Suhail Shaheen é o nome do atual porta-voz e membro da equipa de negociações dos taliban. Está na ordem do dia, prestou declarações em direto na estação de televisão Sky News, do Reino Unido, e escreve regularmente numa conta não oficial do Twitter, com mais de 360 mil seguidores, de onde Donald Trump foi banido no início deste ano. O que diz nessa rede social está ao alcance de todos, mas não pode ser difundido no Facebook. Nem no Instagram. E pode gerar alguns problemas no WhatsApp. Porquê?

Na terça-feira, dia 17 de junho, o Facebook reiterou aquilo que tem sido dito a todos os orgãos de comunicação social e que é aplicado nesta rede social há anos: os taliban foram declarados como organização terrorista pela lei dos EUA e, assim sendo, todas as páginas ou perfis que elogiem, apoiem ou representem de alguma forma os taliban, serão banidas.

Estas medidas não são novas e estão patentes no Centro de Transparência do Facebook desde há alguns anos: "Num esforço para prevenir e combater as ameaças do mundo real, não permitimos que organizações ou indivíduos que proclamam uma missão violenta ou estejam envolvidos na violência tenham lugar no Facebook. Avaliamos essas entidades tendo por base o seu comportamento tanto online quanto offline, mais significativamente os seus vínculos com a violência".

Na primeira camada de "organizações perigosas" identificada pelo Facebook, sujeita a uma "fiscalização mais ampla", estão as organizações terroristas, criminosas e de ódio, cujas contas têm sido banidas pela rede social há anos. Ainda assim, parece não haver informação suficiente relativamente às restrições exatas a que estas contas estão sujeitas.

© Agência Lusa / EPA

Há quase 20 anos, quando foram expulsos de Cabul por tropas norte-americanas, os taliban, assim como o mundo, estavam longe de imaginar que a internet poderia ser um meio tão eficaz na difusão de crenças. Hoje, o seu porta-voz utiliza o Twitter para comunicar algumas das intenções do grupo, bem como para esclarecer outras:

"O Emirado Islâmico do Afeganistão não está interessado na propriedade privada de ninguém (nem nos carros, terras, casas, mercados e lojas de ninguém), mas considera a proteção de vidas e propriedades da nação a sua principal responsabilidade", lê-se num "tweet" de 15 de agosto, escrito por Shaheen.

Pouco tempo depois, um esclarecimento vindo da mesma conta: "Todas as alegações de que o Emirado Islâmico do Afeganistão obriga as pessoas a casar as suas filhas com Mujahideen estão totalmente erradas. É propaganda venenosa".

Mas porque é que duas redes sociais tão próximas podem agir de forma tão distinta perante a mesma ameaça? A verdade é que os taliban não constam da lista de Organizações Terroristas Estrangeiras, criada pelos Estados Unidos. Ou pelo menos o grupo no seu todo: Apenas uma fracção dos taliban paquistaneses, TTP ou Tehrik-i-Taliban Pakistan (Movimento Talibã do Paquistão), tem o nome destacado na lista em questão.

Ainda assim, o grupo é mencionado numa lista de "Terroristas Globais Especialmente Designados (SDGT's)" e ainda numa lista de "Terroristas Nacionais Especialmente Designados", classificação vaga que representa um desafio para as redes sociais no momento de traçar uma linha: estaremos perante um apelo ao terrorismo se esta não se trata oficialmente de uma organização terrorista estrangeira? Será esta, por outro lado, uma ameaça à liberdade de expressão?

Apesar de utilizar ativamente a sua conta de Twitter, não há apelos a violência por parte do porta-voz dos taliban. Ou pelo menos é assim que considera o Twitter, que, através de um fonte oficial, fez saber que há afegãos a utilizar a plataforma para pedir ajuda, sendo que a empresa terá prometido "permanecer vigilante" na aplicação das políticas, sobretudo as que proíbem conteúdo que incentiva e glorifica a violência.

No que toca ao WhatsApp, o rastreio é dificultado pelas políticas de privacidade. No máximo, a rede pertencente ao Facebook pode rastrear conteúdo não criptografado, de que não são exemplo as mensagens privadas. Aliás, nas políticas de segurança e privacidade, a informação sobre a encriptação ponto a ponto é clara:

"A privacidade e a segurança estão no nosso ADN e é por isso que integrámos encriptação ponto a ponto na nossa aplicação. Quando são encriptadas ponto a ponto, as suas mensagens, fotos, vídeos, mensagens de voz, documentos, atualizações de estado e chamadas não cairão nas mãos erradas. (...) A encriptação ponto a ponto do WhatsApp é utilizada quando conversa com outra pessoa através do WhatsApp Messenger. Esta encriptação garante que tudo o que é escrito ou dito fica apenas entre si, as pessoas com quem comunicar e mais ninguém, nem mesmo o WhatsApp".

Assim, não há ainda resposta para o que acontece ao conteúdo relacionado com os taliban que o Whatsapp não consegue rastrear. Esta rede é hoje, no entanto, uma das mais comuns relacionadas com este tipo de movimentos, sendo considerada uma das culpadas pela ascensão do grupo e pelo seu papel de transmissão em ações organizadas pelos taliban.

A promessa de um "governo islâmico inclusivo no Afeganistão" é propalada todos os dias, sobretudo através das redes sociais que ainda permitem a divulgação de conteúdo por parte dos taliban. Mas há espaço para uma retórica contrária. No Twitter, são pelo menos três as contas de mulheres que continuam a publicar conteúdo ativamente: Zarifa Ghafari, Fawzia Koofi e Aisha Khurram.

A primeira, ativista pelos direitos humanos, divulgou a 14 de agosto uma série de tweets, manifestando esperança no futuro do Afeganistão: "Amo esta terra, a sua paz, o seu povo e até as suas adversidades e dores. Nenhum estranho será capaz de tirar este amor do meu coração por você. (...) O meu sonho é ver o Afeganistão lindo, calmo e progressista", escreveu.

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Fawzia Koofi, por sua vez, agora ex-vice-presidente do Parlamento no Afeganistão, relatou o cenário vivido em Cabul: "Comecei o dia a olhar para as ruas vazias de Cabul, horrorizada. A história repete-se tão rápido".

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Já Aisha Khurram, jovem representante das Nações Unidas com apenas 22 anos, escreveu na sua conta oficial de Twitter o seguinte: "Acordei com gritos e tiros à nossa porta. Os chamados Mujahideen (ladrões) voltavam para casa e levavam os carros e pertences das pessoas. Ao ouvirem que os taliban estavam a ir para nossa área, eles fogem. O caos está apenas a começar...".

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