Primeiro o diálogo:

Sérgio Moro: Não consigo julgar esta semana, mas garanto que vai ser a tempo de evitar a candidatura [de Lula da Silva].

Delton Dallagnol: A inconsistência nas provas vão fragilizar a condenação, precisamos acelerar, pois as ligações eu já falei, não provam diretamente atos ilícitos do réu.

Moro: Aqui no TRF4 tem 4 amigos que vão adiantar os trabalhos, toda sentença já está combinada, vamos apenas lapidar traços após os recursos.

Delton Dallagnol: Se precisar, avisa que fazemos outra apresentação para fortalecer a opinião pública, temos a globo e o estadão do nosso lado, garantiram cobertura total.

Sérgio Moro: Nosso problema é outro, o Haddad, este vai ganhar força, vocês não conseguem fazer algo para impedir a candidatura?

Deltan Dallagnol: Até estamos  forçando investigações e acusações, mas não existe nada que possa garantir tecnicamente acusação real contra ele, vamos trabalhar.

Sérgio Moro
Sérgio Moro esteve recentemente em Portugal para participar nas Conferências do Estoril créditos: António Pedro Santos/Lusa

Depois a descrição dos protagonistas:

  • Sérgio Moro: conhecido por super-juiz, foi responsável máximo pela prisão de Lula da Silva. Atualmente ministro da Justiça do governo de Jair Bolsonaro, que venceu as últimas presidenciais brasileiras.
  • Deltan Dallagnol: é o coordenador da investigação da Lava Jato.

Por último, a verdade sobre este diálogo:

Trata-se supostamente de parte das mensagens trocadas pela aplicação de telemóvel Telegram entre os dois magistrados (e recentemente divulgadas, com grande estrondo, pelo site Intercept) que estão no centro da Operação Lava Jato, na qual Lula da Silva e uma parte substancial da elite política e empresarial brasileira foram acusados de corrupção. Divulgada massivamente nas redes sociais brasileiras (teve 15 mil partilhas num só dia), provaria que a dupla conspirou para condenar Lula da Silva e para impedir que  Fernando Haddad substituísse Lula na corrida presidencial.

Trata-se, porém, de uma conversa que nunca existiu, uma vez que nenhum do seu conteúdo consta das mensagens divulgadas há poucos dias pelo Intercept.

Debaixo de fogo, Sérgio Moro já reagiu no Twitter: “Sobre supostas mensagens que me envolveriam publicadas pelo site Intercept neste domingo, 9 de junho, lamenta-se a falta de indicação de fonte de pessoa responsável pela invasão criminosa de celulares de procuradores.

Vejamos os factos um a um:

  • Apesar de Moro e Dallagnol falarem sobre jornais durante os diálogos revelados no Intercept, este último nunca diz que "temos a Globo e o Estadão do nosso lado, garantiram cobertura total”.
  • O material divulgado pelo Intercept não tem a passagem em que Dallagnol afirma que "a inconsistência das provas vão fragilizar a acusação, precisamos acelerar, pois as ligações eu já falei, não provam diretamente atos ilícitos do réu".
  • Segundo a publicação nas redes sociais, Moro teria dito a Dallagnol: "Nosso problema é o outro, o Haddad, este vai ganhar força, vocês não conseguem fazer algo para impedir a candidatura?". Não há, porém, menções a Fernando Haddad (PT) nas conversas entre os dois publicadas pelo site jornalístico. A única referência ao ex-candidato que aparece nas reportagens é atribuída à procuradora do Ministério Público Federal Laura Tessler. Ao falar sobre a possibilidade de o ex-presidente Lula, apesar de estar preso, dar entrevistas antes das eleições de 2018, Tessler teria escrito "sei lá…mas uma coletiva antes do segundo turno pode eleger o Haddad".

Esta troca de mensagens é, portanto, falsa, mas tudo indica que aquelas que o Intercept divulgou são verdadeiras. O seu conteúdo está a colocar fortemente em causa a credibilidade dos dois magistrados, bem como a sustentabilidade de toda a investigação da Lava Jato. No, Brasil o Ministério Público e o juiz do processo não podem delinear estratégias juntos. O juiz deve somente confirmar ou recusar as ações dos procuradores.

Debaixo de fogo, Sérgio Moro já reagiu no Twitter: “Sobre supostas mensagens que me envolveriam publicadas pelo site Intercept neste domingo, 9 de junho, lamenta-se a falta de indicação de fonte de pessoa responsável pela invasão criminosa de celulares de procuradores. Assim como a postura do site que não entrou em contacto antes da publicação, contrariando regra básica do jornalismo.” Quanto ao conteúdo das mensagens, “não se vislumbra qualquer anormalidade ou direcionamento da atuação enquanto magistrado, apesar de terem sido retiradas de contexto e do sensacionalismo das matérias, que ignoram o gigantesco esquema de corrupção revelado pela Operação Lava Jato”, concluiu.

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