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Começa o julgamento de Jair Bolsonaro. Dez mentiras virais sobre a tentativa de golpe de Estado

A 8 de janeiro de 2023, uma semana depois da tomada de posse de Lula da Silva, as sedes dos três poderes, no Brasil, foram invadidas e vandalizadas por apoiantes de Jair Bolsonaro. Hoje, cerca de dois anos e oito meses depois, o ex-Presidente brasileiro começou a ser julgado por tentativa de golpe de Estado, com acusações que lhe podem valer mais de 40 anos de prisão. De teorias da conspiração a envolver o atual chefe de Estado e o STF a alegações falsas sobre a participação de infiltrados, o Polígrafo reúne dez mentiras verificadas pela agência Lupa à data dos acontecimentos.
© EPA/Sebtastião Moreira

Arrancou esta terça-feira, 2 de setembro, o julgamento de Jair Bolsonaro e dos sete antigos colaboradores acusados da participação na tentativa de golpe de Estado de 8 de janeiro de 2023. Esta é a primeira vez que um ex-Presidente brasileiro enfrenta acusações de crimes contra a ordem democrática, arriscando uma pena de mais de 40 anos de prisão.

Da invasão e do vandalismo das sedes do Congresso, do Supremo Tribunal Federal e do Palácio do Planalto, que aconteceu uma semana depois da tomada de posse de Lula da Silva, resultou muita desinformação. Ao longo dos últimos dois anos e oito meses, a Agência Lupa produziu pelo menos 40 verificações de factos sobre este tema. O Polígrafo compilou dez das mentiras que foram difundidas online.

Relatório da CPI não prova que Lula da Silva premeditou ataques 

Lula da Silva não escapou às teorias da conspiração e foi também associado a fake news sobre a tentativa de golpe de Estado. Nas redes sociais, começou a circular a alegação de que o Presidente tinha conhecimento do plano de ataque, mas que não o impediu.

“Lula sabia. Lula premeditou tudo. Olha aí pessoal. Saiu o relatório final do 8 de janeiro e a esquerda não gostou”, denunciou-se.  A prova seria o relatório final da CPI dos Atos Antidemocráticos da Câmara Legislativa do Distrito Federal. No entanto, isso não é verdade. Este documento não associa o nome do Presidente brasileiro aos ataques nem o coloca entre os indiciados pelo crime.

Não foi um infiltrado que destruiu um relógio histórico durante a tentativa de golpe de Estado

Para criar a ideia de que foi um infiltrado de esquerda que destruiu um relógio do século XVII, no Palácio do Planalto, começou a ser falsamente associada a fotografia de Danilo, um militante do Movimento sem Terra (MST), a uma imagem do invasor registada pelas câmaras de vigilância.

Contudo, estas publicações são falsas. Além de Danilo não ter estado em Brasília a 8 de janeiro, o autor do crime foi identificado como Antônio Cláudio Alves Ferreira, um homem para o qual existem vários indícios de não se tratar de um infiltrado.

A atuação de Antônio na tentativa de golpe e a sua participação em acampamentos antidemocráticos montados à frente de quartéis constam nas provas obtidas pela Procuradoria-Geral da República (PGR), refere a Lupa. Entre estes registos, há várias fotografias e vídeos gravados, em que o acusado surge vestido de verde e amarelo, tal como os participantes dos ataques.

STF não utilizou 8 de janeiro para instaurar censura

A passagem do Relator da Organização dos Estados Americanos (OEA) pelo Brasil, entre 9 e 14 de fevereiro deste ano, também levou à partilha de desinformação nas redes sociais. Num vídeo que circula nas redes sociais alega-se que Pedro Vaca Villarreal, o responsável, admitiu que o STF se aproveitou dos ataques para instaurar a censura no brasil, o que é mentira.

O homem que surge no vídeo não é o relator da  OEA, mas sim Julio Pohl,  advogado da Alliance Defending Freedom (ADF International), uma organização conservadora. As declarações foram prestadas depois de um encontro de Villarreal com parlamentares da oposição, advogados e parentes dos presos pelos ataques de 8 de janeiro.

