Boris Johnson foi eleito líder do Partido Conservador no passado dia 24 com um objetivo claro: conduzir, de uma vez por todas, o Reino Unido à porta de saída da União Europeia (UE), depois das sucessivas tentativas fracassadas de Theresa May. Esta missão será o maior teste à consistência e à credibilidade de um político que tem vindo, desde há muito, a ser associado à propagação no espaço público de mentiras puras ou manipulações refinadas.

Boris Johnson foi correspondente em Bruxelas quando trabalhou no jornal The Telegraph e foram vários os artigos que publicou sobre alegadas normas europeias que pretendiam alterar os costumes britânicos. Nessa altura, o ex-editor do The Times, Martin Gletcher, comparou os artigos de Johnson a “uma coleção de piadas do dia das mentiras”.

Também o antigo correspondente do jornal em Bruxelas, Michael Binyon, citado pelo jornal espanhol Maldita.es, garante que não confiaria em Johnson “nem um cabelo”. Sobre as fontes das histórias que arranjava, Binyon garante que “ninguém sabia de onde elas saíam”. Mais: em diversas ocasiões recebeu chamadas de editores a acusá-lo de não encontrar histórias tão aliciantes como as Johnson.

O primeiro grande momento em que Johnson foi apanhado numa polémica foi aos 23 anos, quando era jornalista no jornal britânico The Times. Na altura Johnson atribuiu ao seu padrinho, o historiador Colin Lucas, a afirmação de que o rei Edward II e Piers Gaverston tinham tido encontros de cariz sexual no Palácio Rosary. Problema: Colin Lucas é especialista na Revolução Francesa e não na época medieval britânica. A história, que na altura foi capa do jornal, era obviamente falsa. Johnson foi obrigado a reconhecer o erro, que numa entrevista ao The Independent qualificou como “um dos maiores” da sua vida.

boris Johnson
boris Johnson

Outro lapso que seguramente constará do “best of” do agora líder do Executivo britânico relaciona-se com... preservativos. Sim, preservativos. Quando era correspondente do jornal  Daily Telegraph em Bruxelas, Johnson escreveu um artigo que afirmava que a Itália tinha pressionado a UE para alterar a padronização existente dos tamanhos dos preservativos vendidos. Objetivo: alertar os habitantes do Reino Unido para a alegada “intrusão” da UE em todos os domínios da vida. O artigo originou um desmentido por parte da UE, em 12 de março de 2000: “A UE não está envolvida no estabelecimento de padrões de preservativos. O Comité para Padronização Europeia [CEN, na sigla inglesa] é um corpo voluntário constituído pelas agências de padronização nacionais e afiliada com as organizações de indústria/consumidores para os 19 países europeus. Não tem nada a ver com a EU.”

Anos antes, em 1993, Boris Johnson disseminou outra história fantasiosa: a de que as batatas fritas com sabor especial a cocktail de camarão, muito apreciadas em Inglaterra, iam sair de circulação por ordem da UE. Mais uma vez a Comissão Europeia negou esta informação.

Quando era correspondente do jornal  Daily Telegraph em Bruxelas, Johnson escreveu um artigo que afirmava que a Itália tinha pressionado a UE para alterar a padronização existente dos tamanhos dos preservativos vendidos.

Já na política ativa, a sua tendência para inventar agudizou-se. Em julho deste ano, afirmou que a UE estava a obrigar os comerciantes de salmão fumado a colocar um sistema de refrigeração nas encomendas que enviavam, o que implicava um investimento absurdo e até um problema para o meio ambiente. A verdade é que não é a UE que exige que o transporte de produtos de alimentação vendidos pela internet seja acompanhado por um sistema de refrigeração, mas sim o próprio Reino Unido. A Comissão Europeia garantiu que a informação é incorreta e que “o caso descrito pelo Sr. Johnson está fora da alçada da legislação da UE e recai puramente sobre a competência nacional do Reino Unido”, acrescentando que “existem regras estritas no que toca ao peixe fresco, mas este tipo de leis não se aplica ao peixe processado”.

Em 1993, Boris Johnson disseminou outra história fantasiosa: a de que as batatas fritas com sabor especial a cocktail de camarão, muito apreciadas em Inglaterra, iam sair de circulação por ordem da UE. Mais uma vez a Comissão Europeia negou esta informação.

A informação foi confirmada também pela Agência Britânica de Controlo Alimentar, que explicou à plataforma de fact-checking inglesa Full Fact que “no Reino Unido, o salmão fumando que é vendido online tem de ser mantido a uma temperatura aceitável durante o envio” e que “os empresários têm de garantir que o material usado para o fazer é apropriado para a comida e para as condições de uso”.

Boris Johnson foi correspondente em Bruxelas quando trabalhou no jornal The Telegraph e foram vários os artigos que publicou sobre alegadas normas europeias que pretendiam alterar os costumes britânicos. Nessa altura, o ex-editor do The Times, Martin Gletcher, comparou os artigos de Johnson a “uma coleção de piadas do dia das mentiras”.

Nem Portugal escapou à excentricidade imaginativa de Boris. Numa visita oficial a Lisboa, em novembro de 2018, enquanto ministro das Relações Externas do governo de Theresa May, foi o protagonista de um vídeo caricato em que o seu desconhecimento sobre vários factos da relação entre Portugal e o Reino Unido é evidenciado. O vídeo captado pela BBC, e que se tornou viral no Twitter, mostra Johnson a afirmar que Portugal é o quarto maior parceiro comercial do Reino Unido – quando é o oposto – e que James Bond nasceu no Estoril – o que é também falso. No decorrer do vídeo, Johnson é repetidamente corrigido pela sua equipa de produção.

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