Salário mínimo, imigrantes ilegais, economia chinesa e vacinas contra a Covid-19: pelo menos quatro das respostas dadas pelo Presidente americano, Joe Biden, sobre estes temas contêm informações falsas ou enganadoras – e todas relacionadas com dados estatísticos. O Polígrafo verifica as declarações do democrata que sucedeu a Donald Trump na Casa Branca. 

  • Salário mínimo

O Presidente dos Estados Unidos classificou o salário mínimo americano de 7,25 dólares [cerca de 6 euros] por hora como sendo “muito baixo” e explicou: “Se o aumentássemos gradualmente - quando o indexámos a 7,20 dólares-, se tivéssemos mantido indexado à inflação, as pessoas estariam agora a ganhar 20 dólares por hora. Era isso que aconteceria”.

Avaliação: As contas de Biden não estavam certas e, após o evento, a Casa Branca esclareceu o erro junto da CNN, referindo que o Chefe de Estado americano confundira este valor com uma outra estatística relacionada com o mesmo tema. 

O democrata estava, na verdade, a referir-se a uma reflexão de um grupo progressista sobre a evolução do salário mínimo (para 24 dólares por hora) caso este tivesse acompanhado o crescimento da produtividade desde 1968 - e não a inflação desde 2009.

O democrata estava, na verdade, a referir-se a uma reflexão de um grupo progressista sobre a evolução do salário mínimo (para 24 dólares por hora) caso este tivesse acompanhado o crescimento da produtividade desde 1968 - e não a inflação desde 2009.

Na verdade, se o Congresso tivesse vinculado à inflação o salário mínimo de 7,25 dólares por hora, que entrou em vigor em 2009, o valor não estaria próximo dos 20 dólares referidos por Biden. Em linha com essa taxa, os 7,25 dólares de há 12 anos corresponderiam a apenas 8,98 dólares em janeiro deste ano. 

  • Imigração ilegal

“A grande maioria das pessoas… esses 11 milhões de indocumentados não são hispânicos. São pessoas que vieram com um visto, que puderam comprar um bilhete para entrar num avião e que não foram para casa. Eles não vieram a nado pelo Rio Grande”, garantiu Biden. 

Avaliação: É falso que a maioria dos imigrantes sem documentos nos Estados Unidos não seja hispânica. Embora se torne difícil compilar estatísticas abrangentes sobre este grupo populacional, o “Migration Policy Institute” estimou que, em 2018, 73% das pessoas sem documentos nos EUA falavam espanhol em casa e que 68% eram da região do México e da América Central. 

O “Pew Research Center” revelou que a parcela mexicana de população indocumentada sofreu uma queda ao longo do tempo, mas ainda assim os latino-americanos representavam cerca de 77% da população sem documentos em 2017.

Errado relativamente a esta estimativa, Biden esteve mais perto da verdade quando se referiu aos meios através dos quais imigrantes sem documentos chegam aos Estados Unidos. Um estudo do Centro de Estudos de Migração de Nova York, baseado em dados de 2017, mostrou que, pelo sétimo ano consecutivo, havia mais pessoas ilegais na sequência de vistos com prazos de validade ultrapassados (62%) do que pessoas a cruzaram ilegalmente as fronteiras (38%). 

  • Força de trabalho da China

Durante a presença na CNN, o líder da Casa Branca revelou os seus pensamentos sobre os desafios demográficos que a China enfrenta, confidenciando a reflexão feita quando, como vice-presidente de Obama, se reuniu com o Presidente chinês, Xi Jinping. “Eu voltei e disse que eles iam acabar com o conceito de ‘China unificada’ – a política do filho único – porque são tão xenófobos que não deixam ninguém entrar. Há mais pessoas reformadas do que a trabalhar. Como é que se consegue sustentar o crescimento económico quando há mais pessoas reformadas?”, questionou. 

