídeo que está a ser partilhado como tendo sido captado na Turquia não tem qualquer relação com este país. Foi filmado há mais de 10 anos, do outro lado do mundo, no Japão.

Um edifício que desabou

Várias imagens de edifícios a desabar forma partilhadas nas redes sociais, depois do sismo que atingiu a Turquia e a Síria, no passado dia 6 de fevereiro. Nem todos são verdadeiros: no TikTok está a ser partilhado a destruição de um edifício que, na verdade, não aconteceu na Turquia.

Através dos mecanismos de pesquisa inversa de imagens, é possível verificar que este vídeo foi captado na Arábia Saudita e não na Turquia. Foi publicado, no dia a 12 de abril de 2022, um vídeo que mostra o percurso de um veículo pela “Jeddah Road, Al-Clio 3, Old Makkah Road”. No vídeo é possível identificar o edifício em causa, antes de ter sido demolido.

Uma vez que o edifício era na Arábia Saudita, é falso que a queda do prédio esteja associada ao terramoto da Turquia e da Síria, como é alegado nas publicações

Um cão que ajudou a salvar o dono

As imagens dos resgates têm comovido o mundo, seja o resgate de um bebé recém-nascido que foi retirado dos escombros ou o salvamento de uma mãe e uma bebé de dois anos, mais de 40 horas após o sismo. No entanto, entre as histórias reais, circulam também publicações falsas.

É o caso da fotografia que, alegadamente, mostra um cão ao lado do seu dono, que está preso nos escombros. Na descrição, é afirmado que a imagem foi captada na sequência do “terramoto da Turquia” e que o “cão encontrou o seu dono nos escombros e conseguiu que fosse resgatado”. A publicação foi inclusive partilhada pelo líder do Chega, André Ventura.

Mas a imagem não é atual. A fotografia em questão está disponível em vários bancos de imagens – como a agência britânica Alamy, o Depositphotos ou o ShutterStock. Ao analisar os dados de publicação, é possível ver que esta foi publicada em outubro de 2018, ou seja, anos antes de ocorrer o sismo na Turquia e na Síria.

O autor da imagem é Jaroslav Noska. No seu perfil pessoal são apresentadas várias imagens semelhantes à que está a ser partilhada nas redes. Todas elas têm como data de publicação de outubro de 2018, mas não há referência ao local ou do contexto em que foram tiradas.

A ascensão das vítimas que morreram no terramoto

Perante um vídeo que mostra uma cidade durante a noite, surge uma bola de luz vermelha que se movimenta pelo céu, eleva-se e torna-se cada vez mais brilhante. No canto inferior esquerdo deste vídeo de cerca de 25 segundos aparecer a descrição: “A prova de que a ascensão está a acontecer agora na Turquia durante os terramotos” – a “ascensão” é um termo usado para descrever a crença religiosa da subida das almas ao céu.

No entanto, há outra referência no vídeo merece atenção: no canto superior esquerdo pode ler-se, em espanhol, a frase “recreação por computador”. Ou seja, este vídeo foi editado por computador e não representa um acontecimento verdadeiro.

O efeito videográfico da “bola de luz” é relativamente comum. No Youtube existem tutoriais para ensinar como se pode adicionar este tipo de efeitos a vídeos gravados anteriormente.

Conclusão: este vídeo foi editado e o efeito da bola de luz foi acrescentado digitalmente. Não representa um acontecimento real e não há qualquer prova que a imagem de fundo represente a Turquia.

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