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Explosão em hospital de Gaza: 500 mortos e dois culpados. Uma mão cheia de teorias com as quais deve ter cuidado

Na noite da última terça-feira, uma forte explosão no complexo hospitalar árabe Al-Ahli, em Gaza, provocou um número de mortes ainda não confirmado. O que permanece também por confirmar é a autoria do "ataque": foi Israel ou o Hamas? A cratera partilhada nas redes sociais existe mesmo? E explica o recurso a um "rocket"? (Em atualização)

Israel atingiu um hospital em Gaza“, escreveu Mariana Mortágua na madrugada de 18 de outubro. A nível mundial este estava longe de ser o primeiro “tweet” sobre o tema, mas na política nacional, Mortágua foi uma das primeiras a reagir. À coordenadora do Bloco de Esquerda (BE), e a vários outros utilizadores do “X”, faltava apenas uma confirmação (que no momento de publicação deste artigo ainda não chegou): a da autoria do ataque.

[twitter url=”https://twitter.com/MRMortagua/status/1714419296426742086″/]

Noutra franja da rede social, “tweets” garantiam que a explosão tinha sido provocada pelo Hamas: e tinham tanta certeza quanto a bloquista tinha do contrário. Afinal, com o que sabemos neste momento, é ou não possível dizer quem foi o responsável pelo ataque? 

A resposta mais simples é um “não“. Se o ministro da Saúde de Gaza acusa Israel de atacar o hospital, as Forças de Defesa de Israel (FDI) dizem que a explosão foi nada mais nada menos que o resultado de um ataque fracassado levado a cabo pela Jihad Islâmica de Gaza. Até ao momento, não há confirmação de fontes independentes sobre aquilo que verdadeiramente aconteceu. Mas há meios para lá chegar.

Facto conhecido: a explosão aconteceu no complexo hospitalar Al-Ahli Arab, localizado na cidade de Gaza.

O que dizem Israel e Gaza:

Notícias do pós-explosão citam declarações de Ashraf Al-Qudra, porta-voz do Ministério da Saúde em Gaza (controlado pelo Hamas), onde o próprio garante que o ataque foi realizado pelas forças israelitas.

Alray, a agência de notícias da Palestina, partilhou uma declaração do Hamas publicada na manhã de quarta-feira, 18 de outubro, na qual a organização diz que Israel é responsável pelo ataque: “O ocupante [Israel] é diretamente responsável pelo massacre do Hospital Batista [como é conhecido o hospital árabe Al-Ahli] e as suas flagrantes mentiras não vão enganar ninguém.”

O que sabemos sobre o número de mortos:

O número estimado de mortos dado pelo Ministério da Saúde palestiniano em Gaza é de pelo menos 500 pessoas. Mais um dado que ainda não foi confirmado por fontes independentes, mas que Israel já negou. “O Hamas verificou os relatórios e percebeu que foi tudo um fracasso da Jihad Islâmica Palestina. Por esse motivo, decidiram lançar uma campanha global na qual inflamaram o número de vítimas”, disse Daniel Hagari, porta-voz das FDI.

Ao início da tarde de ontem, o Ministério da Saúde atualizou a sua estimativa de vítimas: eram então 471 mortos, 28 casos críticos e 314 lesões de gravidade variável. Nem o número inicial nem esta atualização foram até ao momento confirmados por fontes independentes.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) também publicou um comunicado, logo a 17 de outubro, onde se lê que os primeiros relatórios “indicam centenas de mortes e ferimentos”, sem mencionar, no entanto, um número específico.

Há dados a retirar da geolocalização dos vídeos?

Especialistas da OSINT (Open Source Intelligence) garantem ter geolocalizado, através do momento em que a explosão aconteceu, a cratera formada pelo ataque. A teoria formada é a de que a carga explosiva de um rocket caiu no complexo hospitalar, embora ainda não haja confirmação oficial. Esta é a garantia dada também, em Portugal, por João Cravinho, que considerou esta quarta-feira que a “informação de que poderá ter sido um rocket da Jihad Islâmica” a provocar a explosão num hospital de Gaza, na terça-feira à noite, “parece ser uma ideia bastante consolidada”.

As conclusões da OSINT são as seguintes:

Nas proximidades do complexo hospitalar Al-Ahli Arab, pode observar-se aquilo que parecem ser os restos de um incêndio e “uma cratera de impacto”.

Já as FDI apontaram, por sua vez, que não há qualquer cratera ou outros edifícios danificados à volta do complexo: isto servia de evidência para negar a autoria do ataque. João Caetano Dias, do IL, tinha a mesma certeza: “Para os que engoliram a história do míssil israelita, do hospital destruído e dos 500 mortos contados em 5 minutos… afinal não há cratera de míssil, nem hospital destruído. Houve uma explosão no parque de estacionamento. Agora falta saber o que explodiu.” Esta última afirmação é tampouco confirmada por fontes independentes.

[twitter url=”https://twitter.com/IDF/status/1714548529538953637?t=01fGXdQz3-DVvzYusSxYWQ&s=35″/]

O Exército israelita publicou ainda o áudio de uma suposta conversa entre dois membros do Hamas, na qual um deles diz que o ataque parece ter sido provocado por um rocket da Jihad Islâmica. A veracidade do mesmo não foi confirmada até ao momento.

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