Kfar Aza já é conhecido como o local onde o Hamas assassinou 40 bebés: a notícia fez manchetes no mundo inteiro, mas assim que saltou para as redes sociais ganhou novos contornos: os bebés não tinha sido apenas assassinados, mas sim decapitados (e alguns mutilados). A "Nexta Tv", um jornal da Europa Oriental, publicou a 10 de outubro um tweet no qual falou abertamente sobre "40 crianças israelitas decapitadas". O tweet tem agora quase meio milhão de impressões.

Esta quarta-feira, a notícia sobre as 40 crianças decapitadas acabou por ganhar forma em alguns jornais portugueses (e também italianos, como relata o segmento de fact-checking "Facta", do grupo do "Pagella Politica").

A notícia da descoberta de Kfar Aza acrescentou mais horror a um caso que só nas últimas horas provocou mais de duas mil vítimas (entre as mortas durante a ofensiva do Hamas e aquelas que se seguiram à contra-ofensiva israelita), num contexto geopolítico a que se pode chamar complexo e historicamente marcado por tensão e conflitos.

Apesar disso, e como acontece frequentemente em contextos de emergência, o relato de decapitações amplamente difundido online parece agora menos claro do que quando começou a ser partilhado. "Impacto emocional da história pode ter tomado conta da verificação dos fatos", escreve o "Facta".

Origem da história

A notícia da suposta decapitação de crianças pelo Hamas começou a circular depois da publicação de um relato de Nicole Zedek, repórter da emissora israelita i24NEWS, que transmitiu em direto o testemunho de "um dos comandantes" que teria visto "pelo menos 40 crianças mortas, algumas delas decapitadas".

Mais tarde, o i24NEWS transmitiu uma entrevista da mesma jornalista com David Ben Zion, vice-comandante da Unidade 71 das Forças de Defesa de Israel (IDF), que afirmou que o grupo Hamas matou mulheres e crianças, recorrendo inclusive a decapitações. No entanto, importa ressalvar que nem Zedek nem Ben Zion se referiram a "40 crianças decapitadas" pelo Hamas.

Informação verificada

A emissora britânica BBC escreveu ontem um relato mais geral sobre a existência de alguns "mortos decapitados", sem especificar se entre eles estavam ou não crianças. Mais uma vez, porém, a BBC especifica que a fonte é um militar israelita. Outro membro do exército de Israel, Itai Veruv, entrevistado pelo repórter da CNN Nic Robertson, ao relatar a experiência do ataque do Hamas no Kfar Aza, apontou que o grupo extremista matou mulheres e crianças e que "decapitou pessoas". Até agora, não houve mais confirmações de repórteres, jornais ou fontes independentes sobre este tópico.

O que diz Israel

Já esta tarde, o Estado de Israel escreveu no X/Twitter que "40 crianças foram mortas por terroristas do Hamas", mas não especificou se foram decapitadas ou não. Aliás, o próprio exército de Israel não conseguiu confirmar esta notícia: à agência de notícias turca "Anadolu", a mesma fonte explicou que "não tem informações que confirmem as alegações de que o Hamas decapitou crianças". Também hoje, um porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Israel, ouvido pela AFP, disse o seguinte: "O Ministério não é ainda capaz, nesta fase, de confirmar o número de 40 crianças assassinadas."

Há cerca de uma hora, a CNN transmitiu ainda as palavras de um porta-voz do Primeiro-Ministro israelita que referiu, sem especificar o número, que bebés e crianças foram encontrados "decapitados" em Kfar Aza. Esta é, até ao momento, a versão mais recente dos factos.

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