Polícia não revistou uma criança no 8 de janeiro

Depois dos atos golpistas começou a circular a fotografia de um momento inusitado: um polícia a revistar uma criança com um detetor de metais supostamente no âmbito dos ataques. Mas é mais uma ideia falsa. A imagem é, na realidade, um frame de um vídeo que mostra uma brincadeira entre o agente e a menina na entrada do Palácio da Alvorada, em Brasília. Na gravação, surgem ainda mais duas crianças que se divertem ao serem revistadas pelo guarda com detector de metais.

Idosa não ficou 120 dias presas após tentativa de golpe em Brasília

Num vídeo partilhado de um ato bolsonarista ocorrido a 25 de fevereiro do ano passado é apresentada Ilda, uma idosa que teria ficado 120 dias presa em Brasília após os ataques de 8 de janeiro, o que não é verdade. Não foi encontrada nenhuma “Ilda”, “Hilda” ou “Ivanilda” na lista de detidos no ano passado pelos atos, disponibilizada pela Secretaria de Administração Penitenciária do Distrito Federal.

Lula não estava em Brasília durante os atos golpistas de 8 de janeiro

Circulou nas redes sociais a alegação de que o presidente Lula estava em Brasília durante os ataques golpistas de 8 de janeiro de 2023, com base num vídeo onde este aparece no Palácio do Planalto ao lado do então ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Gonçalves Dias. No entanto, essa informação era falsa. Lula estava, na verdade, em Araraquara, no estado de São Paulo, a avaliar os danos causados pelas chuvas. Só chegou a Brasília pelas 20h50 e o vídeo foi gravado depois disso, às 21h31, já a invasão tinha acabado.

As imagens associadas a esta alegação foram, na verdade, um dos factores que levaram à demissão do general Gonçalves Dias, que aparece nas gravações dentro do Palácio durante os ataques (às 16h29). No entanto, e como explicado, Lula só aparece ao lado do ministro às 21h31. O GSI divulgou depois as imagens completas do circuito interno, e várias agências de verificação, como a Lupa, confirmaram que a versão que circula nas redes sociais era falsa.

Vídeo não mostra ato golpista no Palácio do Planalto

Também em janeiro de 2023, foi partilhado nas redes sociais um vídeo que mostrava uma multidão na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, alegando tratar-se dos protestos golpistas de 8 de janeiro de 2023. No entanto, também esta informação era falsa. A gravação correspondia, na verdade, a uma manifestação bolsonarista realizada a 7 de setembro de 2021, também em Brasília. Elementos como a posição dos cartazes nos edifícios, o carro de som e as faixas nas cores verde e amarela confirmam que as imagens não têm ligação com os ataques aos edifícios dos três poderes.

Elon Musk não divulgou “imagens inéditas dos ataques”

Segundo esta “fake-news” partilhada à data da invasão, imagens internas do Palácio do Planalto durante os ataques de 8 de janeiro teriam sido divulgadas por Elon Musk. A verdade, tal como verificou a agência Lupa, é que as imagens foram tornadas públicas pelo Governo brasileiro em abril de 2023, por determinação do ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes. Um dos vídeos exibe, inclusive, o logótipo do site Poder360, que divulgou o conteúdo com base em material fornecido pelo GSI.

Trump não se referiu aos “reféns” do 8 de janeiro em discurso antes de tomar posse

Um vídeo que mostra Donald Trump, antes de tomar posse, a exigir o regresso de presos dos ataques de 8 de janeiro no Brasil é falso. O discurso aconteceu, em julho de 2024, durante a Convenção Nacional Republicana, mas na verdade Trump referia-se a cidadãos norte-americanos mantidos como reféns no exterior, nomeadamente por grupos como o Hamas. Trump não mencionou o Brasil nem os detidos ligados aos ataques em Brasília.

Lula da Silva não mudou de opinião sobre o 8 de janeiro

Neste caso, declarações antigas do presidente Lula foram apresentadas de forma enganosa como se fossem recentes, sugerindo por isso que o Presidente brasileiro teria alterado o discurso sobre os ataques de 8 de janeiro. No entanto, as falas em questão eram de uma entrevista dada à GloboNews a 18 de janeiro de 2023, poucos dias depois dos acontecimentos. Nessa altura, Lula já dizia que a invasão fora planeada e que os envolvidos conheciam bem os edifícios públicos. Os vídeos que começaram a circular limitavam-se a recortar trechos dessa entrevista fora do contexto, de forma a passar a ideia de contradição.

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