Corria um dia quente de Verão, 25 de julho do ano passado, o termómetro marcava 31.ºC na capital dos Estados Unidos, Washington. No interior da casa Branca, com uma temperatura naturalmente mais amena, o presidente dos Estados Unidos levantava o auscultador do telefone. O dia de trabalho tinha começado há pouco, o relógio marcava alguns minutos depois das nove da manhã. Do outro lado da linha, a praticamente oito mil quilómetros de distância, atendia Volodymyr Zelensky, nada mais, nada menos que o presidente da Ucrânia. O propósito da chamada seria felicitar Zelensky, por ter conseguido maioria absoluta para o seu partido nas legislativas ucranianas, poucos dias antes.

Donald Trump divulgou taxa de aprovação do seu desempenho inflacionada em 12 por cento?
créditos: Pixabay

Menos de dois meses depois, em setembro, aquilo que parecia ser um telefonema de simpatia diplomática tornou-se num autêntico escândalo que colocou a Casa Branca e o presidente dos Estados Unidos debaixo de fogo. Um agente dos serviços secretos norte-americanos fez uma denúncia contra o republicano, que envolvia o telefonema para a Ucrânia. Para além de ter felicitado Zelensky, Trump teria pressionado o humorista eleito presidente do país da Europa de Leste a investigar Joe Biden, ex-vice-presidente dos Estados Unidos e possível adversário de Trump nas eleições de 2020, e o filho Hunter Biden, que trabalhou para uma empresa de gás ucraniana quando o pai era vice-presidente americano. O objetivo da averiguação seria perceber se Biden tinha mandado parar uma investigação à empresa onde trabalhava o filho e, depois, difamar e prejudicar o democrata na corrida àpresidência dos Estados Unidos, este ano.

Depois de a acusação vir a público, no início da segunda quinzena de setembro, Trump apressou-se a desmenti-la e a descredibilizá-la no Twitter: «Os democratas de extrema-esquerda e os seus parceiros de media de notícias falsas (…) pensam que eu pude ter uma conversa ‘perigosa’ com determinado líder internacional, baseados em declarações de denunciantes ‘altamente partidarizados’ (…) É estranho que, com tantas pessoas a ouvir e a saber da conversa correta e respeitosa, ninguém tenha dito nada. Sabem porquê? Porque nada de errado foi dito, foi uma conversa perfeitamente normal». Ainda no mesmo dia, Trump disse aos jornalistas que o relato do denunciante era «uma história ridícula. É um denunciante partidarizado».

Entretanto, a polémica adensou-se, com o New York Times a tornar públicos detalhes sobre a fonte - por exemplo, o facto de pertencer à CIA, a secreta externa americana. A revelação foi vista por muitos como uma ameaça à segurança do agente e como um ataque forte ao jornalismo de investigação, pelo facto de outras pessoas poderem inibir-se de fazer denúncias com receio de serem identificadas ou de sofrer represálias.

O certo é que, depois de alguma pressão, a Casa Branca acabou por mostrar a transcrição do telefonema entre Trump e Zelensky, que comprova a denúncia do agente da CIA. Realmente, o presidente dos Estados Unidos pediu ao homólogo ucraniano para investigar Joe Biden e o filho. Verdade também é o facto de, antes do telefonema, o presidente ter congelado cerca de 400 milhões de dólares de ajuda militar ao país europeu, que foram entregues a 12 de setembro, antes da polémica vir a público, e com o presidente ucraniano a garantir que «agora podemos dizer que temos muito boas relações com os Estados Unidos». Os democratas garantem que o congelamento do dinheiro foi uma forma de coagir o Governo da Ucrânia a abrir a investigação pedida.

Donald Trump

Pouco depois da publicação da transcrição do telefonema por parte da Casa Branca, a maioria Democrata na Câmara dos Representantes anunciou um inquérito para destituir Donald Trump, por abuso de poder e tentativa ilícita de pressão sobre um líder estrangeiro para investigar um adversário político.

Ainda assim, a campanha do presidente dos Estados Unidos contra o delator que o denunciou prosseguiu: pediu várias vezes a revelação da sua identidade e, de acordo com o site de verificação de factos Politifact, Trump repetiu mais de 80 vezes que o relato do agente da CIA era falso, fraudulento, «ficção absoluta», «inventado» e«muito errado». Mais tarde, a 6 de outubro, o presidente insistiu que o «denunciante revelou a conversa telefónica quase toda de forma errada»

Como se não fosse suficiente, o republicano continuou a lutar contra o óbvio: em Novembro e dezembro voltou a afirmar que «quase tudo o que está escrito na denúncia é uma mentira» e que «o denunciante defraudou o nosso país, porque escreveu uma coisa que é quase totalmente falsa».

Ora, foi por isto mesmo que o Politifact elegeu a atitude de Trump como a mentira do ano de 2019. A eleição é o único momento em que o jornal de fact-checking,  vencedor de um prémio Pulitzerutiliza a palavra «mentira» para se referir a falsidades que são repetidas vezes sem conta para tentar minar uma narrativa correta e verdadeira, exatamente o que fez Trump, com declarações que, segundo o jornal, são mais do que «ridículas e erradas».

Notificações

Na sua rede favorita

Siga-nos na sua rede favorita.