O encontro com a fotografia foi um acaso. Francesco Malavolta acredita, por isso, que foi a profissão que o escolheu.  A paixão pelas imagens acompanhou-o desde sempre, mas nunca pensou fazer disso vida. Há mais de 20 anos, decidiu dedicar-se a fotografar pessoas em movimento, fugidas de países onde a paz não tem morada. E também isso aconteceu por acidente.

“Eu estava em Puglia (uma região do sul da Itália) e dei por mim a testemunhar um desembarque de albaneses que fugiam da ditadura. Fui atraído por aquela multidão que deixou tudo em busca de um sonho de liberdade e pelo desafio de capturar o movimento dentro de uma imagem”, conta ao Polígrafo.

Dali para a frente, nunca mais parou de contar as histórias de quem foge da guerra, da fome e da ditadura. Trabalhou na rota dos Balcãs, em 2015, na rota para as Ilhas Canárias e fotografou pessoas deslocadas internamente em alguns países como o Burkina Faso. Em 2012, fotografou os ucranianos que entraram na Polónia por motivos económicos. Este ano, dois dias depois da invasão russa, viajou para a Polónia e, desde então, tem visitado os países que fazem fronteira com a Ucrânia para documentar a dor de uma região.

© Francesco Malavolta

No início de março, captou um momento partilhado nas redes sociais como uma prova da solidariedade entre os povos: uma fila de carrinhos de bebé deixados na fronteira com a Ucrânia por mães polacas preocupadas com as famílias que fugiam da guerra com crianças. A imagem foi vista como um balão de oxigénio no meio de um cenário medonho, mas as histórias de sufoco são as mais comuns.

“Testemunhei na fronteira entre a Polónia, Eslováquia e Hungria, o grande desespero e sofrimento das pessoas, especialmente das mulheres e crianças a fugir da guerra. O que mais vejo é o sentimento de dor das pessoas quando pensam nos entes queridos deixados na Ucrânia para lutar ou que não podem deixar o país”, revela.

Não é a primeira vez que Malavolta lida de perto com o sofrimento alheio, não será a última vez que o documenta, e talvez por isso note “uma triste diferença entre as pessoas que fogem da Ucrânia e os sírios, afegãos, iemenitas ou africanos que são vistos como refugiados de segunda classe”.

© Francesco Malavolta

Para o fotojornalista, esta diferença de tratamento é demasiado evidente. “Basta pensar nas quatro mil pessoas que ficaram presas no frio na Bielorrússia há alguns meses, na polémica dos barcos que chegam da África para a Itália, na violência das fronteiras entre a Croácia e a Bósnia. São pessoas que também deixaram guerras e violações de direitos humanos nos seus países”, lamenta.

São estas realidades que o fazem encarar o jornalismo em zonas de conflito ou de crise internacional como “uma janela para o mundo” que deve ser aberta com todas as cautelas, um profissionalismo que, na sua perspetiva, está em falta. Por isso, antes de cada disparo faz a si mesmo as mesmas duas perguntas: “Questiono-me sempre: A fotografia que vou tirar é necessária? Pode mudar o curso da narrativa?”

E que narrativa conta Francesco Malavolta? A narrativa em que os alvos das fotografias são gente com histórias dentro, garante. 

“As minhas fotografias testemunham as migrações e a sua evolução com foco nos seus protagonistas. Cada fotografia, uma história. Cada história, uma tentativa de salvaguardar a especificidade da vida retratada, fugindo da lógica despersonalizante que apresenta as migrações como fenómenos hidráulicos e anónimos”, explica.

Por essa razão, Malavolta quer “homenagear uma humanidade persistente que, um passo de cada vez, ganha centímetros de liberdade”, pois sabe que parar é morrer e, por isso, move-se continuamente. E assim, “esse movimento assume características tanto mais dramáticas quanto mais tentamos impedi-lo, recaindo em medos e posições ilógicas e anacrónicas”, defende.

© Francesco Malavolta

Francesco Malavolta acredita que a informação pode ser uma arma para travar o risco de se transformar o medo em ódio. Para ele, informar é uma missão e estar informado não só é um direito como é um dever. Por isso, quando chega a casa, tira um tempo para se afastar “do stress, mesmo que não seja fácil”, e esquecer o que fica gravado no rolo da câmara e na memória.

“A parte mais difícil é fotografar caixões de pessoas que morreram durante um naufrágio no mar ou em rotas terrestres. A morte é sempre difícil de fotografar, não é algo a que nos habituamos”, confessa.

Ainda assim, mantém uma visão positiva e torce para que a humanidade consiga lutar em conjunto por um horizonte menos doloroso: “Tento olhar para o futuro com otimismo, mesmo que os episódios nem sempre provem que estou certo. Creio que pode e deve haver um mundo melhor para vivermos juntos sem violência”, remata.

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