A prisão de Assange dentro da embaixada, território equatoriano, só foi possível depois de o atual presidente do Equador, Lenin Moreno, ter revogado o asilo político que estava em vigor desde 2012. Pouco depois, o governo equatoriano também revogou a cidadania que havia sido concedida a Assange em 2017. A revogação acontece 5 dias antes de uma visita de Moreno a Washington por seis dias e 15 dias antes de uma visita oficial que estava agendada do Relator da ONU sobre Tortura à embaixada para verificar o estado de saúde de Assange, que era mantido em isolamento pelo governo equatoriano dentro da embaixada há um ano, sem internet, comunicação e com visitas reduzidas.

Qual é a sua visão sobre a prisão de Assange?

É terrível. O governo equatoriano está a violar todo o direito internacional, o princípio de asilo, da corte interamericana de direitos humanos. E a Constituição do Equador, porque ele é um cidadão equatoriano. É uma humilhação para o Equador. E além do mais é uma vingança pessoal porque há umas semanas ele [Julian] expôs um caso de corrupção muito grave que envolve Lenin Moreno [atual presidente e sucessor de Correa] e a sua família. Foi por isso que Lenin Moreno quis enxotá-lo da embaixada. Lenin Moreno sempre quis expulsá-lo da embaixada, e agora conseguiu.

O que foi revelado nesta fuga de informação?

Chama-se INA Papers. Os documentos demonstram o que todos já sabiam, que Lenin tinha uma empresa de investimentos aberta pelo seu irmão em Belize, um paraíso fiscal, com o nome de INA, em homenagem às três filhas de Moreno: Irina, Cristina e Karina. Depois abriram uma conta no Balboa Bank do Panamá. Ali lavaram dinheiro que receberam de subornos de empresas de construção chinesas e que pagou uma vida de reis a Moreno, com móveis antigos, apartamentos na Suíça e no mediterrâneo, etc. Moreno não conseguiu ocultar essa fuga, e então icou muito irritado e prometeu expulsar Assange. Tentou que Assange saísse da embaixada, estavam a torturá-lo física e psicologicamente, tentando quebrá-lo como ser humano. E agora permitiram que a polícia britânica entrasse na embaixada, o que é uma violação primária à soberania de um país. É algo absolutamente inédito na história mundial.

É uma vingança pessoal porque há umas semanas ele [Julian] expôs um caso de corrupção muito grave que envolve Lenin Moreno [atual presidente e sucessor de Correa] e a sua família. Foi por isso que Lenin Moreno quis enxotá-lo da embaixada. Lenin Moreno sempre quis expulsá-lo da embaixada, e agora conseguiu.

É legal que um país retire um asilo político já concedido?

Não, não, não, de nenhuma maneira. O princípio do asilo garante que o Estado que dá asilo não pode jamais entregar o asilado a quem o persegue. E além disso, para retirar uma cidadania, é preciso que haja uma investigação que prove que houve fraude. Assange cumpriu com todos os requisitos, reside há mais de 5 anos em território equatoriano – que é a embaixada. E vai contra decisões do Comitê das Nações Unidas contra Detenções Arbitrárias, e também contra toda ética e contra a nossa Constituição.

Porque diz que Lenin Moreno sempre quis expulsar Assange?

Porque ele entregou-se ao governo dos Estados Unidos desde o princípio, uma traição sem precedentes aos compromissos de campanha. Lembre-se que ele assumiu no dia 24 de maio de 2017. Mas no dia 20 de maio reuniu-se com Paul Manafor , ex-chefe de campanha de Donald Trump, antes ainda de assumir, e ofereceu Assange aos Estados Unidos em troca de ajuda financeira ao Equador. E isso aconteceu porque em fevereiro o Fundo Monetário Internacional (FMI) deu um empréstimo de 4,2 bilhões de dólares ao Equador com apoio do governo americano. No ano passado o vice de Trump, Mike Pence, visitou o Equador e juntamente com Lenin chegaram a três acordos. O primeiro é isolar a Venezuela regionalmente – basta ver como o Equador está a comportar-se. O segundo é deixar a Chevron-Texaco na impunidade, deixando de processá-la [por derramamentos massivos de petróleo nos anos 90]. E o terceiro é entregar Assange.

Rafael Correa
Rafael Correa foi o responsável pela concessão de asilo ao fundador da Wikileaks

Diz que torturavam Julian Assange na embaixada. Como?

Tinham-no isolado, sem internet, com visitas restritas e um regulamento muito rígido que acredito que até o gatinho de Assange tinha que seguir! Queriam humilhar Assange com essas ações, mas na verdade estavam humilhando o nosso país, Equador.

Você mantinha contacto com Assange?

Não, eu nunca conheci Assange. A única vez que falei com ele foi em 2012 durante uma entrevista que ele fez para a série O Mundo Amanhã.

O que significa para o Equador essa decisão?

É uma humilhação enorme, uma das maiores humilhações da história do país. E vai destruir a credibilidade internacional do Equador, trazendo enormes consequências, por culpa de Moreno. E não só para o país, mas para a região sul-americana. Quem vai querer pedir asilo para que seja traído dessa maneira pelo mesmo país que outorgou o asilo? É algo terrível.

Tinham-no isolado, sem internet, com visitas restritas e um regulamento muito rígido que acredito que até o gatinho de Assange tinha que seguir! Queriam humilhar Assange com essas ações, mas na verdade estavam humilhando o nosso país, Equador.

Você foi acusado pelo sequestro de um opositor e o governo equatoriano fez inclusivamente um pedido de prisão internacional contra si, que foi rejeitado pela Interpol. Como está sua situação atual?

É uma perseguição brutal. Assim como estão perseguindo o Lula, a Cristina Kirschner, a todos. E porque somos líderes de esquerda não temos direitos humanos! Está em curso uma absurda deturpação mediática e da Justiça.

Nota: esta entrevista é publicada ao abrigo do acordo de republicação que o Polígrafo tem com a Agência Pública de Jornalismo Investigativo

Notificações

Na sua rede favorita

Siga-nos na sua rede favorita.