No meio de uma guerra na Europa, a desinformação é utilizada como arma contra a democracia, a transparência e o livre pensamento. Torna-se mais grave quando os meios que a propagam se mascaram de plataformas de verificação de factos e exemplos de isenção, quando são, na verdade, veículos de propagação de mentiras.

Exemplo disso é o "War on Fakes" (um site e canal de Telegram) que, desde o início da invasão russa da Ucrânia, se dedica a espalhar propaganda russa, embora se auto-descrevam como plataformas de fact-checking credíveis. Ali, a falsidade tem um lar que, mentira a mentira, já conquistou mais de 730 mil inquilinos.

Nasceu em março, poucos dias após o início da guerra, mas os seus administradores garantem ser apolítico. O site "War on Fakes" é apresentado num curto manifesto como um projeto de divulgação de "informações imparciais sobre o que está a acontecer na Ucrânia e nos territórios de Donbass". O motivo da sua criação? Uma alegada "guerra de informação lançada contra a Rússia".

Os criadores dizem ser proprietários e administradores "de vários canais de Telegram russos não políticos", com a missão de "garantir que haja apenas publicações objetivas no espaço da informação". No entanto, o fact-checking é utilizado como uma máscara para espalhar propaganda russa sob o manto da credibilidade jornalística.

Tudo começou no Telegram num grupo com o mesmo nome do site que conta com mais de 730 mil subscritores. A primeira publicação foi escrita a 24 de fevereiro de 2022, o dia em que a Rússia iniciou a operação militar de invasão da Ucrânia, e o texto da mesma é similar ao manifesto publicado na página web. Enquanto o site partilha publicações em inglês, francês, espanhol, chinês e árabe, o grupo do Telegram inclui textos escritos em russo.

Mas muito mais é o que une do que aquilo que separa estes dois canais. Segundo o Laboratório de Pesquisa Forense Digital do AtlanticCouncil, que analisou o crescimento destas duas plataformas, o site terá sido utilizado para chegar a um público internacional e amplificar a propaganda divulgada originalmente em russo no grupo do Telegram.

  • A "grande 'media'" exibiu estas imagens de 2018 como se fossem de vítimas ucranianas em 2022?

    Múltiplos jornais e estações de televisão mostraram imagens de um prédio residencial semi-destruído e de uma mulher ferida, perto da cidade ucraniana de Kharkiv, na sequência de um recente bombardeamento por forças militares da Rússia. Entretanto, nas redes sociais alega-se que essas imagens terão sido captadas em 2018, na cidade russa de Magnitogorsk, retratando uma explosão de gás. Quem é que está a mentir?

O mecanismo de ação das publicações é sempre o mesmo e consiste em escolher uma alegação e "dissecá-la" sem recorrer a factos, mas sim a propaganda russa. O final é novelesco: a Ucrânia acaba sempre retratada como o "vilão" e a Rússia vista como "o bonzinho" da história.

Exemplo da aplicação desta fórmula é o caso de um texto sobre Olena Kurilo, a professora ucraniana que se tornou num dos primeiros símbolos da guerra ao ser fotografada perto do hospital de Chuguev, depois de ter sido socorrida devido aos estilhaços que lhe atingiram o rosto, na sequência da deflagração de um míssil na cidade de Chuhuiv.

Segundo um post do "War on Fakes" publicado a 27 de fevereiro no Telegram, a fotografia é encenada e o sangue que se vê na imagem é, na verdade, "sumo de uva ou de romã". Esta alegação sobre uma suposta encenação é totalmente falsa (como o Polígrafo, aliás, já sinalizou), mas obteve mais de 600 mil visualizações e mais de quatro mil reações.

E este não é o único post viral do "War on Fakes", dado que cada publicação no Telegram tem centenas de milhares de visualizações. Na última vez que o Polígrafo consultou o grupo, um texto partilhado apenas 10 minutos antes contava já com mais de 32 mil visualizações. A criação do site com textos em várias línguas é um dos motivos que explica a exponenciação do canal do Telegram, mas não é o único.

De acordo com a análise do Laboratório de Pesquisa Forense Digital do AtlanticCouncil, a plataforma conquistou um maior alcance ao ser "fortemente amplificada nos canais de figuras-chave e meios de comunicação russos".  Hoje regista mais de 30 milhões de visualizações por dia.

O próprio Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia divulgou o site num tweet publicado na sua conta oficial a 5 de março, descrevendo os seus autores como "um grupo de especialistas e jornalistas que utilizam a sua experiência e bom senso para desmascarar as fake news mais flagrantes".

Apesar de se apresentarem como apolíticos, nos textos do "War on Fakes", as palavras "guerra" e "invasão" são substituídas pela expressão "operação especial na Ucrânia", a mesma formulação utilizada pelo Kremlin. Além disso, o próprio conteúdo pró-Rússia e anti-Ucrânia leva o AtlanticCouncil a considerar que "os seus operadores podem estar afiliados ao Kremlin ou ter os recursos e incentivos para realizar uma operação de influência em seu apoio".

Até agora, não se sabe quem são os autores das páginas, mas estes canais de desinformação mascarados de plataformas de verificação de factos continuam a crescer e a ganhar seguidores, uma mentira de cada vez.

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