Avaliação: Não é verdade que a China tenha mais reformados do que trabalhadores ativos – nem atualmente, mas menos ainda quando Biden era vice-presidente (2009-2017) e a força de trabalho chinesa era ainda mais jovem.

Dados governamentais mostram que a China tinha, no final de 2019, 775 milhões de trabalhadores e 254 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, idade recomendada para o início da reforma. “A população idosa ativa atingiu o pico e agora está a diminuir. Os reformados estão a crescer rapidamente, pelo que o rácio entre trabalhadores e reformados está a tornar-se cada vez menos favorável. Mas a proporção ainda é maior do que um", assegura David Dollar, especialista em população chinesa e bolseiro sénior da Brookings Institution, citado pela CNN. 

Não é verdade que a China tenha mais reformados do que trabalhadores ativos – nem atualmente, mas menos ainda quando Biden era vice-presidente (2009-2017) e a força de trabalho chinesa era ainda mais jovem. Dados governamentais mostram que a China tinha, no final de 2019, 775 milhões de trabalhadores e 254 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, idade recomendada para o início da reforma.

Assim, Biden não está errado quando diz que o envelhecimento da força de trabalho chinesa representa um desafio para o país, mas os dados que apresentou não correspondem à verdade. 

  • Doses de vacinas

Em resposta a uma das várias perguntas sobre a pandemia de Covid-19, o democrata referiu que, quando assumiu o cargo de Presidente, “havia apenas 50 milhões de doses de vacina disponíveis". Momentos depois, outra declaração: "Entrámos no escritório e descobrimos o stock - não havia pedidos em atraso. Quer dizer, não havia nada no frigorífico, figurativa e literalmente falando, e havia 10 milhões de doses por dia disponíveis". 

Avaliação: O Presidente americano falhou em pelo menos uma das estatísticas que escolheu utilizar - imprecisão essa que, a ser verdade, seria favorável a Donald Trump. 

Afinal, a que dizem respeito as “10 milhões de doses diárias disponíveis”? À CNN, um funcionário da Casa Branca explicou: a afirmação de Biden referia-se aos 10 milhões de doses semanais que estavam a ser enviadas aos estados a partir da segunda semana do mandato do presidente, face às 8,6 milhões de doses semanais distribuídas quando o democrata tomou posse.

Afinal, a que dizem respeito as “10 milhões de doses diárias disponíveis”? À CNN, um funcionário da Casa Branca explicou: a afirmação de Biden referia-se aos 10 milhões de doses semanais que estavam a ser enviadas aos estados a partir da segunda semana do mandato do presidente, face às 8,6 milhões de doses semanais distribuídas quando Biden tomou posse.

Quanto às “50 milhões de doses disponíveis” no início do seu mandato, a mesma fonte assegura que era uma referência ao número de doses que foram distribuídas pelos estados até ao final de janeiro deste ano. Tal ocorreu menos de duas semanas depois da sua tomada de posse e Biden podia ter sido mais claro na explicação da linha temporal. 

Ainda nesta sequência de alegações, Biden chegou a referir que, quando chegou à Casa Branca, “não havia nada no frigorífico”. Esta afirmação tem uma base fatual sólida, embora não tivesse sido proferida de uma forma clara. Conforme noticiado pelo Washington Post, na semana anterior à tomada de posse de Biden, não havia qualquer reserva de segundas doses disponível. A administração Trump confirmou ao referido jornal que o conteúdo do stock tinha sido distribuído pelos estados. À data, o então secretário da Saúde e Serviços Humanos, Alex Azar, garantiu que as doses em reserva tinham sido enviadas sem riscos visto que o ritmo de produção era “consistente”.

Ainda antes da posse do atual Chefe de Estado americano, houve relatos de problemas relacionados com o fornecimento de vacinas: alguns estados afirmaram não terem recebido doses suficientes ou terem enfrentado fortes constrangimentos logísticos para distribuir as doses pelos residentes. 

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