Durou apenas 45 dias a sua passagem pelo N.º10 de Downing Street, em Londres. A primeira-ministra do Reino Unido, Liz Truss, apresentou hoje a demissão. "Reconheço que, dada a situação, não posso cumprir o mandato para o qual fui eleita pelo Partido Conservador. Por conseguinte, falei com Sua Majestade o Rei para o notificar de que me demito como líder do Partido Conservador", afirmou em declarações aos jornalistas em frente à residência oficial.

Apesar do tempo de governação curto, a primeira-ministra britânica discursou, debateu e realizou alegações que foram alvo de verificação de factos. O "FullFact" reuniu vários artigos de fact-checking realizados desde 2015 a afirmações da governante.

1. "Tomámos medidas para que o governo intervenha, certificando-se de que ninguém está a pagar contas de gás e energia de mais de 2.500 libras"

A primeira-ministra disse à "BBC Radio Kent", no dia 29 de setembro, que o governo britânico se estava a "certificar de que ninguém está a pagar contas de combustível superiores a 2.500 libras". O "Fullfact" classificou a informação como falsa e destacou o erro repetido em várias ocasiões por Truss e pediu-lhe que admitisse o erro e o corrigisse futuramente.

No dia 8 de setembro, o Governo anunciou um programa de garantia do preço da energia visando reduzir o valor que as famílias britânicas iriam pagar pelo gás e eletricidade a partir de 1 de outubro de 2022. A política limitava o valor que os consumidores podem cobrar por unidade de gás ou eletricidade.

Segundo o jornal de fact-checking, de acordo com números do governo, com base nos números de consumo médio de 2019, a conta típica de uma casa isolada sob a nova Garantia de Preço de Energia será de 3.300 libras, enquanto para uma casa geminada será de 2.650 libras. Ou seja, a informação divulgada pela primeira-ministra não correspondia à verdade.

Avaliação: Falso

2. "Um número desproporcional de mulheres vai parar à cadeia por falharem no pagamento da licença de televisão"

Em entrevista ao "Daily Mail", no dia 2 de agosto, a candidata à liderança conservadora Liz Truss disse que, no caso de se tornar primeira-ministra, iria ordenar uma revisão sobre se deixar de pagar por uma licença de televisão deve ser uma ofensa criminal, citando uma preocupação particular com o número de mulheres que são presas devido a este incumprimento.

Ora, existe um erro na declaração de Truss. No Reino Unido não se pode ser preso por não pagar uma taxa de licença de TV, mas sim por não pagar uma multa imposta pelo tribunal, que pode resulta numa condenação por não pagar esse valor. Além disso, segundo o "FullFact", ser preso por esse crime é raro – os últimos números disponíveis para a Inglaterra e o País de Gales mostram que ninguém foi preso em 2020 ou 2021, e não mais de duas pessoas em 2019. No entanto, é verdade que uma maioria significativa (76% em 2020) dos cidadãos britânicos notificados ​​por evasão de licença de TV são mulheres.

Avaliação: Descontextualizado

3. Truss em 2018: "E o que vimos na maneira como as revistas policiais estão a ser usadas agora é alcançar uma taxa de prisão mais alta"

A afirmação realizada por Liz Truss em abril de 2018 é verdadeira. Segundo o jornal de fact-check "Fullfact" 17% das revistas policiais em Inglaterra e no País de Gales resultaram em prisões em 2016/17, em comparação com 8% em 2009/10. Houve mais de 300.000 revistas em 2016/17, em comparação com 1,4 milhão em 2009/10, o que significa que o número geral destas ações policiais comuns no Reino Unudo cairam 78% durante estes anos.

"As pessoas que se autodefinem como negras ou negras britânicas são as mais propensas a serem paradas e revistadas de qualquer grupo étnico – é estimado em cerca de 29 por 1.000 em 2016/17. Eles têm mais de oito vezes mais probabilidades de serem parados na rua e revistados do que os brancos, e essa proporção tem aumentado nos últimos anos", garantia o jornal em 2014.

Avaliação: Verdadeiro

4. Truss em 2017: "Em alguns dos nossos tribunais, 50% dos casos em julgamento são casos sexuais"

Em 2017, Liz Truss dizia ao "Question Time" que em alguns tribunais britânicos 50% dos casos a ser julgados eram casos relacionados com criminalidade sexual. O "FullFact" tentou verificar esta informação e concluiu que 13% dos casos recebidos pelo Tribunal da Coroa no ano anterior, 2016, foram processos enquanto crimes sexuais.

"Isso não significa necessariamente que 13% dos casos que realmente vão a um júri são por crimes sexuais. As estatísticas oficiais mostram muito menos julgamentos do que os casos recebidos pelo Tribunal da Coroa. Isso pode ocorrer porque os casos em que o réu se declara culpado não são contados como julgamentos", escrevia o jornal de fact-checking, que pediu dados adicionais ao Ministério da Justiça, sem sucesso. Concluíram então que, segundo os dados oficiais disponíveis, não era possível verificar a informação.

Apesar disso, dados de estudos não oficiais mostravam que "mais da metade de todos os casos agora ouvidos no Tribunal da Coroa dizem respeito a alegações sexuais, e a proporção está a aumentar".

Avaliação: Impreciso

5. Truss em 2015: "A disparidade salarial entre homens e mulheres é menor do que nunca"

A alegação de Liz Truss, que em 2015 era ministra do Ambiente, foi classificada como verdadeira há sete anos. Nessa altura a diferença salarial entre géneros estava no nível mais baixo de sempre para funcionários em tempo integral e para funcionários em geral. Segundo o Departamento Nacional de Estatísticas Britânico, que mede a diferença salarial observando a diferença entre o que o homem e a mulher recebem em média antes dos impostos, em 2014, a diferença salarial no Reino unido situava-se, para trabalhadores a tempo integral, nos 9,4% e para trabalhadores no geral nos 19,1%,

O "FullFact" destaca, no entanto, que as estatísticas disponíveis não mostravam as diferenças de remuneração para o mesmo trabalho. Bem como não eram considerados fatores relevantes como a indústria ou função dos trabalhadores, ou as qualificações e experiência dos trabalhadores, por exemplo.

Avaliação: Verdadeiro

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