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Espanha. Cinco mentiras e conspirações sobre as legislativas deste domingo

Ainda estão em aberto as possibilidades para o nome que vai liderar o próximo Governo espanhol, já que as eleições legislativas de ontem terminaram sem maiorias absolutas à esquerda ou à direita (mas com uma derrota significativa da extrema-direita). Desde que o primeiro-ministro Pedro Sánchez convocou estas eleições, os conteúdos de desinformação multiplicaram-se nas redes sociais: este é um apanhado das cinco "fake news" mais "cabeludas" deste sufrágio.

Pedro Sánchez e PSOE interromperam as saídas dos comboios de Valência para que os passageiros não conseguissem votar? – Pimenta na Língua

“É claro que é para impedir que as pessoas possam ir e voltar no mesmo dia e possam votar”; “Esta é uma das surpresas do PSOE”. Foi a par destas mensagens que se partilhou nas redes sociais uma publicação do secretário-geral do Partido Popular (PP) de Madrid, Alfonso Serrano, na qual este sugere, com ironia, que “é uma coincidência” que neste dia eleitoral [23 de julho] a circulação de comboios de Valência tenha sido interrompida por um incidente num túnel”.

“Que coincidência, não? Que os comboios cheios de madrilenos não possam sair de Valência por causa de um problema num túnel. Ninguém lhes diz nada. A Adif não propõe alternativas. Exigimos uma ação urgente e imediata”, escreveu Serrano.

Essa publicação foi logo depois partilhada, apontando diretamente para Pedro Sánchez e para o PSOE como principais responsáveis pela interrupção do serviço, sem no entanto fornecer nenhuma prova. Às 10:50 da manhã de ontem, a Adif informou um “plano alternativo de transporte rodoviário” para as rotas afetadas.

Além disso, a ministra dos Transportes, Mobilidade e Agenda Urbana, Raquel Sánchez, escreveu às 17:54, no Twitter, que a Renfe tinha dado “solução de mobilidade a mais de 5 mil viajantes” e que “praticamente todos os clientes têm ou tiveram alternativas para se deslocar”.

[twitter url=”https://twitter.com/raquelsjimenez/status/1683145152569696257″/]

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Fraude eleitoral. Boletim de voto em Navarra não apresentava Vox como opção? – Descontextualizado

“Isto é fraude. É anticonstitucional”. A descrição foi feita por alguns utilizadores das redes sociais em resposta a um vídeo em que se questiona o porquê de o partido Vox não surgir como opção em Navarra nas eleições legislativas.

Mas é falso que se trate de um “pucherazo”, expressão espanhola para “fraude eleitoral“, já que foi o próprio Vox que não apresentou lista naquele círculo eleitoral.

Na lista de candidaturas oficiais, publicada pelo Boletim Oficial do Estado (BOE), pode-se verificar que o Vox não apresentou lista para o Senado em Navarra (página 157 do documento), ao contrário de EH Bildu, PSN-PSOE, Geroa Bai, Unión del Pueblo Navarro, PP, PCTE, Recortes Cero, PACMA, Sumar e PUM+J.

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Programa do Vox para estas eleições propunha “matar os cães que ninguém adota”? – Falso

“Vox propõe matar cães que ninguém adota”. Nos últimos dias de campanha, este recorte do “El Español” foi partilhado como se se tratasse de uma proposta eleitoral atual da extrema-direita. Esta é mais uma mentira partilhada em véspera de eleições, já que, apesar de o título e o artigo serem reais, não correspondem ao quadro das Eleições Legislativas de 23 de julho, nem a uma posição estabelecida pelo partido.

A 13 de dezembro de 2019, o vereador do município de Saragoça eleito pelo Vox, Julio Calvo Iglesias, propôs numa reunião da Comissão de Cultura e Participação (neste vídeo, a partir do minuto 31) o sacrifício dos cães internados no centro de proteção animal de Peñaflor que fossem “inadoptáveis” por serem velhos e/ou doentes, mas a proposta não prosperou.

No programa eleitoral do Vox para as Legislativas não surge, em nenhuma secção, esta proposta ou uma outra semelhante. Além disso, a Lei de Protecção dos Direitos e Bem-Estar dos Animais não permite “que os animais sejam abatidos por questões de localização, idade ou espaço das instalações”.

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Feijóo utilizou um auricular Bluetooth durante debate na televisão? – Falso

Alberto Núñez Feijóo foi acusado no Twitter de ter recorrido a um auricular durante o debate eleitoral de 10 de julho, na televisão espanhola: “Sei em primeira mão que Feijóo usava um auricular.” Em causa fotografias do líder do PP onde Feijóo faz um gesto em que leva o dedo indicador à orelha esquerda, mas será que estas imagens são suficientes para comprovar que o político usou esse aparelho eletrónico no debate frente a Pedro Sánchez?

De acordo com o jornal “Maldita.es”, o único frente-a-frente entre os líderes dos dois principais partidos políticos estava agendado para as 22 horas de segunda-feira, 10 de julho, nos estúdios da “Atresmedia” em San Sebastián de los Reyes (Madrid). As imagens que foram divulgadas correspondem ao debate, mas foram captadas momentos antes do seu início. Na verdade, foram retiradas da transmissão que o programa “Al Rojo Vivo” fez durante o pré-debate. Feijóo conversava com Marta Varela, a sua chefe de gabinete, e uma outra pessoa. Pedro Sánchez e moderadores do debate ainda não estavam na sala.

Além disso, o próprio PP nega que Feijóo tenha recorrido a um auricular durante o debate:”Como é que a ‘Atresmedia’ ia consentir com o uso desses dispositivos?” Uma garantia que é corroborada por Antonio García Ferreras, o apresentador do programa que disse que “as regras foram feitas por nós” e que, assim sendo, não podiam ser levados para estúdio quaisquer auriculares.

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É verdade que meio milhão de votos por correio não chegaram a ser entregues? – Descontextualizado

Vários eleitores demonstraram preocupação com a entrega dos votos por correio, nomeadamente nas redes sociais: será possível que quase meio milhão de votos tenham “desaparecido” e que essas pessoas tenham sido impossibilitadas de votar?

Não. Os Correios espanhóis anunciaram, a 17 de julho, que tinham disponibilizado aos eleitores 2.575.597 cédulas do total de pedidos recebidos (2.622.808). Destes, 2.124.990 foram entregues diretamente ao eleitor através do carteiro, enquanto que 450.607 permaneciam nos escritórios. “Estas pessoas podem recolher a documentação eleitoral no local indicado nos aviso que os carteiros deixaram nas caixas de correio”, garante a empresa em comunicado.

Assim, e independentemente de terem recebido as cédulas em mão ou de terem que as recolher num posto de correios, os eleitores puderam depositar o seu voto em qualquer posto até às 14h da última quinta-feira, 21 de julho. Qualquer pessoa que tenha solicitado o voto por correio foi impossibilitada de votar presencialmente no dia das eleições.

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