A polémica estalou no dia 27 de julho, após ter sido posto a circular nas redes sociais o vídeo de um conferência de imprensa de um grupo denominado como “America’s Frontline Doctors”. No vídeo, entre o conjunto de profissionais de saúde que toma a palavra, destaca-se o discurso da médica Stella Immanuel: “Eu estou aqui porque, pessoalmente, tratei mais de 350 pacientes com Covid-19, pacientes que tinham diabetes, hipertensão, pacientes com asma, pessoas velhas, eu acho que o meu paciente mais velho tinha 92 anos (…) e o resultado foi sempre o mesmo. Eu dei-lhes hidroxicloroquina, zinco, zithromax e todos estão bem”.

O discurso da camaronesa de 55 anos prossegue, contrariando os mais recentes entendimentos da ciência em relação ao uso da hidroxicloroquina no tratamento do novo coronavírus: “Durante os últimos meses, depois de tratar mais de 350 pacientes, não tive uma morte, nem um diabético, nem uma pessoa com hipertensão, nem uma pessoa com asma, nem um idoso, não perdemos um paciente”.

Num tom claramente inflamado, a médica diz ainda: “Eu vim aqui a Washington para dizer à América que ninguém precisa de morrer (…) Este vírus tem uma cura: é a hidroxicloroquina, zinco e zithromax. Eu sei que vão falar da máscara. Não é preciso máscara. Há uma cura!”.

Em poucas horas, o vídeo encheu milhares de murais no Facebook e no Twitter, tendo sido partilhado, inclusivamente, por Donald Trump, o presidente dos EUA. Porém, cerca de 24 horas depois, ambas as redes sociais baniram o vídeo, por transmitir desinformação relacionada com a pandemia.

Aliás, organizações como a Food and Drug Administration, a autoridade reguladora do medicamento nos EUA, e a Organização Mundial da Saúde já vieram garantir que não existe qualquer evidência da eficácia do fármaco na prevenção ou na cura da Covid-19. Os riscos para a saúde humana parecem ser maiores do que os eventuais benefícios, com o registo de vários problemas de saúde, nomeadamente cardíacos, nos doentes que estavam a testar o medicamento.

Para muitos terá sido estranho ver um profissional de saúde a contrariar a evidência científica, mas a verdade é que esta não é a primeira vez que Stella Immanuel faz declarações polémicas e que, em bom rigor, não passam de teorias da conspiração.

A médica, que nasceu nos Camarões, vive atualmente em Houston, Texas. Formou-se em Medicina, na Universidade de Calabar, na Nigéria, e de acordo com o site do Texas Medical Board, a associação médica daquele Estado norte-americano, tem licença válida para exercer Medicina.

Paralelamente à sua profissão, Stella Immanuel é pastora e fundadora da Fire Power Ministries, uma igreja que promove rituais para libertar pessoas de espíritos malignos e demónios, dado que tornará mais fácil entender as crenças da médica que, para além da hidroxicloroquina no tratamento da Covid-19, passam também por sémen de demónio e ADN de extraterrestre.

De acordo com a BBC, durante um sermão em 2013, a profissional de saúde, crente em demónios, explicou como é que estes se reproduzem: “Eles transformam-se numa mulher e dormem com um homem e recolhem o seu esperma. Depois, eles transformam-se num homem e dormem com a mulher, depositando o esperma para se reproduzirem a eles próprios”. Stella Immanuel garantiu, ainda, que várias doenças nas mulheres são causadas precisamente pelos atos sexuais entre estas e espíritos malignos, durante os sonhos.

Já em 2015, num outro sermão, a médica afiançou que o ADN de extraterrestres estava a ser utiliado em tratamentos clínicos e que havia cientistas a preparar uma vacina para impedir as pessoas de terem fé e de serem religiosas.

Além das evidentes teorias da conspiração, a médica citada por Donald Trump, através de um retweet que foi entretanto apagado pela rede social, é uma crítica acérrima do casamento entre pessoas do mesmo sexo, uma vez que defende que pode levar a que adultos se casem com crianças, tal como salienta o “Daily Beast”.

Já depois da mais recente polémica, a médica utilizou o Twitter para lançar uma espécie de maldição ao Facebook, após a rede social ter banido o vídeo com a conferência de imprensa sobre a hidroxicloroquina: “Olá, Facebook. Reativa o meu perfil e os meus vídeos, ou os teus servidores começam a falhar, até que o faças. Prometo. Se a minha página não voltar, o Facebook vai fechar em nome de Jesus”.

De destacar que os “America’s Frontline Doctors”, o grupo que deu a polémica conferência de imprensa e do qual Stella Immanuel faz parte, é um conjunto de médicos que divergem do consenso científico em relação ao novo coronavírus: em maio enviaram uma carta a Trump a pedir o fim do confinamento; e continuam, ainda hoje, a defender que nem as máscaras, nem as medidas de distanciamento social são necessárias para combater a pandemia.

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